Quando viver na rua não é obrigação, mas opção de vida
Ser sem-abrigo é uma condição na qual muitas pessoas são obrigadas a viver, mas para contrariar a tendência um casal francês optou por viver na rua. Ele, Michel Colard, franciscano, escolheu ser sem-abrigo há 20 anos, ela, Colette Gambiez, há 10.
As vidas de Michel Colard, de 58 anos, e Colette Gambiez, de 47 anos, cruzaram-se há cerca de treze anos e desde essa altura até agora as suas vidas fazem-se juntamente com a de muitos sem-abrigo franceses e belgas e até já deu dois livros.
Para já só um está editado em Portugal, mas este casal francês veio a Portugal para dar a conhecer a sua vida e contactar com a realidade portuguesa da pobreza e da mendicidade.
Michel é franciscano e desde 1983 partilha a sua vida com a dos sem-abrigo e Colette, enfermeira de profissão, juntou-se ao projecto nove anos mais tarde. Juntos renunciaram a qualquer tipo de bem material e decidiram partilhar o seu dia-a-dia com os sem-abrigo.
"Tratou-se do nosso desejo de partilhar a nossa vida e escolhemos os sem-abrigo porque são os mais abandonados e os mais desprezados. Não é uma questão de comparar sofrimentos, mas são sem dúvida os mais excluídos", explicou Michel à agência Lusa, durante uma ronda de doação de alimentos a sem-abrigo de Lisboa com a Comunidade Vida e Paz numa noite fria.
"São pessoas que acham que a sua vida não vale nada e nós esperamos trazer alguma abertura à vida deles, convivendo e partilhando a sua vida", acrescentou Colette.
Michel e Colette não esperam conseguir mudar o mundo, mas defendem que "há falta de amor gratuito" e que a condição dos sem- abrigo, apesar de difícil, pode ser alterada.
O livro, intitulado "Quando o excluído se torna o eleito", é o resultado de muitos anos de contacto com esta população e traz não só uma narração pormenorizada da vida de um sem-abrigo como deixa pistas para a compreensão e resolução deste problema social, ao mesmo tempo que lembra que ser sem-abrigo não é uma escolha livre, mas sim a consequência de uma série de ocorrências.
Segundo os dois autores, esta é uma população que não é muito solidária entre si e que, por isso, nunca chega a constitui-se em comunidade.
"Não gostam de partilhar os seus problemas e não gostam de ver nos outros os seus próprios problemas", explica Colette, salientando que apesar disso sempre se sentiram bem recebidos pelos sem-abrigo.
Defendem uma nova postura perante os sem-abrigo e, para isso, avançam com muitas propostas relacionadas não só com os locais de acolhimento como com a distribuição de comida.
Para estes "sem-abrigo por opção" é importante que as organizações que distribuem alimentos e outros bens a esta população o faça numa atitude de partilha, ou seja, em vez de simplesmente darem, deveriam partilhar, comendo e convivendo com eles.
Por outro lado, defendem a criação de espaços de acolhimento onde os sem-abrigo possam ter alguém com quem desabafar os seus problemas.
Acham também importante a criação de pequenas casas de acolhimento onde quem vive na rua possa viver em grupos de três ou quatro porque, regra geral - dizem -, os sem-abrigo "não gostam de dormitórios públicos" e "é-lhes muito difícil viver sozinhos num quarto".
Em relação ao trabalho, Michel e Colette lembram que grande percentagem da população de sem-abrigo não tem condições de ter um emprego a tempo inteiro, mas defendem a criação de tarefas ocupacionais que lhes preencha os tempos vazios.
O casal francês está em Portugal desde dia 20 de Fevereiro, a convite da Cáritas Portuguesa, e regressa a França no dia 04 de Março.
Pelo meio terá os dias completamente preenchidos com a partilha da sua experiência entre as mais diversas instituições de apoio aos sem-abrigo de norte a sul do país.