Quatro mil reclusos frequentam ensino especial nas cadeias
Quatro mil dos 14 mil reclusos portugueses vão à escola sem sair da cadeia, revelou hoje a presidente de um congresso de professores afectos a este tipo de ensino que decorre em Paços de Ferreira.
Maria Alice Costa considerou que se trata de uma "grande adesão" dos reclusos a este tipo de ensino e atribuiu- a ao facto de os presos entenderem a escola atrás das grades "como um espaço de liberdade".
"Apreciam muito o contacto com os professores, por serem gente alheia ao sistema prisional, e nós aproveitamos esse facto não só para lhes fornecer conhecimento cognitivo, mas também para incutir valores que facilitem a sua reinserção social após o cumprimento da pena", acrescentou.
Maria Alice Costa, que também coordena o ensino na cadeia de Paços de Ferreira, sublinhou alguns casos de "grande sucesso" com reclusos que completaram a sua formação no secundário e que estão agora a frequentar o ensino superior.
"A maioria dos alunos-reclusos fica-se pelos primeiro e segundo ciclos do ensino básico, mas há alguns verdadeiramente brilhantes. Conheço um que chegou ao 5º ano de Direito e outro ao 4º ano de Psicologia", declarou.
Ainda assim, Maria Alice Costa admitiu que "nem tudo são rosas" e que "muitos desistem com facilidade", considerando que tal comportamento se deve "à sua personalidade imediatista".
"Se não conseguem logo os objectivos escolares a que se propõem, abandonam a escola e refugiam-se nas suas celas, em inactividade total", explicou.
Os professores nas prisões - 600 em todo o país - são cedidos por escolas associadas aos diversos estabelecimentos de ensino e, no caso de Paços de Ferreira, essa missão está confiada à Escola Secundária local, disse Maria Alice Costa.
As aulas nas prisões, que funcionam em 52 dos 56 estabelecimentos prisionais portugueses e foram instituídas em 1982, seguem o modelo do ensino recorrente (antiga educação de adultos).
Cerca de 90 por cento dos formandos são homens, "espelhando a realidade do sistema prisional", onde nove em cada dez reclusos são do sexo masculino.
No congresso foi ainda defendido que o ensino e a formação profissional em meio prisional deveria ser remunerado "como qualquer outra actividade", "impedindo dessa forma o abandono [por parte dos docentes] por motivos económicos".