Reconhecimento de "descoberta extraordinária"- Sobrinho Simões

O patologista Sobrinho Simões considerou "justíssima" a atribuição do Nobel da Medicina aos australianos Barry Marshall e Robin Warren, manifestando-se "felicíssimo" pelo reconhecimento de uma "descoberta extraordinária" que permitiu curar a gastrite e a úlcera do estômago.

Agência LUSA /

"Não me lembro em toda a minha vida de ter ficado tão feliz com um prémio destes como fiquei agora", afirmou.

Barry Marshall e Robin Warren identificaram em 1982 a bactéria helicobacter pylori e perceberam que a gastrite e a úlcera do estômago ou do duodeno são causadas por este bacilo, o que veio melhorar consideravelmente as possibilidades de tratamento e cura.

Na opinião de Sobrinho Simões, que dirige o Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto (IPATIMUP), esta foi uma descoberta extraordinária, mas "muito simples", porque os dois médicos "limitaram-se a observar a realidade".

Os clínicos faziam biopsias a doentes com gastrites e viam sempre a mesma bactéria - helicobacter pylori - o que os levou não só a identificar o agente, como também a relacioná-lo com as doenças.

A partir daí, doenças que se tratavam apenas com cirurgia e que normalmente eram recidivas, passaram a curar-se definitivamente apenas com antibiótico, explicou.

Sobrinho Simões sublinhou a "justiça absoluta" deste galardão para os dois investigadores, que foram totalmente desacreditados na altura da sua descoberta (1982).

"Na altura todos pensavam que já não havia bactérias para descobrir e andavam a estudar vírus, por isso ninguém acreditava neles. Chamaram-lhes de tudo", disse, elogiando a sua "perseverança".

No fundo, esta foi uma "descoberta anacrónica" (contra o tempo) e foi "humilhante que não tivesse sido descoberta antes".

Sobrinho Simões, especialista também em patologia do estômago, congratulou-se com este Nobel "por recompensar pessoas que na medicina vêem doentes", já que Warren e Marshall "eram clínicos que ouviam atentamente os doentes, faziam perguntas inteligentes e procuravam respostas".

"Só estamos habituados a ver atribuir prémios a investigadores que fazem descobertas sofisticadas", disse, defendendo que um prémio destes "reforça a auto-estima das pessoas que fazem clínica".

Comentando o atribuição do Nobel mais de 20 anos após a descoberta de Warren e Marshall, Sobrinho Simões entende que esta "não veio tarde".

"Veio na altura certa porque deu tempo para consolidar a descoberta e despertar uma quantidade enorme de novas investigações", nomeadamente saber se a helicobacter pylori está associada a outras doenças.

Hoje sabe-se, por exemplo, que a bactéria está associada ao cancro do estômago, mas também que quem tem úlcera do duodeno provocada pela helicobacter pylori nunca desenvolve esse tipo de carcinoma, referiu.

"Hoje em dia a produção científica a partir desta descoberta é uma coisa extraordinária. É um campo onde ainda há muito por descobrir", frisou.

A identificação da helicobacter pylori é considerada um dos acontecimentos científicos mais relevantes dos últimos 25 anos, segundo a Assembleia Nobel.

O Prémio Nobel da Medicina 2005 foi anunciado hoje de manhã em Estocolmo.

O prémio, no valor de 10 milhões de coroas suecas (1,1 milhões de euros), será entregue a 10 de Dezembro, data do aniversário da morte de Alfred Nobel, fundador dos galardões.

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