Reconversão das urgências no Porto gera polémica no Hospital Santo António

Porto, 28 Jan (Lusa) - A reconversão das urgências de Urologia na região do Porto, em vigor desde 01 de Janeiro, está a gerar polémica entre os especialistas do Hospital Santo António e motivou já a demissão do director daquele serviço desta unidade hospitalar.

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"Pedi a minha demissão a 02 de Janeiro para manter a consciência tranquila e não pactuar com erros grosseiros da prática clínica", disse hoje à Lusa Filinto Marcelo que discorda da decisão da Administração Regional de Saúde do Norte (ARS/Norte) de concentrar a urgência de Urologia da região no Hospital de S. João.

Até ao final de 2008 existiam duas urgências de Urologia no Porto, uma no Hospital Santo António, que funcionava 24 horas por dia, e outra no Hospital S. João, que apenas estava disponível durante o dia e tinha um médico de prevenção à noite.

Com o novo modelo de reorganização dos serviços, a urgência de Urologia foi centralizada no Hospital S. João, sendo os médicos do Santo António "obrigados a ir fazer noites (à outra unidade hospitalar)" em regime rotativo.

Os médicos do Santo António contestam esta decisão, porque entendem que há espaço para duas urgências a funcionar em permanência.

Segundo Filinto Marcelo, a actual situação "envolve riscos consideráveis" porque com a deslocação dos especialistas, várias noites por semana, para a urgência no S. João, os doentes internados no Santo António ficam sem acompanhamento.

"O que se passou, por exemplo, na noite de 22 para 23 de Janeiro foi que o serviço ficou sem ninguém e um doente de 92 anos, internado em Urologia, teve de ser transferido para o S. João, porque havia arrancado uma sonda", disse Filinto Marcelo.

Apontou ainda outras situações que poderiam ter tido consequências "muito graves", caso não tivessem o atendimento de um urologista, citando, entre outros, o exemplo de "uma mulher em coma, com sépsis de causa urológica".

"Sem médico, o que teria acontecido a esta doente?", questionou.

Os médicos do Serviço de Urologia do Santo António ainda mantêm a esperança de que a ARS/Norte volte atrás na sua decisão, na sequência de um proposta que apresentaram esta terça-feira.

A proposta é que a urgência de Urologia funcione alternadamente, de 15 em 15 dias, nos dois hospitais. No Santo António funcionaria nos mesmos moldes, como até 01 de Janeiro, e no S. João, incluiria a participação de urologistas dos outros hospitais da região.

Um outro urologista do Santo António, ouvido pela Lusa, sustentou que o actual modelo também está a criar situações de ilegalidade.

"Devido à falta de médicos, alguns clínicos estão a fazer mais horas de urgência do que o permitido por lei", assegura.

O Serviço de Urologia do Hospital Santo António tem 12 médicos, mas apenas sete com menos de 55 anos, que é a idade limite para se poder trabalhar na urgência.

Contactada pela Lusa, a Administração Regional de Saúde do Norte (ARS/Norte) escusou-se a fazer qualquer comentário sobre esta situação.

PM/FR.


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