Referendo estava excluído há muito e Sócrates quis enganar portugueses - Pacheco Pereira
Lisboa, 10 Jan (Lusa) - O social-democrata José Pacheco Pereira acusou na quarta-feira o primeiro-ministro de ter excluído há muito a realização de um referendo sobre o novo tratado europeu e de ter enganado os portugueses encenando uma decisão de última hora.
Pacheco Pereira demarcou-se assim dos comentadores, jornalistas e políticos, entre os quais se conta o presidente do PSD, Luís Filipe Menezes, que consideraram ter havido uma hesitação por parte do Governo sobre a forma de ratificação do tratado assinado em Lisboa.
No seu blogue, "Abrupto", www.abrupto.blogspot.com, Pacheco Pereira sustenta que se tratou de uma "completa desfaçatez do primeiro-ministro", que promoveu uma "operação de desinformação" a partir do seu gabinete e fingiu nos últimos dias uma indecisão, com "teatro puro".
A dúvida entre o referendo e a ratificação por via parlamentar é "uma lenda urbana criada a partir do gabinete do primeiro-ministro para nos passar a mensagem de que o pobre Sócrates queria muito cumprir a sua promessa eleitoral, só que o Presidente e os seus colegas europeus não o deixaram, agarraram-no à última hora, `in extremis` e ele, pelos mais nobres motivos, lá teve que violentar a sua vontade", afirma o social-democrata, no texto colocado na Internet quarta-feira ao fim da tarde.
"Se assim fosse", se o primeiro-ministro tivesse tomado a decisão à última hora, "a leviandade seria absoluta, tudo feito em cima dos joelhos. Mas não foi, porque esta é uma matéria sobre a qual o primeiro-ministro tem certamente, de há muito, tomada uma decisão", defende.
"Tudo isto suscita uma ainda maior preocupação: que homem é este que nos governa que não hesita em enganar-nos de forma tão deliberada, com tanta desfaçatez, e desprezo pelos outros? É sem dúvida um homem perigoso", escreve.
Pacheco Pereira argumenta que é "não só um absurdo como algo completamente implausível como `decision making`" imaginar "que tudo corre entre governos e primeiros-ministros como Sócrates, Sarkozy e Merkel ao estilo das conversas de café, estados de alma, decisões e contra-decisões, - no mesmo dia duas diferentes -, pressões e conselhos de última hora".
"Insisto, pensar que as coisas correm assim é do domínio das histórias da carochinha", acrescenta.
"Na vida real dos governos e da diplomacia, as coisas não se fazem na base de impressões, nem das leituras pelas embaixadas dos jornais", declara Pacheco Pereira.
IEL.
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