Restaurantes chineses tentam limpar imagem

Restaurantes chineses tentam limpar imagem

As inspecções de Março passado a restaurantes chineses quebraram a confiança nos estabelecimentos, que perderam clientes e dinheiro, de acordo com vários proprietários ouvidos pela Agência Lusa, e estão empenhados em limpar a sua imagem.

Agência LUSA / Adicionar como fonte informativa

As brigadas da Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE) inspeccionaram no dia 30 de Março 130 restaurantes chineses por todo o país e encontraram irregularidades em 89 por cento deles, encerrando 14.

Em restaurantes de Lisboa e Porto visitados pela Agência Lusa, as dificuldades que alguns proprietários já sentiam, mesmo aqueles já estabelecidos há décadas, agravaram-se depois das inspecções, acompanhadas de perto pela comunicação social.

O decano dos donos de restaurantes chineses em Portugal, o senhor Chu, disse à Lusa que se verificou uma "grande queda" no número de clientes dos seus dois restaurantes no Porto, entre 50 e 60 por cento, desde a Operação Oriente da ASAE.

É dono do Restaurante Chinês, o mais antigo de Portugal, fundado em meados dos anos sessenta mesmo junto à Ponte de D. Luís, e do King Long, estabelecido há duas décadas na baixa do Porto.

Ambos foram visitados pelas brigadas da ASAE, no âmbito da "Operação Oriente", e ambos passaram o exame sem problemas.

O King Long tem oito empregados, cinco portugueses e três chineses, entre os quais o cozinheiro, disse a mulher do senhor Chu, senhora Li, que faz questão de sublinhar que a empregada mais antiga é portuguesa, encarregada da limpeza.

"Nos nossos restaurantes estamos em limpeza constante, desde que eles abrem até que fecham", disse a senhora Li.

O senhor Chu afirmou-se convencido de que a percentagem de restaurantes chineses que não cumprem a legislação sanitária não deve diferir muito da que ocorre nos restaurantes portugueses.

"Se fizerem uma operação semelhante em restaurantes portugueses, vão ver que é igual", disse.

O proprietário do King Long e do Restaurante Chinês considera a situação grave, ao ponto de muitos dos seus colegas estarem à beira de fechar, por falta de negócio, o que não é para já o caso dos seus dois estabelecimentos.

Por isso aprova as diligências da sua comunidade no sentido de restabelecer o bom nome dos restaurantes chineses: "temos que nos unir para reconquistar a confiança dos clientes, de forma a ultrapassar rapidamente este período difícil", afirmou.

Chang Zhu, proprietário do Huatali, na baixa de Lisboa, estima entre "40 a 50 por cento" a perda de clientes desde as inspecções, apesar de o restaurante já existir "há 18 anos".

A primeira quebra visível no negócio aconteceu com o receio da pneumonia atípica, que afectou vários países asiáticos em 2002, mas uma semana depois das inspecções de Março, o número de clientes caiu para "cerca de metade".

"Vários restaurantes já fecharam", afirmou Chang Zhu, que dá emprego a dez pessoas e prevê que "se isto continuar assim", não se consegue aguentar.

Para tentar reconquistar a confiança dos clientes e "limpar a imagem" dos restaurantes chineses, a Associação de Comerciantes e Industriais Luso-Chinesa convidou o presidente da Câmara de Lisboa, Carmona Rodrigues, e o embaixador da China em Portugal, Ma Enhan, para jantar na próxima terça-feira no Huatali.

Aquando das inspecções, a embaixada chinesa em Lisboa contestou a operação e a comunidade chinesa e a comissão portuguesa para a igualdade contra a discriminação racial acusaram a autoridade de potenciar a xenofobia e a estigmatização dos chineses.

Os problemas dos restaurantes chineses foram mesmo noticiados na semana passada pelo jornal oficial do Partido Comunista Chinês, o Diário do Povo, que falou em "calamidade" no sector.

Em outros estabelecimentos lisboetas visitados pela Agência Lusa, o desconforto em falar do negócio para a comunicação social foi evidente, mais ainda quando o assunto vai parar às inspecções.

"Aqui temos tudo limpo", declarou imediatamente um dos empregados do restaurante Grande Mundo, a funcionar "há oito anos" em Belém, que preferiu o anonimato.

Mesmo com a sala de refeições praticamente vazia, era grande a pressa de acabar a conversa, estimando, sem pensar muito, em "15 por cento" a perda de clientes desde as inspecções.

O mesmo empregado não especificou se o Grande Mundo, onde [o ex-presidente da República] "Jorge Sampaio e a família" eram clientes habituais, também foi um dos visados pela ASAE.

Noutro estabelecimento na zona de Belém, a sala igualmente vazia em hora de almoço é o cenário habitual "desde o início do ano", disseram à Lusa dois dos empregados, também muito reticentes em dar pormenores do negócio.

O proprietário do Xin Xin, no Centro Comercial da Boavista, no Porto, assinalou uma redução drástica no número de clientes, o que motivou já a demissão dos dois funcionários que ali trabalhavam.

No momento em que a Lusa visitou o restaurante, em plena hora do almoço, não se encontrava nenhum cliente, uma situação que, segundo o proprietário, Zhimin Zhu, já é habitual e que o leva a ponderar o encerramento do estabelecimento.

Admitiu que o negócio já não andava muito bem, mas desde que a "Operação Oriente" foi desencadeada, a situação tornou-se insustentável, com dias em que não factura nem um euro.

"Antes da operação, apurávamos cerca de 200 a 300 euros. Agora a maior parte dos dias não ganhamos nada", disse, frisando a impossibilidade de continuar a pagar a renda e todas as outras despesas inerentes ao funcionamento de um restaurante.

Zhimin Zhu não critica a realização da operação, porque reconhece que muitos restaurantes funcionavam sem condições de higiene, mas lamenta a forma como a mesma foi divulgada, por considerar que foram todos "metidos no mesmo saco".

Disse ainda ter conhecimento de que muitos outros restaurantes das cidades do Porto e Gaia estão a atravessar "enormes dificuldades", acrescentando que alguns deles já encerraram ou vão encerrar.


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