Risco de queda da ponte de Entre-os-Rios associada a cheias persistia há 19 anos
Um perito do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) afirmou hoje em tribunal que a ponte de Entre-os-Rios, que ruiu em 2001, podia ter caído 19 anos antes em cenário de cheias no Douro.
"Desde 1982 que a ponte podia ter caído a todo o momento. Isto é uma certeza inabalável", afirmou Soromenho Rocha, investigador- coordenador do Departamento de Hidraúlica e Ambiente do LNEC perante o tribunal de Castelo de Paiva.
A ponte ruiu a 04 de Março de 2001 devido à cedência do pilar P4, após cinco grandes cheias no Douro, num acidente que matou 59 ocupantes de um autocarro e de três automóveis.
"Sabendo-se que havia apenas oito metros de areia em volta do pilar era preciso verificar se isso era seguro ou não", disse ainda o especialista do LNEC.
Respondendo à juíza-presidente, Teresa Silva, o investigador- coordenador do LNEC assegurou que a engenharia poderia ter recorrido a "pelo menos" dez fórmulas para calcular se o pilar P4 corria o risco de ruir.
Admitiu, contudo, que nem todos os engenheiros de pontes teriam conhecimentos nessa área específica.
Soromenho Rocha integrou o grupo responsável pelo segundo relatório pericial sobre as causas do colapso da ponte, juntamente com os professores da Universidade de Coimbra Luís Leal Lemos, Vítor Dias da Silva, Carlos Rebelo e José Antunes do Carmo.
No seu relatório pericial, concluído em 2004, estes cinco especialistas revelaram divergências face às conclusões evidenciadas em idêntico documento, preparado três anos antes, logo após a queda da ponte, por especialistas da Faculdade de Engenharia do Porto.
Na avaliação do investigador-coordenador do LNEC e dos quatro catedráticos de Coimbra, o colapso da ponte está associado à extracção de areias na zona, que provocaram uma erosão localizada.
Já os peritos do Porto - Raimundo Delgado (especialista em estruturas), Veloso Gomes (Hidráulica e Morfologia) e Silva Cardoso (Geotecnica) - defenderam que o colapso do pilar P4 ficou a dever-se à erosão generalizada no leito do rio, agravada pelas anormais cheias desse ano.
A divergência foi mantida hoje perante o colectivo de juízes de Castelo de Paiva reunido no Salão Nobre dos Bombeiros Voluntários de Castelo de Paiva.
"Tenho as maiores dúvidas sobre se foi a erosão localizada que provocou a queda da ponte", disse o perito do Porto Raimundo Delgado.
"Se a causa fosse só erosão generalizada, o pilar teria caído para o lado contrário", contrapôs Soromenho Rocha.
Num julgamento iniciado a 19 de Abril, o Tribunal de Castelo de Paiva avalia a alegada responsabilidade criminal de seis técnicos na queda da ponte de Entre-os-Rios.
Os arguidos neste processo são quatro engenheiros do Serviço de Pontes da ex-Junta Autónoma de Estradas (JAE) e dois da empresa projectista Eteclda, que o Ministério Público (MP) acusa de terem violado, em diferentes graus, as regras técnicas a observar no planeamento de modificação de construção.
Segundo a acusação, os seis técnicos negligenciaram as suas funções, "não adoptando as condutas necessárias para impedirem a criação de perigo para a segurança e a vida de qualquer pessoa que circulasse na ponte".
Neste julgamento, cinco dos seis arguidos quiseram prestaram depoimento, recusando a acusação do MP.
Devido a problemas na gravação, um deles teve de repetir o seu depoimento.
O tribunal ordenou já a anexação ao processo da sindicância feita à ex-JAE, em 1998, por ordem do então ministro João Cravinho, que detectou um funcionamento anómalo daquela entidade.