Saga da linha circular. Lumiar pede reunião ao Metro de Lisboa e Odivelas questiona Governo

Passou mais de um ano e nem Governo nem Metropolitano de Lisboa esclarecem o futuro da linha verde. Houve apenas uma discreta declaração no Parlamento em outubro: "A linha circular é para manter", mas autarquias a norte de Lisboa desconhecem decisões. Numa outra promessa, a Câmara de Odivelas questiona se o concelho vai mesmo manter ligação ao Rato nas horas de ponta. E houve ainda uma linha em "arco" à espreita.

Gonçalo Costa Martins - Antena 1 /
Foto: Gonçalo Costa Martins - RTP

Tanto a Junta de Freguesia de Santa Clara e do Lumiar, como a Câmara Municipal de Odivelas dizem à Antena 1 que não receberam qualquer anúncio formal sobre o futuro da linha circular.

A rádio pública também apurou que a Câmara Municipal de Lisboa desconhece formalmente qual a solução prevista para a linha verde, que vai incluir as novas estações de Santos e Estrela, ainda não abertas.

Contestada desde o início pelas autarquias e pela população, quando o atual governo herdou este projeto, Miguel Pinto Luz sublinhou que “a seu tempo apresentaremos as soluções”. Estas palavras foram em novembro de 2024, na Assembleia da República, com o ministro das Infraestruturas a referir que iria receber estudos que “poderão apontar num sentido ou noutro, ou até numa solução mista que possa não penalizar as populações”.
Miguel Pinto Luz | 8 de novembro de 2024

A escolha entre uma linha circular ou em laço continuou em suspenso até que, em outubro do ano passado, a secretária de Estado da Mobilidade foi categórica: “A linha circular é para manter”.

Numa audição parlamentar para o Orçamento de Estado 2026, no dia 31 de outubro, justificou a escolha como sendo a mais eficiente e que traz um transbordo para um menor número de pessoas.
Cristina Pinto Dias | 31 de outubro de 2025

Perante a falta de novidades, o presidente da Junta de Freguesia do Lumiar, Ricardo Mexia, revela à Antena 1 que pediu uma reunião com a nova administração do Metropolitano de Lisboa “para obter esclarecimentos diretamente sobre qual a perspetiva de evolução” na linha circular, mas também uma eventual expansão da linha vermelha do Aeroporto ao Campo Grande e alguns melhoramentos neste terminal.
Antena 1

O autarca afirma que esperava um anúncio sobre os estudos que dariam a conhecer as vantagens de uma linha circular ou em laço. “Aguardamos feedback, mas a nossa posição mantém-se inalterada: somos contra a linha circular e mantemos a opção alternativa da linha em laço”, defende.

O tempo de apresentar as soluções, como referiu Pinto Luz, ainda não chegou. Desde a primeira semana de dezembro que a Antena 1 questionou o Metro de Lisboa e o Governo, através do Ministério das Infraestruturas, para perceber se as declarações de Pinto Dias em outubro eram o anúncio definitivo de que se iria avançar com a linha circular.

Apesar da insistência antes e depois de a nova administração do Metro iniciar funções a 1 de janeiro, não foi obtida resposta. Esta quarta-feira, a Antena 1 questionou presencialmente Miguel Pinto Luz, que recusou responder a jornalistas à margem num evento dos 50 anos da Transtejo. Também foi abordada a nova presidente do Metro, Cristina Vaz Tomé, que adiou uma resposta sobre este assunto para o futuro.
Odivelas mantém ligação ao Rato nas horas de ponta?

Sobre o desejo da linha em laço, Pinto Dias referiu uma decisão presa a um novo investimento: “Se os dinheiros de Portugal chegarem, passar de uma linha circular para laço tal como está programada é possível desde que se invistam mais 10 a 14 milhões de euros”. 

Defensor de uma solução mista (modelo circular e em laço), o autarca de Santa Clara, Carlos Castro, diz que esse valor é “residual” e espera que o Governo “possa reavaliar a sua posição”, combinando as vantagens da linha circular dentro de Lisboa, mas também para “servir bem o norte da cidade e a área norte da Área Metropolitana de Lisboa”. 

A Câmara Municipal de Odivelas também defende a realização desse investimento, embora tenha nesta altura outras questões para o Governo.

Numa carta consultada pela Antena 1, enviada em novembro ao Ministério das Infraestruturas, questiona se continuava de pé uma promessa ainda dos governos anteriores PS, de manter a ligação atual Odivelas - Rato nas horas de ponta. 

Além de questionar afinal quando começa a anunciada linha circular, pergunta "se a tutela manterá a posição assumida anteriormente pelo PSD e que foi reiterada pelos anteriores Governos, garantido que existirá a partilha da linha circular com a linha amarela, pelo menos nos períodos de maior procura".

Já em declarações à Antena 1, o presidente da câmara, Hugo Martins, mostrou-se surpreendido com o teste de sinalética da linha circular: "Foi com grande surpresa e preocupação que assistimos recentemente à colocação de sinalética inerente ao funcionamento da futura linha circular", levando o autarca a escrever ao ministro.


Antes de começar, haverá uma linha em arco?

Seja ou não um sinal de que a linha circular avança, certo é que em 2018 o Estudo de Impacto Ambiental já antevia os prós e os contras desta solução. 

Antevendo que beneficiaria um maior número de passageiros, também reconhece que a população servida pelas estações de Odivelas, Senhor Roubado, Ameixoeira, Lumiar e Quinta das Conchas teria de fazer mais transbordos para chegar a outras partes de Lisboa - para chegar às linhas vermelha e azul, passaria a ser necessário dois transbordos. 

As deslocações entre as cinco estações referidas e a linha azul aumentará, em média, 45 segundos a viagem no período de ponta da manhã; 1 minuto na linha vermelha (exceto Alameda); e dois minutos entre as estações Cidade Universitária e Rato, que ainda pertencem à linha amarela.   

No entanto, o documento também frisava que os passageiros seriam beneficiados com uma frequência entre comboios mais reduzidas na linha circular, com um intervalo esperado de 3 minutos e 50 segundos entre comboios.

Ainda antes da entrar em funcionamento a linha circular, o Metro de Lisboa previu uma linha em "arco", isto é, sem incluir as estações de Estrela e Santos. 

No Plano de Atividades e Orçamento de 2024, são apresentados vários pressupostos na oferta da empresa. De março a dezembro de 2024 e em 2025, 
é referida uma "linha verde (arco) definida entre Rato e Cais do Sodré".

Com a mais recente estimativa fixada no segundo semestre de 2026 para arrancar a linha circular, a Antena 1 questionou se seria mantida esta solução, em que período e o que justifica o seu uso. Tal como outras perguntas, não houve resposta do Governo e do Metro de Lisboa. 


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