Seguro pede "mais atenção e investimento" para territórios do interior e da raia

Seguro pede "mais atenção e investimento" para territórios do interior e da raia

O Presidente da República pediu hoje "mais atenção e investimento" do Estado para os desafios do envelhecimento, despovoamento e distância dos centros de decisão" dos territórios do interior e da raia, em nome de um "país coeso".

Lusa / Adicionar como fonte informativa
Manuel Fernando Araújo - Lusa

"Um país coeso não se mede pela força das suas capitais, mas pela vitalidade dos seus territórios. E Portugal precisa de comunidades que resistam, que se reinventem, que atraiam quem vem de fora e não deixem ir quem quer ficar", afirmou António José Seguro, num discurso na Câmara de Vila Nova de Cerveira, no distrito de Viana do Castelo, onde se deslocou para visitar a Bienal Internacional de Arte.

Seguro observou que o "despovoamento, o envelhecimento e a distância dos centros de decisão", desafios de "territórios do interior e da raia", como é o caso de Vila Nova de Cerveira, "exigem do Estado central mais atenção, mais investimento e mais confiança nas autarquias, que conhecem melhor do que ninguém as suas gentes e as suas necessidades".

"Ser pequeno em população não é ser pequeno em ambição. E Vila Nova de Cerveira é disso exemplo", vincou.

Seguro frisou que Vila Nova de Cerveira "tem uma vantagem que poucos concelhos portugueses possuem", que é saber "exatamente o que é".

"Sabe-se castelo e sabe-se arte. Sabe-se raia e sabe-se ponte. E essa dupla identidade entre a pedra do castelo de Dom Dinis e a liberdade das telas e esculturas da Bienal faz deste concelho um lugar singular no mapa de Portugal. Que continue a merecer essa dupla vocação, de guardiã da fronteira que une e não da fronteira que separa", observou.

Bienal  uma "instituição importante fora dos circuitos dominantes"
O Presidente da República afirmou hoje que a Bienal Internacional de Arte de Cerveira (BIAC) é a prova de que é possível manter uma instituição "importante e memorável" fora dos circuitos dominantes do território.

"Ela [a BIAC] é a prova de que é possível, fora dos circuitos dominantes do território, manter uma instituição tão importante e memorável. A Bienal é uma razão por termos confiança, que é uma das palavras que temos de reinventar na nossa linguagem. A Bienal, como outras obras que permanecem na nossa história, fez-se com trabalho, insistência. Também com paixão, dedicação e criatividade", disse António José Seguro, num discurso na Câmara de Vila Nova de Cerveira, no distrito de Viana do Castelo, antes de visitar a 24.ª edição da Bienal Internacional de Arte, que decorre até ao fim de dezembro.

Para Seguro, a Bienal é "uma construção deixada por mulheres e homens que acreditaram que a arte pode deixar uma palavra, uma poeira, uma imagem, uma respiração de beleza e de interrogação em Vila Nova de Cerveira, que já é, por si só, um espelho de beleza junto de um dos mais belos rios que temos de proteger e continuar a amar".

O PR observou também que "talvez o papel da arte seja também o de identificar as linguagens do futuro".

"Não porque o mundo da decisão política tenha a obrigação de seguir os seus passos, mas porque tem a obrigação de identificar os sinais que a arte transporta nos seus caminhos e que podem alertar-nos para os problemas do futuro", sublinhou.

O tema da BIAC - "Territórios sem Fronteira" está "cheio de problemas", referiu.

"Em particular para mim, que sempre preferi os caminhos às fronteiras. Esta não é uma mensagem pessimista, apesar de frequentemente confundirmos pessimismo com a simples abordagem dos problemas, do presente e do futuro", continuou.

"Uma das vantagens da existência da palavra fronteira é podermos discuti-la e problematizá-la, não apenas como realidade política e geográfica ou como acidente da história, mas também como uma negociação com o tempo e a sua passagem", defendeu o PR.

"Falamos, abundantemente, de fronteiras que separam dois mundos. Mas num século que faz do virtual o seu emblema e a sua obsessão, talvez isso não faça tanto sentido como há nove séculos, quando Portugal começou a formar-se e a desenhar as suas fronteiras, ou como há um século, ou como há 40 anos, quando as fronteiras da Europa passaram a ser um desenho no papel, um risco no mapa, um rio atravessado por uma ponte", sustentou.

O chefe de Estado observou que a fronteira entre o Minho e a Galiza "deixou de ser física e passou a ser mental" para, com o tempo, deixar de ser mental e passar "a ser uma recordação para os textos da história, para os romances e para os acordos políticos entre os povos vizinhos".

"Esta visão idílica, ou apenas cultural, é uma benção para a humanidade que, ao longo dos últimos 70 anos, teve na Europa, sobretudo, fronteiras estáveis assentes no desejo de prosperidade comum, partilha de identidades, diálogo entre memórias e experiências", assinalou.

É por isso, frisou, "que a Constituição Europeia é um edifício precioso para a humanidade da viragem do século".

"Ignorámos, então, que os conflitos deste primeiro quartel do novo século iriam obrigar-nos a rediscutir fronteiras, a mencioná-las e, mais do que isso, a acentuá-las. As guerras atuais atravessam fronteiras e erigem fronteiras. Tal como noutras épocas da história humana, tomam as fronteiras e transformam-nos em muralhas, em fossos, em abismos que julgávamos ter sido iluminados", lamentou.

Pior do que isso, "esses conflitos não ocorrem apenas em geografias distantes, incendiando a ordem das coisas humanas, mas ardem nos limites da própria Europa, como sabemos, pela guerra da Ucrânia".

 

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