"Senado vai iniciar processo de destituição do Presidente", avisa antigo líder da FLAD

"Senado vai iniciar processo de destituição do Presidente", avisa antigo líder da FLAD

"O Senado, a meu ver, irá iniciar um processo de destituição do Presidente que será malsucedido. Mas claro que irá acontecer".

Andreia Brito com Frederico Moreno /

Fotografia: Kenia Nunes

Quem o diz é Vasco Rato. O antigo presidente da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD) até acredita que o processo de destituição não vai acabar naquilo a que chama de "bom porto".

Ainda assim defende, no programa da Antena 1 Consulta Pública, que "o processo vai demorar oito a 12 meses e Trump estará permanentemente fustigado por essas investigações".

Numa análise às eleições intercalares nos Estados Unidos da América (EUA), o professor de Ciência Política e Relações Internacionais assinala que "esta derrota altera o tabuleiro político de Trump porque será muito difícil agora fazer passar orçamentos".

A opinião é partilhada por Daniela Melo. A professora de Ciências Sociais na Universidade de Boston avisa que "vamos ter uma situação de impasse legislativo. Para o resto do mandato vamos ter um Congresso que não consegue legislar ou que legisla muito pouco".

A docente dá dois exemplos: "Donald Trump vai ter de ceder aos Democratas porque precisa dos seus votos para o Orçamento e para a subida do teto da dívida".

Daniela Melo considera que a derrota dos Republicanos na Câmara dos Representantes e no Senado "é emblemática da descrença dos eleitores na capacidade de Donald Trump de conseguir colmatar os graves problemas e gerar ainda mais problemas".

Para a docente, o Presidente dos EUA deixou de ter capacidade de persuadir eleitores que persuadiu há dois anos. "Ele desvalorizou a sua responsabilidade, mas os americanos não compraram aquilo que o Presidente estava a vender", conclui.
"Podemos utilizar a palavra banhada"
"Podemos utilizar a palavra tsunami e a palavra banhada porque é de facto um resultado que surpreende", ironiza José Azeredo Lopes. O coordenador do International Studies Programme da Escola do Porto da Faculdade de Direito fala de um resultado histórico e exemplifica com a vitória, em alguns Estados, de elementos de minorias. "Há aqui uma espécie de vingança das minorias e de recentrar político do Partido Democrático".

Além disso Azeredo Lopes defende "o grande tempero desta derrota é evidentemente o Presidente Trump e os seus desvarios ao longo destes dois anos", desvarios esses que considera ser o ataque ao Irão, a guerra das tarifas, o aumento do custo de vida, entre outras matérias.

A agressão ao Irão "representou uma enorme desilusão para parte importante do eleitorado republicano que acreditou que ele iria desinvestir da dimensão externa e não iria iniciar qualquer conflito". "Se pensarmos no Irão, na Venezuela e naquilo que está anunciado para Cuba, se pensarmos em todos os países onde os EUA usaram a força, isto também pode ter contribuído para uma certa desilusão com alguém que, na parte internacional, decidiu lançar-se numa cavalgada tresloucada, a que chamamos de guerra das tarifas", afirma.

"Há limites na capacidade que os eleitores têm no consumo deste tipo de discurso paranoico", atira Teresa Botelho. A investigadora especializada em Estudos Norte-Americanos assinala que "há um certo desconforto... não me recordo de alguma vez deste grau de falta de racionalidade".

"Esperamos sempre que haja uma espécie de asserção por parte dos eleitores de que alguma coisa está a correr mal, de que não se está a gostar da gestão de um determinado Presidente, mas uma derrota avassaladora como esta, é realmente rara", acrescenta.

O diretor-adjunto do Diário de Notícias não tem dúvidas de que a vitória dos Democratas, "é um cartão vermelho a Trump. É um cartão amarelo ao Partido Republicano. Vamos ver nos próximos dois anos Republicanos a criar distanciamento em relação ao Presidente".

Leonídio Paulo Ferreira entende que "Trump deixou de ser um trunfo" para os Republicanos, para passar a ser "algo prejudicial para eles" porque determinados eleitorados "estão completamente desiludidos porque a promessa de que ia resolver a questão económica, não só não se cumpriu como se acentuou".

"É uma sinalização política para Donald Trump. É um impacto simbólico". A análise é feita por João Ferreira Dias. O investigador do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE destaca vitória em alguns estados de Democratas com forte cariz religioso.

"As guerras culturais e o aproveitamento político da questão religiosa por parte do Movimento MAGA (Make America Great Again) vai encontrar adversários dentro daquele que é o seu campo fundamental que é o campo da religião" e adianta que "podemos estar perante um Trump em fim de ciclo. Há constrangimentos constitucionais que o deixam como o pato coxo, que o impede de tomar decisões sozinho e que poderia tomar se o Congresso tivesse ficado do lado dele".

O programa Consulta Pública é moderado pelo jornalista Frederico Moreno.
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