"Senhor regedor" de Durrães comemora domingo 110 anos de vida
Vítor Pereira, Agência Lusa
Viana do Castelo, 05 Jan (Lusa) - O "senhor regedor" de Durrães (Barcelos), completa domingo 110 anos, desafiando as leis da longevidade com a mesma autoridade com que, em tempos idos, defendia os interesses da freguesia e dirimia os conflitos da população.
Nascido a 06 de Janeiro de 1898, António Fernandes de Castro foi regedor, juiz de paz e presidente da Junta de Freguesia, gozando agora, no conforto do lar, bem junto à lareira, o merecido descanso do guerreiro.
Com mais de 40 mil dias "em cima", António mantém-se "firme na vida", apesar de as pernas já não responderem à chamada, os ouvidos já não funcionarem como antigamente e a memória também já o atraiçoar a olhos vistos.
Pai de 10 filhos, António Castro tem 24 netos, 26 bisnetos e dois trinetos. O destino quis que nascesse em Dia de Reis. E todos os anos, nesta data, o regedor é o verdadeiro rei da festa.
O "senhor regedor" come de tudo, e este poderá ser, porventura, um dos grandes segredos da sua longevidade.
Até meados de 2006 ainda continuava a beber os seus copitos de vinho, sempre tinto, mas um pequeno problema de saúde que o obrigou a tomar antibióticos alterou por completo a sua "dieta líquida".
"Nessa altura demos-lhe Coca-Cola e a partir daí nunca mais quis outra coisa. Agora, se lhe dermos o vinho que bebia já não o quer. Diz que é azedo e pede do outro, do mais docinho", conta a nora, que há vários anos é a "ama" de António Castro e a sua "intérprete".
António Castro foi regedor durante 33 anos. No fundo, era ele quem mandava na freguesia. Podia entrar na casa de qualquer pessoa, mas apenas antes de o sol se pôr. Podia até prender quem infringisse as regras da Nação.
Mas, como ele próprio fazia de questão de frisar, nunca prendeu ninguém, era "um regedor bom".
Uma vez, recebeu um ofício do Exército para prender um homem da terra, que teria roubado qualquer coisa, e, embora contrariado, lá foi cumprir a sua missão.
Entrou na casa mas o "alvo" fugiu pela janela e o regedor ficou todo contente.
António Castro nasceu no século XIX, viveu todo o século XX e já leva oito anos do século XXI.
Os tempos de outrora eram de fome e de miséria, e o regedor tinha a obrigação de estar todos os dias na padaria para assegurar que não era fornecido nem mais nem menos pão do que a ração a que cada um tinha direito por lei.
Na ocasião, foi até criada a chamada Comissão Reguladora, à qual cabia policiar o "contrabando", nomeadamente de milho. Mas António Castro "nunca conseguiu" apanhar ninguém em infracção.
"Então eu ia tirar as coisas às pessoas que eram para matar a fome aos filhos?!", questionava, em tempos idos.
Durante dois ou três anos, António Castro foi também juiz de paz. Além de poderes para resolver os pequenos problemas que se passavam no seu "torrão", tinha também autoridade para fazer conciliações em partilhas.
Mas a intervenção cívica de António Castro não se ficou por aqui: também fez parte da Junta de Freguesia durante alguns anos, uma parte deles como presidente, numa época em que os orçamentos eram "muito pobres" e as despesas se cingiam a "obras" como comprar uma corda para o sino, consertar o badalo e comprar uma soga.
Foi no seu tempo de autarca que nasceu a primeira escola em Durrães, para evitar que os meninos da freguesia tivessem que sofrer o que ele sofreu para tirar a quarta classe, na vizinha freguesia de Quintiães, para onde se deslocava descalço ou de socos, em manhãs de geada, "em que tudo estava branco".
António Castro integrou também a Comissão Fabriqueira de Durrães, ficando assim ligado ao processo de construção da nova Igreja Paroquial, para substituir a que existia, "que era velhinha e já era pequena para toda a gente da freguesia".
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