Ser negra é ser controlada no supermercado. É ouvir que o cabelo não é bonito

por Catarina Marques Rodrigues, Pedro A. Pina (imagem)
Evódia Graça, ativista e empreendedora Pedro A. Pina

Evódia Graça é ativista pela igualdade de género, empreendedora e mãe. Foi distinguida como Young African Leader por Obama e quer falar de África como um continente de pessoas de sucesso.

Ser vista pelos outros como "diferente" é ter todos os olhos postos em si, mesmo nas experiências mais rotineiras e desinteressantes, como uma ida ao supermercado."Há quase sempre um segurança que se aproxima de mim e fica a controlar. Não é normal veres o mesmo segurança em cada corredor que tu vás. Estão a ver se vais roubar alguma coisa, pelo simples facto de seres negra", conta Evódia Graça. 

"Eu e a minha irmã até costumamos brincar com eles. Vamos para um corredor porque sabemos que eles vão atrás", ri-se. O momento de ir abastecer a casa é muitas vezes "invadido" por este controlo de homens fardados. Mas a probabilidade de ter seguranças a vigiá-la entre pacotes de bolachas e centenas de iogurtes diminui quando ela vai ao supermercado com o namorado -- que é português e branco. 


Evódia Graça foi distinguida como Young African Leader em 2016 pelo presidente Barack Obama. Participou na fundação da Womenise.it, um projeto de empoderamento para mulheres em Cabo Verde, e é fundadora da Afropolitana. Tem 32 anos e desde cedo que quis mostrar que África também é sinónimo de sucesso. 

"Em Cabo Verde, quando procuram um bom exemplo no meio empresarial ou do empreendedorismo, vão sempre para os EUA ou para a Europa, quando há vários exemplos de jovens de sucesso em Cabo Verde, na Nigéria, no Gana, em Madagáscar...".

Uma parte dos projetos em que esteve envolvida passou por ir até ao interior de Santiago, em Cabo Verde, e descobrir mulheres que estivessem a desenvolver projetos e negócios. "Projetos fantásticos que ninguém conhecia porque elas não tinham as ferramentas das tecnologias de informação, não sabiam usar uma rede social", explica. 
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Quando fala em emancipação e empoderamento, Evódia Graça fala num trabalho que tem de começar por dentro: "Em Cabo Verde e em África há muito aquela ideia de: 'Eu não posso ser bonita, ser competente, ser inteligente e desempenhar um cargo de destaque. Alguma coisa tem de falhar. Eu não posso ser perfeita em tudo'", relata. 

No Womenise.it, Evódia e a equipa explicaram às mulheres "o que é isto de ser bonita, o que é eu usar um batom porque me sinto confiante, mostrar que podemos ser bonitas e profissionais". E ser bem sucedida profissionalmente não significa estar bem emocionalmente. "Há mulheres de destaque com bons empregos que depois, em termos de auto-estima, estão completamente em baixo. Não conseguem viver sem depender dos homens", conta.

Evódia teve de fazer o seu próprio caminho, ao transformar em belo o que lhe foi dito que tinha pouca beleza. "Na educação que tive em Cabo Verde, sempre me foi incutido que o afro não era bonito. Sempre foi incutido pela minha mãe que o bonito era o liso. Então, desde os 15 anos, 16 anos, o que eu mais queria era alisar o cabelo. Era um padrão claramente importado da Europa", remata.

Por isso, quando começou a ir a entrevistas de emprego, houve que tratar do cabelo antes. Nas primeiras vezes que foi à Assembleia da República não levou o cabelo no seu estado natural. Hoje, assume-o. E não quer mudar nada: "A africanidade passa por te aceitares como és e os outros que se adaptem. Eu sinto-me bem como sou. Os incomodados que se retirem". 

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