Sérgio Vilarigues, décadas de resistência à ditadura e dedicação ao PCP
Sérgio Vilarigues, que morreu aos 92 anos, aderiu muito jovem à causa comunista e à oposição à ditadura, foi preso aos 19, deportado e viveu na clandestinidade durante 32 anos.
Amigo muito próximo de Álvaro Cunhal, com quem partilhou durante década s a tarefa de organizar o aparelho do PCP clandestino, ocupou importantes cargos de direcção desde 1943, quando foi eleito para o Comité Central, até 1996, quan do saiu daquele órgão a seu pedido.
Mesmo depois de se "reformar" dos cargos de direcção que ocupou, Sérgio Vilarigues manteve a "pele" de funcionário político do PCP até ao fim, tendo re presentado o seu partido nas cerimónias que assinalaram em Cabo Verde os 70 anos da abertura do campo de concentração do Tarrafal.
O sentido de humor e um grande senso prático da vida foram-lhe reconhec idos por camaradas que com ele conviveram na sede do PCP, que continuou a freque ntar até aos últimos anos.
Natural de Torredeita, concelho de Viseu, onde nasceu a 23 de Dezembro de 1914, Sérgio Vilarigues, órfão de pai, fez a quarta classe e foi trabalhar ao s 14 anos como "cortador de carnes", ofício que voltou a exercer no campo prisio nal do Tarrafal.
Aderiu à Federação das Juventudes Comunistas Portuguesas (FJCP) com ape nas 17 anos, (foi membro da sua direcção entre 1940 e 1944) e entrou para o PCP em 1935, passando a funcionário em 1942.
Foi preso aos 19 anos em Lisboa quando andava a colar panfletos que afr ontavam o regime de Salazar, uma prisão que o próprio atribuiu à sua "inexperiên cia" e "juventude", numa entrevista recente à Agência Lusa, a propósito dos 70 a nos da abertura do campo de concentração do Tarrafal.
Depois de sair do Tarrafal em "liberdade condicional", em 1940, nunca m ais se deixou apanhar, seguindo à risca, mas não às cegas, as regras de defesa e segurança que o PCP impunha aos funcionários que mergulhavam na clandestinidade .
Cumpriu seis anos de prisão apesar de ter sido condenado apenas a 23 me ses, em 1935, acusado de pertencer à FJCP e ao PCP.
Passou pela Fortaleza de Peniche, pelo Forte Prisão de Angra do Heroísm o, nos Açores, que classifica como "o pior", e estreou o campo de concentração d o Tarrafal, na Ilha de Santiago, Cabo Verde, a 29 de Outubro de 1936.
Nos quatro anos que permaneceu naquela colónia penal, destacou-se pela sua capacidade de liderança e organização e foi nomeado chefe de grupo, de comis são de campo, responsável pelas compras e vendas e pelo matadouro.
Em 1947 integrou o Secretariado do Comité Central comunista, e, depois do 25 de Abril de 1974, a Comissão Política, saindo deste órgão em 1988 para a C omissão Central de Controlo.
Foi ainda director do órgão oficial do PCP, o jornal "Avante!", entre 1 947 e 1954, 1955 e 1958 e 1966 e 1972.