Sinalização de vítimas portuguesas de tráfico ainda é residual

Coimbra, 23 dez (Lusa) - A sinalização de vítimas portuguesas de tráfico de seres humanos ainda é residual, quer na região Centro, quer a nível nacional, afirma o coordenador do Centro de Acolhimento e Proteção para homens, que acredita que há muitos casos por descobrir.

Lusa /

O coordenador do Centro de Acolhimento e Proteção (CAP) para vítimas de tráfico do sexo masculino, Marco Carvalho, acredita que só se está "a olhar para a ponta do icebergue" quando se fala de sinalização, sendo que, no caso das vítimas portuguesas, "ainda não se chegou a vislumbrar o icebergue sequer".

"Os números ainda são residuais, o que é sinalizado é residual. Acredito que haja muitos casos para serem descobertos, tanto na região Centro como a nível nacional", disse à agência Lusa o coordenador do único CAP destinado para homens, localizado em Coimbra e gerido pela Saúde em Português. A este espaço somam-se, no país, centros para mulheres e crianças.

Quase metade (42%) das 62 vítimas acolhidas no centro de Coimbra desde 2013 são portuguesas, apesar de, na sociedade, este problema estar muitas vezes associado a imigrantes que caem em redes de tráfico de seres humanos para exploração laboral ou sexual, referiu.

Quase metade das vítimas vêm da região do Alentejo e Marco Carvalho acredita que é necessário "dar uma atenção especial para o interior, onde há uma predominância da exploração agrícola".

Para o coordenador, "quanto mais se fala deste problema, mais as pessoas estão despertas" para o fenómeno, mas ainda há um caminho a percorrer na sensibilização da população.

"Muitas vezes, nas aldeias, há um homem que trabalha para alguém, que lhe dá comida e bebida, mas não paga nada. Às vezes, é um problema cultural, porque até os exploradores dizem que estão a fazer um favor, apesar de a vítima ser explorada e agredida", explicou.

Segundo o responsável pelo CAP, as autoridades estão muito mais sensibilizadas hoje para estes casos e os militares da GNR são "os pontas de lança" no combate a este problema.

"Às vezes, são chamados para uma situação de roubo de ovelhas, por exemplo, e deparam-se com uma situação de tráfico porque tiveram formação e estão mais alerta para os sinais", afirmou.

A coordenadora da equipa multidisciplinar especializada (EME) da região Centro, Vera Carnapete, também considera que apenas se está a olhar para a ponta do icebergue.

"Quando começamos a falar com técnicos numa ação sobre tráfico de seres humanos é normal dizerem: `Então vamos falar dos outros países, porque não há tráfico em Portugal`", relatou, referindo que "é uma realidade muito escondida".

De acordo com Vera Carnapete, há também ainda "muito preconceito" em relação a vítimas de exploração sexual.

"Há aquela ideia de que uma mulher que está à beira da estrada, se quisesse, fugia ou pedia ajuda a um cliente", explicou.

Sónia Araújo, também técnica da EME do Centro, considera que a abordagem das autoridades está a mudar, mas ainda se ouvem "comentários de onde não se podiam ouvir esses comentários".

"As vítimas chegam muito assustadas e podem não ser simpáticas, se calhar até dizem um palavrão, olham para o chão e não mostram sinais de cooperação. Nesse momento, os técnicos têm de manter uma postura profissional", frisou.

Quem queira denunciar uma situação de tráfico de seres humanos pode ligar para a EME do Centro (918654104), Algarve (918882042), Alentejo (918654106), Lisboa (913858556) ou Norte (918654101), com serviço de atendimento 24 horas por dia.

PUB