Só por "atraso mental" a gravidade do caso Vanessa passaria despercebida, afirma perito

O director da unidade de queimados do Hospital de S. João afirmou hoje em tribunal que só alguém com um "atraso mental" é que não se apercebia da gravidade das queimaduras e do estado geral de Vanessa.

Agência LUSA /

José Amarante foi ouvido hoje, na qualidade de perito, no âmbito do julgamento do pai, avó e tia de Vanessa Filipa, a criança encontrada morta no rio Douro há cerca de um ano e cuja causa de morte o Ministério Público (MP) atribui à falta de assistência médica adequada às queimaduras sofridas.

O perito confirmou hoje ao tribunal que o tipo de queimaduras sofridas neste caso exigia tratamento hospitalar, por apresentar queimaduras de segundo grau, em pelo menos 25/30 por cento do corpo (das nádegas aos dedos dos pés).

De acordo com José Amarante, a reacção imediata a esta queimadura deverá ter sido a "de uma dor brutal", que poderá ter sido atenuada numa fase mais tardia de evolução do estado clínico, devido ao bloqueio dos receptores sensitivos.

Para o clínico, no entanto, mesmo que a criança não se queixasse, e mesmo que as queimaduras estivessem tapadas, a deterioração do seu estado geral e a prostração seria perceptível a qualquer familiar próximo e só alguém com um "atraso mental" é que poderia não se aperceber do desfecho que aquele caso iria ter.

Questionado pela defesa sobre a possibilidade de aplicação de algum tipo de gel poder mascarar ou atenuar as queimaduras, José Amarante referiu tratar-se de um "tratamento desproporcional", frisando ser perceptível que a "criança tinha que ser hospitalizada".

Neste processo, Aurora e Paulo, avó e pai da criança, são formalmente acusados de homicídio qualificado, maus-tratos continuados e ocultação de cadáver, arriscando uma pena de prisão até 25 anos.

Já Sandra, tia, é acusada do crime de homicídio qualificado, em co-autoria.

Durante a sessão de hoje foi ouvido o director da unidade de queimados do Hospital de S. João, na qualidade de perito, foram feitas as alegações finais e foi dada, pela última vez, a palavra aos arguidos, com Sandra e Paulo a preferir não acrescentar mais nada ao processo.

Aurora (avó), por sua vez, usou deste recurso para dizer em tribunal: "se a menina morreu de queimaduras, eu culpo-me por isso, mas eu estava a trata-la e nunca fui agressiva para ninguém".

A leitura da sentença foi marcada para 16 de Junho, às 14:00.


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