Sujar-se em brincadeiras desenvolve criatividade e imunidade - estudo

Lisboa, 19 Abr (Lusa) - Uma criança sujar-se durante as brincadeiras é importante para que desenvolva a criatividade, aprenda a adaptar-se ao mundo real, a defender-se e a criar imunidade, conclui um estudo feito por um psicólogo inglês a apresentar hoje em Lisboa.

Agência LUSA /

O trabalho - "Dirt is Good" (Sujar-se é bom) - foi efectuado por John Richer, consultor de psicologia clínica em Oxford, a pedido de uma marca de detergente, com o objectivo de pesquisar quais os benefícios, a nível físico, mental ou emocional, associados à sujidade, especialmente nas crianças.

O estudo é apresentado hoje durante o Workshop "Liberdade para crescer - um desafio familiar", que decorre no Parque da Pedra, em Monsanto (Lisboa).

De acordo com os resultados do estudo, sujar-se em consequência de incursões exploratórias de jogos e brincadeiras, desporto, jardinagem ou outras actividades diárias é saudável tanto para o corpo como para a mente.

O estudo salvaguarda, porém, a importância de manter uma boa higiene, bem orientada no tempo, lugar e situações decisivas, para reduzir riscos de infecção.

Há um equilíbrio a manter que consiste em evitar a falta de higiene, mas sem tornar esse facto "uma obsessão, uma cruzada contra a sujidade" que "afecte de forma irreparável a criatividade e adaptabilidade da actividade humana".

Isto porque - segundo o estudo - "as crianças não aprendem a adaptar-se ao seu mundo e a desenvolver-se sem entrar em contacto com o mundo real", o que só pode acontecer sujando-se, por exemplo, a brincar na terra.

"Caso a criança esteja demasiado preocupada em permanecer limpa, quer por vontade própria, quer incentivada por um adulto, perdem-se oportunidades de aprendizagem útil e reduzem-se as oportunidades de sucesso na vida", além de se tornar " a actividade menos agradável", indica.

Pode mesmo "resultar em comportamentos neuróticos e perturbados" da criança, salienta o trabalho do psicólogo inglês.

Relativamente ao risco de contrair doenças, o estudo revela que enquanto a higiene nos locais apropriados é vital para a saúde humana, a exposição a alguns micróbios existentes na sujidade é também necessária para a criação de um sistema imunitário saudável e equilibrado.

Em declarações à Agência Lusa, o pediatra Mário Cordeiro corroborou as conclusões do estudo, afirmando que "é bom as crianças brincarem em liberdade, com elementos naturais, ter espaço de manobra, estar exposto aos elementos, com limites e precauções, e no decurso disso sujar-se".

Aliás, essa é a tendência natural das crianças que se tiverem na sua frente brinquedos sofisticados e outros mais toscos vão certamente escolher os segundos, porque são criativas e precisam de explorar e estudar os seus limites, explica.

O pediatra vai mais longe e defende até que as crianças brinquem ao ar livre, mesmo que esteja frio ou chuva, desde que depois da brincadeira sejam devidamente secos e aquecidos.

A criança sujar-se durante as brincadeiras é vital, pela necessidade que sente em mexer nos elementos, para sentir a sua textura, ao contrário dos adultos, que são mais sensíveis aos aspectos visuais, explica.

Relativamente à imunidade, Mário Cordeiro afirma que uma criança corre maior risco de ser contaminada quando abraça um adulto do que quando está em contacto com o chão, pois a maioria dos vírus e bactérias existem nas pessoas e nos fluidos biológicos.

"A grande maioria das bactérias não faz mal e o contacto com elas ajuda a desenvolver imunidade", acrescentou o médico.

Mário Cordeiro reconhece uma crescente preocupação dos pais com a não sujidade dos filhos e alerta para a necessidade de distinguir entre "limpeza (higiene pessoal e da casa) e brincar com elementos naturais".

Claro que há precauções óbvias a tomar, como não deixar que uma criança brinque com água poluída por esgotos ou com vidros, disse, acrescentando que, em contrapartida, uma criança que veja a sua liberdade de brincar, explorar e sujar-se impedida não corre riscos e por isso não explora os seus limites.

O médico afirma que o que acontece é que, no futuro, quando tiver que "lidar com situações limite ou arriscadas lida mal".

"Os pais devem expor os filhos aos riscos, não aos perigos", sublinha.

AL.

Lusa/Fim


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