Summer CEmp. Um café por dia paga (e dá a conhecer) a Europa

Falar de lobby, de trocar o jornalismo pela política e das dificuldades pessoais quando se tem uma carreira internacional. No Summer CEmp também houve espaço para conversas intimistas.

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Henrique Burnay senta-se na escadaria ao largo da Igreja de Santiago, na vila de Monsaraz, Alentejo. À sua volta estão quatro jovens, espalhados pelos degraus abaixo, com os braços apoiados nos joelhos. Olham para o consultor de Bruxelas com atenção. “Votaram nas europeias?”, dispara o mentor.

A resposta é unânime: todos votaram, ou não seria este um grupo de estudantes interessados na União Europeia. É também por isso que se sentam com um “lobista fora do armário” (mas também especialista em assuntos europeus, antigo assessor e jornalista) numa conversa informal onde todos se tratam por tu.

Antes de aprofundarem lança-se novo tema: “Sentiram-se desiludidos depois das eleições, por causa do processo dos spitzenkandidaten?”, espicaça Henrique de novo. O primeiro a responder é Edgar Simões. “O spitzen do PPE [Manfred Weber] não era minimamente qualificado”, diz o estudante de medicina em Braga.

Estão na sessão slow talks do Summer CEmp, a escola de verão da Comissão Europeia. Durante uma hora por dia, depois de almoço e acompanhados pelo café, mentores que trabalham com a União Europeia em vários contextos profissionais conversam com participantes em grupos de cinco.



O formato foi implementado pela primeira vez nesta edição, depois de participantes anteriores terem pedido “tempo para processar” devido ao ritmo elevado das sessões. Raquel Gomes, coordenadora do Summer CEmp, viu no apelo por descanso uma “oportunidade interessante” para “aproveitar os oradores que estão mais envolvidos no formato e costumam ficar depois da sua sessão”. Assim, numa hora sem agenda, os (agora) mentores orientam uma conversa a seu gosto.

Seleccionados por serem profissionais reconhecidos no meio ou por exercerem “funções relevantes para os participantes”, os mentores servem ainda como “inspiração para um percurso profissional mais ou menos relacionado com os assuntos europeus”. Há exemplos profissionais de todo o género. Para além dos mencionados neste artigo, foram ainda mentoras as assessoras Teresa Coutinho, Francisca Seabra e Cláudia Araújo; e os jornalistas Filipe Caetano e Rebecca Abecassis. Ao todo, 8 profissionais para 40 participantes, o que, contas feitas, dá um café por dia em grupos de cinco.

O nome completo é “slow talks - um café por dia”, em alusão ao preço diário da União Europeia por cidadão (equivalente a um café). No dia anterior, os participantes inscrevem o seu nome no grupo que preferem. Para ajudar a escolher há um resumo do currículo mas também questões que marcam o tom do programa, como “qual a música que tens vergonha de admitir que ouves?”

Para Henrique Burnay, a vergonha recai sobre as “músicas que toda a gente canta nos finais dos casamentos”; se não fosse lobista escolheria “viver numa quinta e criar animais” e recomenda a leitura do clássico de Orwell, “O triunfo dos porcos”. No seu primeiro dia como mentor quer “mostrar a perspectiva do quão difícil é construir a União Europeia no dia-a-dia, negociação a negociação”. É-lhe um assunto próximo. O seu modelo de negócio assenta, sobretudo, em compreender e influenciar o processo de decisão das instituições europeias. “Quis que a conversa fosse à volta da negociação entre pessoas diferentes”, explica.

De volta à resposta de Edgar, a vitória do spitzenkandidat teria sido “agridoce” se Manfred Weber tivesse sido eleito. Ainda assim, “seria o processo mais democrático”, concluem Rui, Diogo e Margarida, também presentes na conversa. “Então a escolha da Von der Leyen não foi democrática?”, pergunta Henrique. “Não, não”, ouve-se à vez pelo grupo. “Mas se acontecesse em Portugal, concordariam? Se o Bloco e o PCP influenciassem a escolha do primeiro-ministro?”, continua o mentor. Margarida levanta a mão ao queixo, a conversa está a ficar interessante. “Sim”, responde a estudante de Comunicação Social e líder de uma network de juniorempresários, que para mentores escolheu “pessoas que se afastam” do seu “background académico”. Em retrospectiva, considera as conversas informais “dos momentos mais importantes do evento”.

O debate entra em desacordo. “E do lado do Conselho? Acham que o Conselho [Europeu] não devia ter participado nesta decisão?” Desta vez a responda é unânime. “Não”, não devia, “porque no Conselho defende-se sempre o interesse nacional” que pode não ser o mais pertinente no contexto europeu, acrescenta Edgar. “E o interesse nacional é menos legítimo que o partidário?”, continua Henrique. “Sim”, avança Diogo, também estudante de medicina, “porque é tendencialmente menos federalista”. “Finalmente estamos a ir por onde eu quero, só é pena termos menos tempo do que eu queria”, desabafa o lobista.

Há-que cortar caminho até às conclusões. “A coisa mais impressionante na União Europeia é conseguirmos pôr 28 Estados-membros diariamente a abdicar da sua soberania”, diz o mentor, “não são as vantagens práticas, como o roaming”.


Do lado direito, no adro da igreja, a conversa com outro mentor, o consultor Bernardo Ivo Cruz, segue pelo mesmo sentido. Começou por querer saber quem são os jovens à sua frente, tratando-os já pelo nome. Conversam em pé ou apoiados numa mesa, à sombra do telheiro da igreja.

“Para os meus pais, a Europa era paz. Para mim é liberdade. E para vocês?”, desafia o mentor. “É que roaming e Erasmus são giros, mas não são uma causa”. Bernardo Cruz tem muita energia, fala muito rápido, quer dizer tudo o que pensa e não poupa nos segundos. De slow a conversa tem pouco.

“A Europa é a minha casa”, responde Rui Maciel, estudante de Economia e estagiário no Ministério das Finanças. “E uma vida digna”, atira André Garcia, o rapaz do Pico que segue em breve para o mestrado de Ciência Política no Minho. Querem saúde, emprego, minorias que não são reprimidas. Chegam a uma conclusão: viver na Europa é “estar na vanguarda dos Direitos Humanos”.

Bernardo já teve cinco carreiras. Entre percurso profissional e académico viajou de Lisboa para Londres e da Europa para Timor. Gere agora uma empresa de “consultoria económica e de sustentabilidade” sediada em Inglaterra e assina uma newsletter mensal sobre o Brexit. Uma das suas mais valias é ter “ideias idiotas”. Como a de uma lota sustentável cujo lixo recolhido pelos pescadores é incinerado, a água aquecida pelo forno é canalizada para o porto e o CO2 transferido para uma maternidade de micro-algas.

Orgulha-se de ter um currículo diversificado e das viagens que fez. Fala de uma em particular, à Alemanha, para visitar a namorada de então. “O lado de leste era triste, cinzento. Sabem o que isso é?” Surge uma resposta inesperada. Liliana Budchina, mestre em Estudos Políticos pelo Colégio da Europa, nasceu “no mesmo ano da independência da Moldávia” em Floreni, uma vila perto da capital Chișinău. "Nasci a 13 de agosto de 1991 e a independência moldava aconteceu a 27 do mesmo mês". Veio para Portugal aos 17 anos. Olha para o país de origem como “uma democracia em construção” marcada pela “clivagem entre pró-russos e pró-europeus”.

Na escadaria que desce do fim do adro, onde se senta o grupo de Henrique Burnay, também se fala “do leste” e da supressão de direitos que se têm verificado em países como a Hungria ou a Polónia. “Se olharmos para a história”, começa o mentor de Bruxelas, “vemos que o ocidente europeu saiu de uma ditadura de direita, mas com soberanias nacionais, enquanto os países de leste saíram de uma ditadura de esquerda sem soberania nacional”. É daí, continua, que pode surgir a tensão. “O leste olhava para a UE como a garantia da liberdade e tem receio de abdicar da sua soberania de novo”.

A conversa pretende “despertar sentido crítico”. Pela atenção com que os jovens a acompanham, parece resultar. “Acho graça porque houve um que mudou de opinião, e houve outro que disse que não tinha mudado nada”, conclui.

De volta ao adro, e partindo da história das “viagens de então”, a conversa segue para os desafios familiares que Bernardo Ivo Cruz enfrentou numa carreira internacional. “Nem percebi que estava a falar de coisas mais pessoais, tal era o bom ambiente e a descontração”. Contou, por exemplo, a necessidade de compromisso para manter uma relação à distância. 



A poucos metros de Bernardo, dentro da igreja, está o grupo de La Salette Marques. É coordenadora do Gabinete de Comunicação do Ministro da Agricultura, Luís Capoulas Santos. Em 2009, a antiga jornalista deixou para trás uma carreira na rádio e televisão para assessorar o então Ministro dos Assuntos Parlamentares, Jorge Lacão.

“Isto é o meu facebook”, diz La Salette de sorriso aberto, enquanto percorre a brochura do Summer CEmp com as caras dos participantes, à procura de quem ainda não chegou à igreja de Santiago. Desprovido dos principais objetos religiosos, o espaço acolhe agora exposições de arte no âmbito do Ciclo de Exposições “Monsaraz Museu Aberto”. Foi o principal lugar de debate durante os quatro dias. No centro da nave estão pequenos bancos circundados por várias filas de cadeiras. Resguardando-se do calor, o grupo de La Salette Marques chega aos poucos.

A assessora assumiu a mentoria com satisfação. Na sua profissão não tem, habitualmente, “um grande espaço mediático, nem espaço para interagir com uma plateia tão bem preparada”. O evento é, garante, “uma prova de que conseguimos chegar aos jovens”.

No compasso de espera há quem procure saber mais. “O que significa ser assessora de imprensa?”, pergunta um dos participantes. La Salette faz um balanço positivo. Assume, hoje, “uma função mais política”. E explica. “Permite-me fazer duas coisas que gosto muito, que é trabalhar em comunicação e em política ao mesmo tempo”. 

Antes de “deixar para trás” o jornalismo, La Salette trabalhou em assuntos europeus, economia e política, tendo sido também jornalista parlamentar. “Quando terminei o meu primeiro cargo político não me fazia qualquer sentido regressar”.

A conversa segue pelos desafios de ocupar cargos por nomeação, gabinetes de ministros e de confiança política. É necessário ser do mesmo partido para ter confiança política? Não, responde a assessora, mas “não faz sentido que pessoas que não se identifiquem sejam nomeadas”. Por isso, nos gabinetes, “é normal que os cargos sejam ocupados por pessoas próximas”. 

Intrigada pela transição, a estudante de doutoramento Cátia Bandeiras pergunta se La Salette tem saudades de ser jornalista. A jovem cientista, especialista em bioengenharia, continua. “O que a fez deixar a profissão que tanto adorava sabendo que não voltaria?” Pergunta pertinente. “Foi uma decisão difícil”, esclarece a mentora.

Mas o jornalismo não se deve cruzar com interesse político, reitera. “Eu respeito muito a minha profissão, e enquanto a exerci, sempre fui rigorosa”. O que pode pôr em causa esse rigor? “O jornalismo de causas?”, pergunta outra participante, chegada entretanto e que acompanha a conversa à distância de três cadeiras.

“Os jornalistas tendencialmente - tendencialmente - colocam-se do lado dos mais fracos”. Porquê?, continuam os mentorados. “Porque ter um carro extraordinário não é uma grande notícia”, defende La Salette, “isso não altera o estado da sociedade”. Os eventos que a alteram, continua, “acontecem quando a sociedade não está a ser equitativa”.


O resto do grupo chega entretanto. E a antiga jornalista pôde recordar os tempos de redação. “Propus-lhes fazerem um noticiário que resumisse o Summer CEmp”, explica. Em pé, de volta de La Salette Marques, os participantes lêem as notícias à vez, em sussurro. Alguns escrevem à pressa o que falta num caderno, outros usam as notas no telemóvel. Vão apresentá-las em voz alta no final da última sessão. “Tenho montes de apontamentos”, diz Cátia, “mas ainda não estou pronta”. Mais tarde confessa que escreveu “mesmo nos últimos minutos”.

André Garcia também participou na redação improvisada. “Uma responsabilidade que tomei com muito gosto e que me permitiu desenferrujar uma escrita mais radiofónica”. O desafio lançado foi bem recebido pelos participantes. “Tivemos pouco tempo para o fazer, mas é exatamente assim que trabalham os jornalistas”. Diogo Sequeira Lopes, que também noticiou o evento, explica que a proximidade mudou a sua “perspectiva em relação à comunicação”. Considera-se em “muito melhor capacidade para perceber como funciona o jornalismo”.

Com os meios tecnicos reduzidos a "zero", confessa a mentora e editora do noticiário, contaram apenas com “cérebros, papel e caneta”. Apenas o essencial para “colocar estes estudantes, que se interessaram pela minha profissão e pela comunicação, perante o desafio de comunicar para o público em geral aquilo que absorveram ao longo do evento”.

Para Raquel Gomes e restante equipa da organização, o “objetivo das slow talks foi mais do que superado”. Bernardo Ivo Cruz espera “poder continuar em contacto com os participantes”. Henrique Burnay, que convidou um participante da edição anterior para trabalhar consigo em Bruxelas, e que assina um podcast com outro estudante, faz o mesmo balanço, como “muito positivo”.

Mas a conclusão não pertence nem aos mentores nem aos jornalistas que cobriram o Summer CEmp. Falta pouco para terminar: de papéis soltos e telemóveis na mão, os novos repórteres são conduzidos em fila até ao altar da igreja, agora estúdio de rádio imaginado. La Salette Marques chama-os por ordem de entrada. 

Com as notas arrumadas, Cátia Bandeiras está pronta. Vai noticiar sobre a relação entre inovação e sociedade em Portugal, um dos painéis do dia anterior. E o remate da cientista amplifica o de todos os participantes - esses sim, autores da conclusão. Terminado o Summer CEmp, "é de acompanhar os próximos capítulos desta relação”… e esperar “por um namoro feliz”.

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