Técnicos cuidam das crianças e desmontam preconceitos dos pais
O trabalho dos profissionais de uma unidade de internamento de psiquiatria infantil começa nos pais da criança que vai ser hospitalizada, que não são imunes aos preconceitos que ainda rodeiam a saúde mental.
"Quando ouvimos falar na hipótese do internamento em pedopsiquiatria, a primeira reacção é pensar que o que a criança tem é, afinal, mesmo grave", contou à Agência Lusa Maria, mãe de uma criança que, no final de Dezembro passado, esteve hospitalizada na Unidade de Internamento do Departamento de Psiquiatria da Infância e da Adolescência do Hospital Dona Estefânia, em Lisboa.
Esta mãe reconhece que, em matéria de saúde mental, ainda existem muitos preconceitos: "Aquela ideia negra do manicómio-hospital de malucos acaba por vir ao de cima, por mais que se tente ser racional", disse.
"Crescemos com a ideia de que os doentes internados nesses hospitais eram casos perdidos, irreversíveis e, por isso, certamente que preferia que um médico me comunicasse que o meu filho tinha de ser internado para ser operado ao apêndice ou às amígdalas do que devido a um problema do foro psiquiátrico", afirmou.
Segundo disse, o trabalho desenvolvido pelos profissionais começa muito antes do internamento, provavelmente para desmistificar um assunto tão melindroso e mostrar que nesta área os casos são muito mais comuns do que se pensa.
Um dos primeiros passos dos técnicos desta Unidade de Internamento é entregar aos pais um Guia de Acolhimento em que o serviço é apresentado como tendo "uma equipa multiprofissional - médicos, enfermeiros, técnica de serviço social, terapeuta ocupacional, educadora de infância, secretária de unidade, auxiliares de acção médica - com a qual os pais podem contar".
"Recebemos na nossa unidade crianças e jovens dos zero aos 16 anos, cujas dificuldades não possam ser tratadas em casa", lê-se no Guia de Acolhimento.
Depois de saber da necessidade do filho ser internado na pedopsiquiatria, Maria foi conhecer as instalações e o funcionamento do serviço, numa visita que se revelou "fundamental", disse.
No próprio dia do internamento a recepção dos profissionais ajudou a reforçar uma confiança se começara a estabelecer.
"Eu e o meu filho fomos recebidos por todos com atenção e carinho, entre sorrisos e mensagens de boas vindas. Era como se estivéssemos a chegar a uma casa nova", conta.
A ansiedade de Maria foi diminuindo com o passar do tempo, principalmente depois de se aperceber que "todos os profissionais estavam atentos ao que se passava" com a criança e também com ela.
"Percebi que a equipa tinha uma grande consistência de métodos e atitudes e também um sistema de passagem de testemunho muito eficiente e tudo isto me sossegou", salienta.
Maria não tem dúvidas: "A mãe deve depositar uma confiança absoluta na equipa médica, ao ponto de se sentir em condições de «entregar» o seu filho, apesar de todas as dúvidas, hesitações e medos".
Angústias que se agudizavam à noite - quando encontrava a cama da criança vazia - e na despedida depois da visita.
"O pior de tudo, o mais doloroso, era a despedida no final das visitas diárias, que eram momentos absolutamente terríveis em termos de sofrimento", recorda.
"A situação foi melhorando graças ao investimento de toda a equipa nesse sentido. Compreendendo que esse era um ponto delicado, foi criada uma estratégia para suavizar este momento, que de facto começou a ter resultados", contou.
O acompanhamento da equipa foi, para esta mãe, "fundamental", principalmente na transmissão de esperança.
"Ouviram os meus desabafos sem mostrar qualquer tipo de pressa ou enfado, conversaram comigo todos os dias, deram-me pistas sobre a forma de agir com o meu filho e transmitiram-me esperança".
"Isto pode parecer pouco, mas é imenso. É que uma mãe sabe intuitivamente que não vai resolver estes problemas do foro do comportamento, por mais graves que sejam, numa normal urgência de hospital, apesar de serem verdadeiras urgências", refere.
Além da situação dos filhos, os pais das crianças que são internadas na pedopsiquiatria são confrontadas com outras realidades, até aí desconhecidas, dos colegas de internamento.
São casos de perturbações do comportamento alimentar - anorexia e bulimia - depressões, psicoses e tentativas de suicídio de crianças em idade de brincar com bonecas.
Maria lembra-se do impacto: "No início, esse contacto suscita reacções muito fortes, é um autêntico turbilhão que nos invade a alma".
Lembra-se também de um caso de uma criança que a marcou. Um menino da idade do seu filho que quando teve alta do internamento foi para uma instituição de acolhimento.
"No fundo, transitou de um internamento para outroÓ acho que é muito triste uma criança não viver a alegria de sair dali pela mão de um pai ou de uma mãe, com a sensação de regresso a casa, ao seu quarto, aos seus brinquedos", conclui.