testemunha-chave promete "avivar a memória" do ex-autarca em tribunal

Marco de Canaveses, 24 Abr (Lusa) - José Faria, testemunha-chave do processo contra Ferreira Torres que decorre no Tribunal do Marco de Canaveses, admitiu hoje que era "testa de ferro" do ex-autarca.

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"Ele [Ferreira Torres] está com memória fraca e eu vou avivar-lha", afirmou José Faria, numa entrevista que concedeu hoje à agência Lusa, antes de prestar declarações ao Ministério Público (MP), no Tribunal do Marco de Canaveses.

"Eu era uma espécie de testa de ferro, fui sempre, aliás todo o pessoal era criado dele. A bem ou a mal, tinha que lhe obedecer", salientou.

A testemunha frisou que não receia Ferreira Torres, mas admitiu ter "medo do que ele possa mandar fazer".

"Dele nunca tive medo, nem ninguém lhe tem medo aqui no Marco de Canaveses", afirmou Faria, assegurando que está "seguro e feliz" por ter regressado a casa e se ter "livrado do que poderia ter acontecido [no Brasil]".

José Faria regressou quarta-feira do Brasil, tendo recebido protecção policial no trajecto que fez de carro desde Madrid, onde aterrou o avião da Varig em que viajava, até Marco de Canaveses.

"Vim acompanhado por três polícias espanhóis e três portugueses até à fronteira de Bragança, depois ficaram só os portugueses", afirmou.

Nas declarações que prestou à Lusa, admitiu que a sua deslocação ao Brasil foi "muito arriscada".

"Tinha à minha espera um caldinho muito bem preparado", disse.

No dia 04 à noite, relatou José Faria, "recebi uma chamada do senhor Sousa [que organizou a viagem] e logo a seguir outra do Ferreira Torres, as últimas ligações que recebi no meu telefone antes de ir para o Brasil.

"A polícia levou o telefone. Isso prova que ele falou comigo na véspera de me levar [para o Brasil]", disse.

José Faria adiantou que tinha um homem à sua espera quando aterrou no Brasil, que o levou para uma pensão e que, no dia seguinte, o acordou com murros na porta, dizendo que era preciso seguirem para o Nordeste.

"Eu disse que não ia para o Nordeste, mas sim para Portugal. Ele insistiu e eu recusei e então começou a bater-me", relatou.

"Consegui fugir, mas já com os dentes todos em sangue", acrescentou, precisando que, depois, foi a uma clínica onde lhe extraíram "quatro dentes".

José Faria reafirmou, na entrevista à Lusa, que Avelino Ferreira Torres "foi o mentor" da sua viagem para o Brasil, e assegurou que foi o autarca que o transportou, a 05 de Abril, "ao senhor Sousa, na área de serviço de Águas Santas [na A4]".

"Foi ele [Ferreira Torres] que fez tudo, foi ele que me deu 2.500 euros e 500 reais num envelope", referiu.

A testemunha afirma ter provas de que o bilhete da sua viagem para o Brasil "foi comprado com um cartão [de crédito] no dia 03 de Abril".

José Faria assumiu, no entanto, que viajou para o Brasil "de livre e espontânea vontade", salientando que essa era a "única forma" de reaver o dinheiro referente às dívidas que tem às Finanças, alegadamente por transacções de terrenos que fez em nome de Ferreira Torres.

"A ideia era ficar lá, com a garantia de que me seria depositada a quantia que eu paguei às Finanças, cerca de 13 mil contos", precisou.

No entanto, segundo José Faria, ao contrário do que estaria combinado com Ferreira Torres, "não foi pago nada".

Por essa razão, revelou "ter contactado o senhor Sousa", através de um primo que é advogado no Brasil, que lhe terá garantido que ia resolver o assunto no dia seguinte.

"Quando o meu primo voltou a falar com ele, [o Sousa] já não me conhecia de lado nenhum, disse que devia haver um engano. Foi por isso que mandei um fax ao Ministério Público", afirmou.

Sustentou que "queria era ser ressarcido do dinheiro que pagou e que nunca deveria ter pago".

"Quem deveria ter pago era ele [Ferreira Torres], porque os terrenos eram dele, foi ele que os vendeu e recebeu o dinheiro. Ele é que fez tudo", frisou.

Segundo José Faria, a verba que lhe está a ser exigida pelas Finanças "refere-se aos impostos dos terrenos" que, alegadamente, terá comprado para Ferreira Torres.

"Eu comprei para ele, não em nome dele. Comprei para ele, por ordens dele", assegurou.

A testemunha admitiu que teve procurações passadas em seu nome, "porque tinha que assinar as escrituras", mas assegurou que "os cheques e os pagamentos ficaram com Ferreira Torres".

José Faria revelou também à Lusa que, entre todos os terrenos que diz ter alegadamente adquirido para Ferreira Torres, apenas um foi registado no seu nome.

Especificou que se tratava de "uma quinta comprada ao senhor Noronha por 19.500 contos que o Ferreira Torres vendeu depois por mais de 42 mil contos".

Nas declarações que hoje prestou à Lusa, a principal testemunha do processo contra Ferreira Torres salientou que o autarca, inicialmente, assumiu o pagamento da verba devida às Finanças.

"Quando esteve na Quinta das Celebridades, disse-me que, quando regressasse tinha um cheque para mim, para pagar as Finanças", afirmou José Faria, sustentando que o problema se complicou quando Ferreira Torres viajou para o Brasil.

"Passados dois ou três meses fui ter com ele, foi quando ele negou tudo e disse que não tinha nada a pagar. Eu fiquei com aquela cisma durante algum tempo e depois tentei suicidar-me", disse.

A testemunha referiu ainda que, quando estava internado, o Ferreira Torres foi visitá-lo ao Porto.

"Disse à minha família que quando chegasse ao Marco ia mandar a secretária pagar nas Finanças", afirmou.

José Faria assegurou que foi apenas com o objectivo de reaver esse dinheiro devido às Finanças que aceitou viajar para o Brasil, mas frisou que "a sua intenção foi sempre denunciar a situação às autoridades competentes".

"Concordei em ir para o Brasil e não voltar, mas se tivesse o dinheiro na minha conta, apanhava o primeiro avião para Portugal", disse.

José Faria garantiu que pretendia estar "à porta do tribunal" de Marco de Canaveses no dia em que começou a ser julgado o processo contra Ferreira Torres.

"Aceitei ir para o Brasil porque era a única forma de reaver o dinheiro. Disse a Ferreira Torres que não ia a tribunal, mas a minha intenção era contar tudo", sustentou.

Entre as informações que afirma pretender transmitir ao tribunal está a questão dos alegados diplomas que funcionários da Câmara de Marco de Canaveses terão conseguido no Brasil, sem nunca se terem deslocado aquele país.

"Pelo menos duas pessoas conheço, mas sei que há mais", afirmou, especificando tratar-se de "um fiel de armazém e um escriturário".

A agência Lusa tentou falar com Avelino Ferreira Torres para obter um comentário às acusações de José Faria, mas o ex-autarca estava indisponível de momento, remetendo para um pouco mais tarde a hipótese de ser contactado.

FR/JDS.


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