Testemunha do processo Casa Pia diz ter visto Ferro Rodrigues na "casa dos erres"
A principal testemunha do processo Casa Pia afirmou em tribunal ter visto o ex-líder do PS Ferro Rodrigues numa vivenda no Restelo, em Lisboa, onde alegadamente ocorreram actos sexuais com menores da instituição.
De acordo com fontes ligadas ao processo, o jovem que está a depor, considerado como a principal testemunha, foi questionado por Ricardo Sá Fernandes, defensor de Carlos Cruz, sobre se conhecia e já tinha ido a uma vivenda no Restelo designada nos autos por "casa dos erres" e respondeu afirmativamente.
Questionado sobre se viu lá algum dos arguidos do processo, o rapaz, actualmente com 19 anos, disse que não, mas quando Ricardo Sá Fernandes lhe perguntou se tinha visto alguém que conseguisse identificar, a testemunha afirmou ter visto Ferro Rodrigues.
Segundo explicou, tinha ido à "casa dos erres" duas ou três vezes, mas nunca entrou e numa dessas deslocações estava à porta da vivenda a conversar com outro jovens casapianos cujos nomes diz não se recordar e que viu ali o ex-líder do PS.
Foi a segunda vez que o jovem se referiu a Ferro Rodrigues.
Em 21 de Setembro, disse ter visto o antigo dirigente socialista numa casa em Vila Viçosa, Alentejo, onde fora com o ex- motorista casapiano e principal arguido no processo, Carlos Silvino da Silva ("Bibi"), levar jovens da Casa Pia para encontros sexuais com adultos.
Mas naquela altura não disse que também tinha visto o ex-líder do PS na vivenda do Restelo.
Os advogados de defesa de Ferro Rodrigues já anunciaram que vão processar criminalmente o jovem que está a depor na sequência das suas anteriores referências em tribunal ao antigo secretário-geral do PS.
Hoje, durante a 92ª sessão, o jovem foi também questionado por Ricardo Sá Fernandes sobre se tinha ido aos bairros da Boavista e do Zambujal com rapazes da Casa Pia e se ali tinha sido abusado e por quem.
A juíza presidente do colectivo, Ana Peres, não autorizou a pergunta, mas o seu colega de colectivo Lopes Barata questionou directamente o jovem sobre se este tinha sido alvo de abusos sexuais naqueles bairros de Lisboa, tendo este respondido afirmativamente.
A defesa de Carlos Cruz quis saber quem tinha abusado sexualmente do jovem mas este recusou-se a dizer, alegando que foram dos primeiros abusos que sofreu, o que o "tocou muito" e lhe "causou muito trauma", relataram fontes ligadas ao processo.
De acordo com o relato, Ricardo Sá Fernandes perguntou então ao jovem por que motivo lhe "custava" falar das pessoas que tinham abusado dele naqueles bairros mas não lhe custava falar dos arguidos no processo, mas a juíza Ana Peres não autorizou a questão.
A juíza justificou esta posição que a identificação das pessoas que alegadamente cometeram abusos sexuais contra a testemunha nesses bairros não era relevante para este julgamento.
Entendimento diferente teve a defesa de Carlos Cruz, tendo Ricardo Sá Fernandes suscitado a irregularidade desta decisão da juíza num longo requerimento que ditou para a acta.
De acordo com fontes ligadas ao processo, no requerimento, o advogado admitiu que o jovem foi abusado sexualmente mas não pelo seu cliente e que por isso era importante ele revelar a identidade dos abusadores, argumentando que o jovem possa estar a fazer uma transferência para o apresentador de televisão.
O colectivo de juízes indeferiu um pedido da defesa de Carlos Cruz de confrontação do jovem com declarações por si prestadas perante órgãos de polícia criminal e constantes de autos identificados como "autos de reconhecimento", relativamente a algumas casas onde terão ocorrido abusos sexuais de menores da Casa Pia.