Tiago, uma criança que cresceu a pedir nas ruas de Lisboa

Sílvia Maia (textos) e António Cotrim (Fotos), Agência Lusa

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Lisboa, 12 Jan (Lusa) - Tinha quatro anos quando os pais o mandaram ganhar dinheiro para as ruas de Lisboa. Nos últimos nove foi mendigo, de acordeão às costas, com a cadela Estrela presa por um fio. Todos o conhecem, mas poucos sabem o seu nome. Chama-se Tiago, tem 15 anos e sonha ser piloto de ralis.

Há anos que o ritual se repete. Diariamente, Tiago Dias chega à Rua Augusta por volta das 10h00. No início, ia pela mão dos pais, que o estrearam nesta vida, mas há muito que vai sozinho. Desde os 12 anos que tudo o que ganha é só para ele. À mãe e aos seis irmãos não dá dinheiro nem satisfações. Tornou-se independente e aprendeu na rua o que a escola não lhe ensinou.

O adolescente, baixinho, corpo robusto, é apenas um dos 260 miúdos sinalizados em 2006 pelas Comissões de Protecção de Crianças e Jovens em Risco (CPCJR) como estando em "situação de perigo atribuível à prática da mendicidade".

Tiago sonha agora mudar de vida. Planeia deixar de pedir esmola como quem projecta mudar de emprego. Não por necessidade financeira, até porque, em média, faz 40 euros por dia, qualquer coisa como 1.200 euros mensais. Ainda assim, reconhece que é cada vez mais difícil fazer dinheiro e já não consegue ouvir as "velhotas" dizerem-lhe que tem "bom corpo para ir para as obras".

Quando começou a mendigar, achavam-lhe "graça". A ele e à cadela anã, que o acompanha desde o primeiro dia. Entretanto, os anos passaram, o menino cresceu e hoje é um adolescente com "idade para trabalhar". Só a amestrada Estrela, que segura durante horas a fio a caixinha de moedas com o focinho, continua a seduzir turistas e visitantes que passam na agitada rua da capital.

Para a maioria das instituições, Tiago não existe. Para o comum dos transeuntes, é apenas mais um pedinte. Na Rua Augusta, não há lojista que não o conheça. Ele também os conhece a todos e divide a classe entre "os porreiros" e os que se "acham donos da rua".

Com um pesado acordeão e uma caixa de sapatos, que serve de palco para a cadela, não tem poiso fixo. Nos dias de Inverno escolhe uma zona solarenga e nos dias quentes uma sombra que o proteja do sol. Não tem poiso fixo porque ali passam vezes sem conta agentes da polícia.

"Os ´bófias` só chateiam, passam a vida a mandar-me embora, a dizer que não posso estar aqui", desabafa o rapaz, garantindo que nunca foi maltratado apesar de já ter "visitado a esquadra várias vezes" e até ter andado pelos tribunais por causa de "umas senhoras que queriam que fosse para um colégio".

Não foi para o "colégio" mas também não se manteve na escola por muito tempo. "Fui expulso este ano", admite o ex-número 17 do 7º G da Escola Secundária Passos Manuel, onde deixou uma boa imagem.

Para a directora de turma, Ana Cristina Teixeira, Tiago era um "miúdo afável, simpático e educado, com boa relação com os colegas", mas nunca se conseguiu integrar. "Talvez por ser mais velho que os outros. Talvez por ter uma vida diferente", atira a directora.

A professora de matemática atribui-lhe "rapidez de raciocínio e cálculo", característica que terá aperfeiçoado graças à vida de mendigo. Mas não ia às aulas e acabou por ser expulso.

Para justificar as faltas, à directora de turma disse que estava a trabalhar à noite numa discoteca, contrariando os rumores de que pedia. À Lusa, Tiago admite não ter orgulho no que faz e garante que "nunca na vida" iria pedir para as carruagens do metro como o amigo Igor Luz, de 11 anos: "G´anda vergonha ir para o metro, ainda aparecia alguém conhecido da escola e via-me a tocar. Nem pensar, eu só fico aqui", diz.

Reconhece que gostava mais da vida de estudante do que da de mendigo. "Eu tenho duas personagens: uma é a da rua e outra é a da escola. Para lá, ia todo bem vestido e portava-me de maneira diferente". No liceu fazia amigos, conhecia "miúdas giras, mas muito difíceis para namorar".

Mas o destino ditou-lhe a saída precoce do ensino. A directora de turma tentou "vezes sem conta" falar com os pais e procurar soluções alternativas para o rapaz. "Nunca consegui que os encarregados de educação viessem à escola e o Tiago nunca se mostrou realmente interessado nos programas educacionais alternativos", lamenta Ana Cristina Teixeira.

"Este é o resultado da crise familiar que se vive actualmente. Estas crianças abandonam a escola porque também elas foram abandonadas pelos pais. Ficaram sozinhas desde pequenas, nunca tiveram a quem recorrer, nem nunca ninguém se mostrou interessado no seu percurso escolar", explica a psicóloga Sofia Viana, que apoia crianças em risco da Junta de Freguesia de Santa Catarina.

Tiago Dias foi um dos casos que chegou à junta de freguesia através de um alerta lançado pela escola. "Como se tratava de um caso de abandono escolar reportei a situação à Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML) que já estava a acompanhar o caso, assim como à junta de freguesia", lembrou a directora de turma.

No entanto, para a SCML Tiago não existe. A agência Lusa questionou aquela entidade sobre a situação dos meninos pedintes da Baixa, mas a misericórdia disse não ter competência nesta matéria.

Já fonte do gabinete do Ministério do Trabalho e da Solidariedade Social (MTSS) garante que a entidade competente para lidar com os casos que se passam na capital, como o do Tiago, é mesmo a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.

O processo do jovem também parece não constar nos ficheiros do Instituto de Segurança Social (ISS), tutelado pelo MTSS. Na Linha de Emergência Social do ISS não existe qualquer registo de crianças a mendigar. Helena Silveirinha, da instituição, explica que esta situação deverá estar relacionada com o facto de todos os casos denunciados nunca terem sido confirmados no local, "muitas das vezes porque as crianças acabam por fugir".

Alheio à confusão entre organismos, Tiago só sonha com o tuning. Quer ter um carro com "vidros ´perfumados`" e acelerar nas estradas de terra do Rali de Portugal.

Lusa/Fim


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