Trabalhador acusa empresa de o querer despedir por ter dito na TV que não é aumentado desde 2003
Torres Vedras, Lisboa, 10 Abr (Lusa) - O empregado Pedro Jorge, de 30 anos, da fábrica Cerâmica Torreense, de Torres Vedras, acusa a entidade patronal de o pretender despedir por ter afirmado num programa de televisão que não é aumentado desde 2003.
Pedro Jorge é electricista desde os 20 anos na empresa Cerâmica Torreense e desde 2006 desempenha também funções de delegado sindical.
No dia 28 de Janeiro foi convidado a participar no programa Prós e Contras da RTP1 para responder a perguntas sobre como consegue um jovem casal viver com módicos ordenados (ele electricista e ela recepcionista) e sobre quais as suas principais dificuldades.
"Fui convidado como cidadão a contar a minha experiência e por isso fiquei surpreendido com o recebimento de uma nota de culpa com vista ao meu despedimento", contou hoje à Lusa Pedro Jorge.
Para o trabalhador em causa estão as seguintes declarações no programa: "Boa noite, eu sou o Pedro Jorge. Sou electricista no sector cerâmico. Posso dar o meu exemplo: na empresa onde trabalho, a Cerâmica Torreense, não sou aumentado desde 2003, o meu ordenado está congelado desde 2003".
Pedro Jorge disse que após o programa continuou a trabalhar "normalmente dia após dia até que a 26 de Março recebe a nota de culpa e percebe que as declarações não tinham caído bem à empresa".
A Lusa contactou hoje a Cerâmica Torreense e o administrador Pedro Matos afirmou apenas que: "enquanto o processo disciplinar estiver a decorrer não nos vamos pronunciar".
O trabalhador contou ainda que é funcionário na fábrica desde os 20 anos e que nunca foi alvo de nenhum processo disciplinar.
No programa Pedro Jorge disse ainda que "quem tem que pagar a factura dos erros dos empresários, dos erros dos governantes, somos nós os trabalhadores e a culpa da famigerada crise e desta obsessão pelo défice".
"Todos os dias vejo colegas meus, amigos meus de trabalho, a ter que ir para o estrangeiro após vinte anos de trabalho naquela empresa, vinte anos de trabalho noutras empresas, abandonar a mulher e os filhos para dar um futuro digno aos seus filhos e à família", exemplificou.
Para o Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias de Cerâmica, Cimentos e do Sul e Regiões Autónomas, Pedro Jorge "é acusado por ter dito a verdade (...) de não ter aumento de salário há cinco anos".
Para o sindicato, em causa está o facto da empresa saber, embora não o afirme, que "o trabalhador é um dirigente sindical activo e respeitado pelos trabalhadores".
"Que poder julga a entidade patronal ter sobre a liberdade de pensamento e de opinião", questiona ainda o sindicato em comunicado.
Pedro Jorge entregou hoje à empresa as suas alegações no âmbito do processo e disse que a empresa tem agora 30 dias para decidir.
"Espero que a empresa arquive o processo", disse.