Três militares portugueses homenageados 29 anos após a sua morte

Uma associação de ex-combatentes sul- africanos homenageou hoje no cemitério militar de Thaba Tshwane, Pretória, três portugueses que se distinguiram na guerra que a África do Sul travou nos anos 70 e 80 contra países vizinhos.

Agência LUSA /

A África do Sul era então governada pela minoria branca e a maioria das nações limítrofes eram aliadas de Cuba e do então Bloco de Leste na luta contra o "apartheid" e a ocupação do então Sudoeste Africano (a actual Namíbia) por Pretória.

Os sargentos Francisco Daniel Roxo, José Correia Pinto Ribeiro e Ponciano Soeiro, que tinham servido nas fileiras do exército português na guerra colonial, alistaram-se nas Forças Especiais Sul- Africanas, vindo a ser condecorados por actos heróicos antes de perderem a vida em combate nas invasões de Angola e do Sudoeste Africano.

Sepultados em campas rasas sem qualquer identificação no cemitério militar de Tahaba Tshwane durante quase três décadas, os militares foram hoje recordados por amigos, antigos companheiros de armas e altas patentes das Forças Armadas da África do Sul, numa iniciativa da Liga das Forças Especiais.

A embaixada de Portugal em Pretória fez-se representar na cerimónia pela sua chanceler em Pretória, Margarida Oliveira.

Uma lápide negra, onde foram inscritos os nomes dos três portugueses, foi descerrada pelo general na reserva Fritz Loots, que comandou as unidades especiais que combateram em Angola e no Sudoeste Africano, nomeadamente a Operação Savannah, que levou a máquina militar sul-africana até às imediações de Luanda antes da retirada para o Sudoeste Africano por razões ainda hoje envoltas em controvérsia.

Francisco Daniel Roxo, nascido em 1933 em Mogadouro, Trás-os- Montes, viria a apaixonar-se por Moçambique, onde se tornou caçador e mais tarde militar. Foi comandante das Milícias na província do Niassa e viria a ser condecorado com a Cruz de Guerra e uma Medalha de Serviços Distintos.

Depois do 25 de Abril, Francisco Daniel Roxo serviu nas Forças Especiais sul-africanas, tornando-se o primeiro não-sul-africano a ser condecorado com a Honoris Crux. Recebeu também a Pro-Patria Medal (outra condecoração por bravura em combate, no seu caso na província angolana do Cunene), e a Southern Africa Medal a título póstumo.

Viria a falecer em combate em 23 de Agosto de 1976.

O sargento José Correia Pinto Ribeiro, era natural da Guiné- Bissau e ficou conhecido em Moçambique pelo nome de guerra "Carnaval", quando ali serviu nos Grupos Especiais Paraquedistas (GEP`s).

José Ribeiro juntou-se também às Forças Especiais sul- africanas após a Revolução de Abril, sendo um especialista do Comando de Reconhecimento 1, e perdeu a vida durante uma operação de evacuação de feridos em território angolano em 25 de Agosto de 1976, dois dias após a morte de Francisco Daniel Roxo.

Ponciano Soeiro, que serviu na ex-DGS na província do Huíge, em Angola, antes de, em Setembro de 1975, se alistar nas Forças Especiais da África do Sul.

Soeiro participou nas operações militares em Angola, designadamente na Operação Savannah, vindo a ser um dos militares portugueses que constituíram o Batalhão Bufalo (conhecido por 32), onde todos os combatentes eram de língua portuguesa (na sua maioria angolanos que se opunham ao MPLA) e que era comandado pelo coronel Jan Breytenbach.

Ponciano Soeiro foi morto na mesma operação que custou a vida a Francisco Daniel Roxo, em 23 de Agosto de 1976.

Um dos organizadores da cerimónia, Manuel Ferreira, disse à Lusa que "esta foi uma merecida homenagem que contou com o apoio de muitas altas patentes que ainda hoje servem nas forças armadas sul- africanas, algumas das quais marcaram presença".

Manuel Ferreira destacou o gesto do embaixador de Portugal na África do Sul, Paulo Barbosa, que se fez representar na cerimónia de descerramento da lápide em memória dos três combatentes portugueses.

Para Adelino Serras Pires, um conhecido empresário do ramo dos safaris em Moçambique, também hoje presente no cemitério militar de Thaba Tshwane, "esta homenagem é a prova viva de que a História não se apaga nem se rebobina como um filme".

"Conheci bem o sargento José Ribeiro (Carnaval), que comigo caçou em Moçambique, e sempre o considerei um militar de grande qualidade e presto hoje homenagem à sua coragem em combate e às suas qualidades humanas", concluiu Serras Pires.

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