Tribunal de Castro Daire começa a julgar caso de falsificação de carros furtados
O Tribunal de Castro Daire começou hoje a julgar dez homens acusados de falsificação de cerca de 40 automóveis, a maioria furtados em Alicante, Espanha, e outros em Portugal e França.
Segundo a acusação, na maior parte dos casos os arguidos recebiam os veículos furtados e introduziam-nos em Portugal (sem chaves nem documentos).
Em Portugal eram arranjados salvados, cujos elementos identificativos (nomeadamente o número do chassis e as chapas de matrícula) eram "implantados" nos carros furtados, posteriormente vendidos com a documentação dos primeiros.
Noutros casos, as viaturas chegavam com matrículas francesas e depois eram legalizadas em Portugal.
Alguns dos arguidos eram emigrantes em França que terão ajudado os importadores.
No geral, os dez arguidos (de Viseu, Pinhel, Vila Nova de Paiva, Loures e Castro Daire) estão acusados de receptação de viaturas que sabiam furtadas, da sua viciação, de falsificação de documentos e de burla, por venderem os veículos a pessoas de boa fé.
Os arguidos A. Lopes e A. Tavares, ambos comerciantes, e H.
Beirão, proprietário de uma oficina de reparação em Pinhel, são aqueles que reúnem maior número de crimes.
Os três foram detidos preventivamente em Abril de 2003, tendo A. Tavares sido libertado em Fevereiro deste ano.
Segundo a acusação, muitos dos "implantes" terão sido feitos na empresa Auto-Talhadas, de Vila Nova de Paiva, mas em relação a outros nunca foi apurado o local.
Quase quatro dezenas de pessoas terão sido burladas ao comprar os automóveis falsificados, uma vez que apenas alguns ficaram por vender quando os dez homens foram constituídos arguidos.
A. Tavares e H. Beirão optaram por não falar na primeira sessão, que foi em grande parte ocupada pelo depoimento de A. Lopes.
Um dos casos que mais confusão gerou foi o de dois Mercedes Classe E, um preto e um verde, que A. Lopes disse ter entregue na Auto- Talhadas juntamente com uma carroçaria do mesmo modelo cinzenta, para que os dois primeiros fossem reparados.
No final, saíram da oficina dois carros, um verde e um cinzento, este último com a identificação do preto.
Insistentemente questionado sobre a alteração dos elementos identificativos do chassis, o arguido respondeu que, se houve alguma alteração, foi da responsabilidade da oficina, um argumento que repetiu depois relativamente a outros carros.
Negou também ter conhecimento dos furtos ocorridos em Espanha.
O arguido C. Pereira, bate-chapas e sócio-gerente da Auto- Talhadas, chegou a admitir que na sua oficina foram retirados os elementos identificativos do chassis e as chapas da matrícula do Mercedes preto e colocados na carroçaria cinzenta levados por A. Lopes (que era seu "cliente frequente"), mas depois negou.
Já o seu sócio, M. Silvério, que é também mecânico, foi claro em assumir que houve carros em que foram retirados elementos identificativos de uma carroçaria e colocados noutra, nomeadamente nos Mercedes.
No entanto, afirmou que tal foi feito a pedido de A. Lopes e que desconhecia que se tratava de uma ilegalidade.
O julgamento prossegue quarta-feira de manhã, com a audição dos restantes arguidos.
O processo tem mais de cem testemunhas, estimando o Ministério Público que não fique concluído antes de finais de Janeiro do próximo ano.