Trolhas e estafetas: Gabriel Abrantes revisita o neorrealismo de Júlio Pomar

Trolhas e estafetas: Gabriel Abrantes revisita o neorrealismo de Júlio Pomar

Oitenta anos depois de Júlio Pomar ter retratado os trabalhadores da construção civil no Portugal dos anos 40, Gabriel Abrantes atualiza esse olhar, na exposição Tragédia e Farsa - Júlio Pomar e Gabriel Abrantes, no Atelier-Museu Júlio Pomar. Os trolhas do neorrealismo encontram os estafetas da economia digital.

Cláudia Almeida - RTP Antena 1  / Adicionar como fonte informativa
Fotos: Atelier-Museu Júlio Pomar - António Jorge Silva

Tragédia e Farsa é um encontro entre dois tempos e dois artistas. De um lado, o neorrealismo de Júlio Pomar; do outro, o olhar contemporâneo de Gabriel Abrantes sobre as novas formas de trabalho e vulnerabilidade social. A exposição inaugura dia 5 de novembro e fica patente até final de fevereiro de 2027, no Atelier-Museu Júlio Pomar, em Lisboa.

Com carta branca para revisitar o universo de Júlio Pomar (1926-2018), a escolha de Gabriel Abrantes (1984) recaiu sobre a produção neorrealista, marcada pela atenção às duras condições de vida e de trabalho, no Portugal da década de 1940.

Um dos núcleos centrais da exposição coloca frente a frente O Almoço do Trolha, pintura iniciada por Júlio Pomar em 1946, e um retrato de um estafeta realizado por Gabriel Abrantes, em 2026. A proximidade entre as obras está na evocação de formas de precariedade laboral.

Abrantes utiliza ferramentas digitais e computacionais para criar cenários e figuras em 3D, antes de as materializar em pintura, numa tela. Em contraste com a paleta escura, a textura rugosa, e as dimensões modestas das obras de Pomar (quase todas do período do pós-Segunda Guerra Mundial), a pintura e os desenhos de Gabriel Abrantes têm outra tonalidade, são habitadas por outro tipo de figuração e com uma paleta de cores muito luminosa.

Sob o título Tragédia e Farsa - Júlio Pomar e Gabriel Abrantes, a exposição (que reúne cerca de uma centena de obras, entre pintura e desenho) reflete sobre as promessas de mudança que atravessaram diferentes épocas, num contraponto entre a esperança de transformação associada às lutas do passado, e um presente que parece repetir reivindicações, sem produzir mudanças estruturais.

A curadora Sara Antónia Matos assinala o facto de, mais uma vez, no Atelier-Museu, se demonstra que a arte continua a desempenhar um papel crítico na sociedade: «a arte tem, de facto, essa função de trazer ao debate público determinados assuntos. É uma das provas de que os artistas estão também sintonizados com o seu tempo. A arte atravessa todas as dimensões da vida e todas as dimensões sociais, não é?»

No rés-do-chão estabelece-se um diálogo intenso entre o neorrealismo de Júlio Pomar (nomeadamente com as pinturas «O Almoço do Trolha» e «Resistência») e "O Almoço do Estafeta" e "Saco Glovo", obras de 2026 de Gabriel Abrantes. No piso superior, o artista e cineasta encerra simbolicamente um ciclo, em que se despede da personagem antropomórfica patente em várias obras desta exposição.
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