Ucranianos celebram Natal Ortodoxo num momento em que cada vez mais famílias estão a sair de Portugal

Lisboa, 12 Jan (Lusa) - A comunidade de imigrantes da Ucrânia, a maior de Leste no país, reúne-se hoje em Lisboa para celebrar o Natal Ortodoxo, num momento em que as dificuldades económicas estão a afastar muitas famílias ucranianas de Portugal.

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A Igreja Ortodoxa - seguida pela grande maioria dos ucranianos - segue o calendário juliano, o que explica a diferença de dias em relação ao Natal dos católicos, que seguem o calendário gregoriano.

Assim, para os Ortodoxos o nascimento de Cristo deu-se a 07 de Janeiro e não a 25 de Dezembro como celebra a Igreja Católica.

"Como não foi possível festejar o nosso Natal no próprio dia, uma vez que a grande maioria das pessoas estava a trabalhar, decidimos fazê-lo hoje", disse à Lusa o vice-presidente da Associação dos Ucranianos de Portugal, Vitali Mykhaliw.

O responsável explicou que o evento no Jardim Dom Afonso Henriques - onde se poderão ver as celebrações natalícias, teatro das escolas da comunidade e exposições de arte tradicional - é "uma festa aberta a todos", esperando a presença de cerca de 5.000 pessoas de vários pontos do país.

"Convidamos a comunidade moldava e russa em Portugal para se juntarem às celebrações. Mas também esperamos que portugueses se juntem à festa para que lhes possamos mostrar uma parte da nossa cultura", afirmou.

De acordo com Vitali Mykhaliw, a comunidade ucraniana foi sempre "bem recebida e acolhida em Portugal" e está actualmente bem integrada no país, pelo que agora "também quer dar a conhecer as suas tradições e costumes aos portugueses".

"Como todas os imigrantes, os ucranianos também sentiram dificuldades no início, especialmente ao nível da língua, mas graças à ajuda de várias entidades essas dificuldades foram diminuindo", lembrou Vitali Mykhaliw.

De acordo com o responsável, o número de imigrantes ucranianos em situação legal e ilegal em Portugal ronda actualmente os 50.000, sendo que entre 2006 e 2007 estavam contabilizados cerca de 35.000 em situação legal.

No entanto, Vitali Mykhaliw explicou que uma parte dessas pessoas, embora legalizados em Portugal, trabalha em outros países - como Espanha ou França - devido à difícil situação económica que se vive em Portugal.

"Há menos imigrantes ucranianos a vir para Portugal porque a situação económica na Ucrânia tem melhorado. Por outro lado, também há muitas famílias em Portugal que voltam para a Ucrânia ou saem de cá para procurarem emprego em Espanha", disse.

O vice-presidente da associação explicou que a crise económica e o aumento do desemprego, especialmente em 2006 e no ano passado, levou a que muitos ucranianos saíssem de Portugal, lembrando que a comunidade ucraniana "veio para Portugal para melhorar a sua vida e não para cair na pobreza".

Após um forte aumento da comunidade imigrante da Ucrânia em Portugal entre 1999 e 2001, - que ainda continua a ser a maior comunidade do Leste no país - a partir de 2004 registou-se um decréscimo, que se acentuou em 2006 e 2007.

Sobre as principais dificuldades que os ucranianos enfrentam actualmente em território luso, o responsável lembrou que estas não são diferentes dos problemas de outros imigrantes em Portugal.

"Na área de Lisboa, onde há uma concentração maior de ucranianos, não conseguimos arranjar um espaço próprio onde a comunidade ucraniana se possa juntar, conviver com os conterrâneos e desenvolver projectos", lamentou.

De acordo com Vitali Mykhaliw, um espaço que a associação pudesse utilizar "melhoraria muita coisa e garantiria um melhor atendimento as pessoas".

"Continuamos a espera de uma proposta da Câmara Municipal de Lisboa", disse.

Sobre as dificuldades em aceder à empregos compatíveis com as qualificações dos imigrantes, o responsável associativo disse que apesar de ainda existirem algumas dificuldades a situação "tem vindo a melhorar".

"Por desconhecimento do grau de exigência do nosso sistema de ensino secundário e superior as instituições portuguesas dificilmente reconheciam os nossos diplomas ou concediam equivalências", explicou o responsável.

"Agora o reconhecimento das qualificações já funciona na maioria dos casos", acrescentou o dirigente associativo.

De acordo com um estudo do Alto-Comissariado para a Imigração e Diálogo Intercultural, apesar de um em cada cinco imigrantes qualificados em Portugal dispor de habilitações superiores, em média, menos de 20 por cento consegue um emprego compatível com as suas habilitações, obrigando-os a trabalhar em funções nas quais as suas qualificações não são aproveitadas.

Apesar de um inquérito realizado a imigrantes da Europa de Leste em 2002 e 2004 ter constatado o elevado nível de educação deste grupo de imigrantes, o seu caso é, segundo o estudo, "particularmente ilustrativo do processo de desqualificação profissional em Portugal".

Nas celebrações natalícias de hoje vão estar presentes o embaixador da Ucrânia em Portugal, representantes da Câmara Municipal de Lisboa e o presidente da Associação de Ucranianos de Portugal.

No domingo também se realiza uma missa de Natal Ortodoxa em Santarém, promovida pela Câmara Municipal.

A liturgia, na Igreja da Graça, conta com a participação do padre Alexandre Bonito e do Bispo IIarion Rudnyk, que preside e concelebra em Língua Ucraniana a Liturgia de Natal.

SK.


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