Um ano marcado por eleições e pela primeira maioria absoluta do PS
O ano de 2005 ficou marcado pela vitória do PS nas legislativas, com a sua primeira maioria absoluta, e termina com a expectativa em relação ao resultado das presidenciais de Janeiro.
Para a história de 2005 ficará ainda a morte, a 13 de Junho, aos 91 anos, do líder histórico dos comunistas portugueses, Álvaro Cunhal, que foi secretário-geral do PCP durante 31 anos (1961-1992).
O ano que começou com a preparação das legislativas antecipadas depois da dissolução do Parlamento pelo Presidente da República, Jorge Sampaio, que encurtou o mandato do Governo PSD/CDS-PP liderado por Pedro Santana Lopes, culmina com a pré-campanha das presidenciais.
Se Cavaco Silva, apoiado pelo PSD e CDS-PP, vencer as eleições presidenciais de 22 de Janeiro será o primeiro inquilino do Palácio de Belém não oriundo da esquerda.
A esquerda apresenta-se a estas eleições dividida entre quatro candidaturas - Mário Soares, Manuel Alegre, ambos do PS, Jerónimo de Sousa (PCP) e Francisco Louçã (Bloco de Esquerda).
Nas eleições de 20 de Fevereiro, o PS ganhou com 45 por cento dos votos, correspondentes a 121 dos 230 deputados do Parlamento e à primeira maioria absoluta da sua história.
A derrota pesada do PSD, que recolheu apenas 28 por cento dos votos, levou à demissão de Santana Lopes, que convocou um congresso extraordinário do partido.
Marques Mendes foi o primeiro a perfilar-se na corrida, seguindo-se o presidente da Câmara de Vila Nova de Gaia, Luís Filipe Menezes.
A disputa acabou por ser a dois, já que, depois de muitos apelos a Manuela Ferreira Leite para que se candidatasse, a ex- ministra das Finanças de Durão Barroso acabou por dar o seu apoio a Marques Mendes, que saiu vencedor com 55 por cento dos votos.
Também no CDS as eleições fizeram estragos, com o líder, Paulo Portas, a não resistir a uma votação de 7,2 por cento (que implicou a perda de dois deputados), anunciando a demissão logo na noite eleitoral.
O congresso que decidiu a liderança dos democratas-cristãos só se realizou dois meses depois das eleições mas os candidatos surgiram em cima da hora: contra todas as expectativas o favorito Telmo Correia saiu derrotado na disputa com o eurodeputado José Ribeiro e Castro.
Sete meses depois da maioria absoluta, o PS teve uma pesada derrota nas eleições autárquicas de 9 de Outubro, obtendo menos Câmaras do que em 2001 (109 contra as anteriores 112), quando os resultados levaram António Guterres a demitir-se do cargo de primeiro- ministro.
As autárquicas ficaram também marcadas pela candidatura, como independentes, de figuras envolvidas em processos judiciais e rejeitadas pelos seus partidos, casos de Isaltino Morais e Valentim Loureiro (PSD), Fátima Felgueiras (PS) e Avelino Ferreira Torres (CDS).
Fátima Felgueiras regressou em Setembro - em vésperas das autárquicas - do Brasil, para onde fugira em Maio de 2003 para escapar à prisão preventiva que lhe fora decretada pelo Tribunal da Relação de Guimarães, no âmbito do processo sobre alegado desvio de fundos.
O ex-autarca de Marco de Canavezes, que se candidatou a presidente da Câmara de Amarante, foi o único dos quatro a não ser eleito, com Fátima Felgueiras, Isaltino Morais e Valentim Loureiro a regressarem às Câmaras de Felgueiras, Oeiras e Gondomar, respectivamente.
Mesmo antes das autárquicas, a partir de Julho, a agenda política começou a ser dominada pelas presidenciais de 2006, com a expectativa da confirmação da candidatura de Cavaco Silva e a surpresa do aparecimento do nome de Mário Soares como candidato a Belém apoiado pelo PS.
No primeiro semestre do ano, o PS viveu numa indefinição quanto ao seu candidato presidencial, depois de António Guterres ter saído definitivamente da corrida em Maio - ao ser escolhido Alto Comissário para os Refugiados das Nações Unidas - e de António Vitorino se ter auto-excluído.
O secretário-geral, José Sócrates, optava, então, por desvalorizar as presidenciais e Manuel Alegre surgia como potencial candidato dos socialistas, sem que o próprio esclarecesse a sua vontade.
A disponibilidade de Alegre para ser candidato a Presidente acabaria por ser manifestada a 23 de Julho, um dia antes de José Sócrates declarar o apoio do PS a uma candidatura de Mário Soares, caso o antigo chefe de Estado quisesse candidatar-se a um terceiro mandato, o que veio a confirmar-se a 31 de Agosto.
Depois de dar a entender que se afastava da corrida para não dividir a esquerda, Manuel Alegre anunciou ser candidato a Belém num jantar de campanha para as autárquicas, a 24 de Setembro, na sua terra natal, Águeda.
Só a 20 de Outubro Cavaco Silva confirmou que iria disputar as eleições presidenciais, tendo recebido o apoio do partido que liderou durante mais de 10 anos, o PSD (do qual se desfiliou), e do CDS-PP.
PCP e Bloco de Esquerda optaram por candidatar os seus líderes, Jerónimo de Sousa e Francisco Louçã, que garantem ir a votos.
Entre eleições, o tema do referendo sobre aborto marcou o ano parlamentar, com o PS - apoiado apenas pelo BE - a somar sucessivas derrotas no objectivo de realizar uma nova consulta popular a breve prazo.
Em Maio, o Presidente da República, Jorge Sampaio, rejeitou uma primeira proposta destes dois partidos, para evitar que o referendo se realizasse no Verão, com uma previsível fraca afluência.
Depois das férias parlamentares, o PS reapresentou a proposta, chegando a alterar três leis para que a consulta fosse possível antes das presidenciais, mas o Tribunal Constitucional inviabilizou-a, dando razão à oposição na interpretação de que uma nova sessão legislativa só começa em Setembro de 2006.
Como a Constituição impede a reapresentação de projectos idênticos na mesma sessão, só em Setembro de 2006 o PS poderá reintroduzir o tema do aborto na agenda política, tendo recusado abdicar do compromisso eleitoral do referendo e mudar a lei no Parlamento.
Também pelo caminho ficou o referendo sobre o Tratado Constitucional Europeu - entretanto suspenso por falta de acordo entre os 25 Estados-membros - que motivou uma revisão constitucional cirúrgica aprovada por PS, PSD e CDS-PP.