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Uma "casa" onde se criam laços para agarrar as crianças à vida

Uma "casa" onde se criam laços para agarrar as crianças à vida

No Hospital Dona Estefânia, em Lisboa, há uma "casa" onde são internadas crianças que precisam de ajuda para criar laços que as agarrem à vida e ultrapassar problemas psiquiátricos que, nalguns casos, as levaram a desejar a morte.

Sandra Moutinho, Agência LUSA /

Esta "casa" tem móveis, computador, televisão e, como qualquer lar, regras, normas, adultos atentos às crianças e muitas brincadeiras como forma de tratamento.

Ao longo de um edifício situado no Hospital Dona Estefânia, as crianças que estão hospitalizadas na Unidade de Internamento do Departamento de Psiquiatria da Infância e da Adolescência têm os dias preenchidos com actividades.

No dia em que a Agência Lusa visitou este serviço, cinco crianças dedicavam-se aos segredos da reciclagem, acompanhadas de uma terapeuta ocupacional, que tenta dar sentido às actividades lúdicas.

Presentes, embora discretos, outros técnicos seguiam os movimentos das crianças e asseguravam a sua evolução comportamental, para que os problemas que as conduziram ao internamento em unidades de psiquiatria infantil sejam ultrapassados.

Doenças do comportamento alimentar - como a anorexia e a bulimia -, depressões, perturbações do comportamento, psicoses e tentativas de suicídio são algumas das razões que levam crianças ao internamento.

Em 2004, 90 crianças e jovens foram internadas nesta unidade, que conta com 10 camas e tem uma equipa de três médicos, 16 enfermeiros, sete auxiliares de acção médica, um terapeuta ocupacional, um psicólogo e uma assistente social.

Uma vasta equipa que, contudo, nunca chega, principalmente quando as 10 camas estão ocupadas.

"Cada criança exige um técnico e, de uma forma ou outra, todas são vigiadas 24 horas por dia, embora sem que o entendam como uma perseguição", disse à Lusa a enfermeira-chefe desta Unidade de Internamento, Maria José Viana de Almeida.

A trabalhar desde que o serviço foi criado, há três anos, esta enfermeira sabe que são precisos muitos olhos para guiar estas crianças e, paralelamente, outros tantos sorrisos.

"Temos meninas com problemas de anorexia - que não podem estar sozinhas -, outras que tentaram o suicídio e estão em risco. Nem a navegação na Internet pode ser um acto isolado, tendo em conta os sites proibidos", explicou.

Apesar deste "controlo", e das portas da instituição estarem sempre fechadas, por razões de segurança, as crianças vão adaptando o seu dia a dia às normas e regras da Unidade e, para muitas, a alta é uma má notícia, pois significa voltar para os problemas.

O tempo do internamento depende dos casos, podendo prolongar-se por meses. Os profissionais procuram dar sentido à vida destas crianças, mostrando-lhes que há mais mundo além da tristeza que as levou a um tal estado depressivo que exigiu intervenção clínica.

"Criamos laços e modelos de identificação e tentamos que as crianças verbalizem os seus medos", explicou Maria José Viana de Almeida.

Na Unidade de Internamento do Departamento de Psiquiatria da Infância e da Adolescência do Hospital Dona Estefânia - que acolhe crianças até aos 16 anos - a aprendizagem é constante e o objectivo sempre presente: mostrar que há outros caminhos.

O trabalho com estas crianças não termina quando clinicamente recebem a alta. O papel do meio que as envolve - família, escola, amigos - torna-se fundamental, assim como o acompanhamento médico.

O Departamento de Psiquiatria da Infância e da Adolescência do Hospital Dona Estefânia conta ainda com atendimento em ambulatório na Unidade de Primeira Infância (dos zero aos três anos), nas clínicas do Parque, da Encarnação e da 24 de Julho (dos três aos 12 anos) e na Clínica da Juventude (dos 13 aos 18 anos), além da Unidade de Internamento.


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