Uma geração à espera do regresso das Festas do Povo

Uma geração à espera do regresso das Festas do Povo

Nos últimos 11 anos, em Campo Maior, as crianças cresceram, nasceram novas famílias e muitos campomaiorenses nunca chegaram a ver as ruas cobertas de flores. O regresso das Festas do Povo devolve à vila uma tradição acompanhada, este ano, por uma expectativa sem precedentes.

Onze anos podem parecer apenas um intervalo entre duas edições de uma festa, mas para os campomaiorenses representam uma geração. 

Durante esse tempo, a vila mudou. As crianças cresceram, os jovens tornaram-se adultos, nasceram novas famílias e muitas vidas seguiram em frente sem que as ruas voltassem a vestir-se de flores.

Diogo Guerrinha, da Associação das Festas do Povo de Campo Maior, sente essa transformação de forma evidente. "Muita gente jovem acabou por ser pai", salienta. É talvez a imagem que melhor traduz o tempo que passou. Há hoje crianças que nunca viram as Festas do Povo.


Conhecem-nas apenas através das fotografias penduradas nas paredes de casa, dos vídeos guardados nos telemóveis ou das histórias contadas pelos pais e pelos avós.

Mariana Pinheiro é uma delas. Nunca percorreu as ruas enfeitadas, nunca viu o teto de flores suspenso sobre a vila. Tudo o que sabe sobre esta tradição chegou-lhe através da memória dos outros.

Mas o regresso das festas traz consigo outra diferença. Pela primeira vez, Campo Maior celebra esta tradição depois de as Festas do Povo terem sido classificadas como Património Cultural Imaterial da Humanidade.

Um reconhecimento que aumentou a expectativa em torno da edição deste ano. "Passados 11 anos sem se realizarem as festas do povo, temos, obviamente, muito olhos em cima", assume Joel Moriano, outro elemento da Associação. Por isso, explica, a responsabilidade também cresceu. A tradição mantém-se fiel às suas raízes, mas o desafio de inovar é agora maior do que nunca.

O trabalho chegou ao fim e na vila de Campo Maior, todos conhecem as regras. Apesar de o trabalho decorrer à vista de todos, existe um segredo que ninguém revela. O tema de cada rua.

É um pacto silencioso que atravessa gerações e Joana Correia nem sequer tenta quebrá-lo. "Eu não me interesso saber das outras ruas, gosto da surpresa no dia", diz, sorrindo.

Passados 11 anos, Campo Maior mostra-se ao mundo por que motivo esta tradição construída pelas mãos do povo passou a fazer parte do património da Humanidade. 

E percebe-se, finalmente, que o verdadeiro segredo das Festas do Povo nunca esteve escondido no tema de cada rua. 
Está nas mãos que durante sete meses dobraram papel sem esperar nada em troca. 

Porque, em Campo Maior, as festas não são organizadas para o povo. São o próprio povo.