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Única mulher calceteira em Lisboa trata o chão como renda

Única mulher calceteira em Lisboa trata o chão como renda

A única mulher calceteira em Lisboa acaricia com as mãos o chão pisado por milhares de transeuntes e duvida que alguma vez encontre semelhante prazer em outra profissão, apesar do esforço físico para "homens de barba rija".

Agência LUSA /

Maria de Lurdes Baptista , 42 anos, orgulha-se de ser a única calceteira em Lisboa, uma profissão que já lhe causou problemas de saúde, mas que teima em não abandonar pelo prazer que sente em embelezar as ruas da cidade.

Entrou na profissão quase por acaso, conforme contou à Lusa:

"Em 1991, inscrevi-me num curso de jardinagem, mas não consegui entrar e acabei por ir para o curso de calceteiro, que adorei".

A calceteira conhece os passeios de Lisboa como "as palmas da suas mãos" e lembra-se "como se fosse hoje" do primeiro trabalho que realizou, na Praça da Figueira.

Apesar de ser uma profissão quase exclusivamente de homens, Maria de Lurdes diz que foi muito bem aceite pelos colegas, que sempre a acarinharam.

A calceteira fala com orgulho do que tem realizado ao longo dos 14 anos de trabalho, dos quais destaca os "bonitos desenhos" que empedra nos passeios, e fala com revolta das críticas "injustas" que muitas vezes ouve dos munícipes.

Mas nem tudo são "rosas" na profissão de calceteiro, um ofício duro que obriga os trabalhadores a andarem vergados durante várias horas.

Uma equipa de trabalho é constituída por um calceteiro, um batedor de maço e um servente, mas como actualmente existem muito poucos profissionais o trabalho, às vezes é realizado apenas por uma ou duas pessoas.

"O pessoal é pouco e temos de fazer tudo, agarrar o maço, a picareta, carregar pedra, o que se torna mais cansativo", adiantou a calceteira, comentando que o pior é o "levantar e baixar, uma posição mais difícil para as mulheres".

Este esforço já causou vários problemas de saúde a Maria de Lurdes: "Há um ano e tal que me andava a queixar de um ombro e acabei por ser operada há dois meses, além de ter a coluna toda marada".

Maria de Lurdes foi aconselhada pelo médico a não voltar a fazer o mesmo tipo de trabalho, mas isso é algo que a assusta porque adora a profissão.

"Tenho muita pena se o tiver de fazer porque adoro o meu trabalho, onde o tempo passa muito depressa", diz.

Apesar do esforço e empenho que dedica à profissão, a calceteira sente que muitas vezes não são reconhecidos pelos lisboetas.

"Ouvimos muitas queixas por causa dos buracos e algumas piadas como só nas eleições é que vêm tapar os buracos", contou a calceteira.

Para Maria de Lurdes, as zonas mais críticas da cidade a nível de buracos são a Avenida 24 de Julho, a Praça do Comércio, a Praça da Figueira, entre outras.

"Lisboa está cheia de buracos e há sítios que já são crónicos", comentou, criticando ainda "as obras da EDP e a EPAL que rebentam com tudo".

"Há trabalho tão perfeito e fico desgostosa quando rebentam com ele", acrescentou.

Outra das críticas de Maria de Lurdes vai para o serviço da Câmara de Lisboa "LX-Alerta", porque as "as pessoas reclamam e nós temos de ir aos locais, ficando o trabalho que estávamos a fazer meio".

Esta situação também acontece devido à falta de calceteiros:

"somos 27 e há 15 anos éramos 200", acrescentou.

Maria de Lurdes confessou ficar muitas vezes chocada com trabalhos feitos por empreiteiros depois das obras que considera "uma autêntica calamidade".

"Quando desmancham o desenho já não fica nada igual, nem têm ferramentas adequadas e muitas vezes fazem a calçada com pedra grande quando devia ser pequenina", comentou, afirmando peremptoriamente:

"são coisas que revoltam".

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