Universidade de Coimbra identifica impacto da diabetes gestacional e obesidade no coração de bebés

Universidade de Coimbra identifica impacto da diabetes gestacional e obesidade no coração de bebés

Um estudo da Universidade de Coimbra (UC) identificou o aumento de um marcador de stresse cardíaco nos recém-nascidos nos casos em que as mães apresentam excesso de peso ou obesidade antes da gravidez.

Lusa / Adicionar como fonte informativa
Foto: António Antunes - RTP

"O estudo é particularmente relevante num cenário em que o excesso de peso e a obesidade em idade reprodutiva se tornam cada vez mais frequentes, e em que a diabetes gestacional -- uma condição que surge durante a gravidez em mães que não eram anteriormente diabéticas -- afeta cerca de 15% das gravidezes a nível mundial", salientou a UC, em comunicado.
Coordenada pelo Centro de Neurociências e Biologia Celular da UC/Centro de Inovação em Biomedicina e Biotecnologia, a investigação pode "abrir caminho à futura identificação de sinais de vulnerabilidade para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares".
De acordo com o estudo, a doença cardiovascular é habitualmente associada à idade adulta, ao estilo de vida ou à genética, mas o coração "começa a desenvolver-se muito antes disso e, durante a gravidez, adapta-se continuamente ao ambiente em que se encontra".
Os investigadores quiseram compreender a ligação entre a diabetes gestacional, o desenvolvimento fetal e a doença cardiovascular, que pode surgir décadas mais tarde, através da análise do sangue do cordão umbilical de 82 recém-nascidos, com foco na presença de um marcador de stresse cardíaco (a molécula NT-proBNP), com informação "cruzada com características metabólicas, hormonais e inflamatórias da mãe e do bebé".
"Tentámos avaliar se a diabetes gestacional deixa sinais mensuráveis de stresse cardíaco no bebé antes do nascimento, influenciando a sua saúde cardiovascular futura, e como o ambiente metabólico materno pode comunicar com o coração do bebé antes mesmo de ele nascer", explicou a investigadora e também aluna do Programa Doutoral em Biologia Experimental e Biomedicina da UC, Carolina Tocantins.
Ao analisar o sangue do cordão umbilical de gravidezes com e sem diabetes gestacional, a equipa de investigadores descobriu um aumento de cerca de 26% dos níveis da NT-proBNP nos casos que apresentavam excesso de peso ou obesidade materna antes da gravidez.
Esta abordagem permitiu identificar esta molécula como um possível ponto de ligação entre o metabolismo da mãe, a resposta metabólica do bebé e a potencial adaptação do coração do bebé.
"Conseguimos relacionar a NT-proBNP com o índice de massa corporal e a glicemia materna, o peso da placenta e a secreção de insulina fetal. Encontrámos ainda uma relação inversa com o cortisol no sangue fetal do cordão umbilical", revelou a investigadora que coordenou o estudo, Susana Pereira.
No entanto, isso não significa que se possa atualmente usar a molécula NT-proBNP para prever se o bebé desenvolverá doença cardiovascular, embora abra uma possibilidade de vir a combinar biomarcadores obtidos ao nascimento com informação clínica.
"Identificar precocemente sinais de vulnerabilidade poderá, no futuro, contribuir para estratégias de prevenção mais personalizadas para estas doenças", frisou Susana Pereira, da Unidade de Ciências Biomoleculares Aplicadas e do Instituto para a Saúde e a Bioeconomia do Departamento de Química da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa.
O estudo, desenvolvido no âmbito do doutoramento de Carolina Tocantins, foi realizado em colaboração com a Universidade Médica de Graz (Áustria) e com a Universidade Nova (Lisboa), sendo financiado pelo Fundo Austríaco para a Ciência, da Fundação para a Ciência e a Tecnologia e do programa Horizonte Europa.
Tópicos
PUB