Variações no ciclo menstrual afectam qualidade da voz

As diferentes fases do ciclo menstrual afectam de forma negativa a performance das cantoras líricas, alertou uma investigadora da Universidade de Aveiro, que participa sábado, em Matosinhos, num debate sobre este problema.

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Filipa Lã, soprano e bióloga de formação, afirmou à Lusa que estudos realizados neste campo demonstram existir uma relação entre as variações hormonais e a voz.

"Devido ao seu sistema endócrino, as mulheres são mais afectadas e as mudanças na voz são mais visíveis no caso daquelas que usam a voz profissionalmente", disse.

Filipa Lã apontou as "semelhanças" entre o tecido das paredes do útero e a mucosa das cordas vocais como a causa destas perturbações na performance das cantoras nas diferentes fases do ciclo menstrual, designadamente na fase pré-menstrual e período menstrual.

Segundo referiu, como as mudanças no corpo da mulher são cíclicas, "nas fases pré-menstrual e menstrual há retenção de fluidos, que se verifica também ao nível nas cordas vocais".

Esta retenção de fluidos, disse, "provoca alterações na voz, como rouquidão e edemas, por exemplo".

A investigadora afirmou que há países da Europa de Leste onde os contratos de trabalho com cantoras líricas incluem uma cláusula que lhes permite não trabalhar durante três dias se demonstrarem que a sua voz está afectada devido a variações hormonais.

"Se as cantoras esforçam a voz nesses períodos, pode mesmo haver uma pequena hemorragia vocal", alertou, salientando, contudo, que estes problemas não afectam as mulheres de forma igual, sendo que umas os sentem muito mais do que outras.

De acordo com um estudo que realizou, Filipa Lã constatou que 80 por cento dos estudantes de canto sentem alterações vocais, mas umas muito mais do que outras.

Contornar este problema passa por, aconselhou, "não exigir muito da voz nessas alturas", bem como "beber muita água, evitar gritar e tomar vitamina B12".

Há também "um método artificial" para dar a volta ao problema, disse, que passa por tomar a pílula contraceptiva de forma seguida, ou seja, não cumprindo os sete dias de paragem previstos entre a toma de embalagens, o que faz suprimir a menstruação.

Contudo, a investigadora responsável por um estudo de análise dos efeitos do uso da pílula contraceptiva na qualidade vocal das cantoras líricas, desaconselha este método, uma vez que há vários tipos de pílula.

Filipa Lã referiu ainda que o uso de certos medicamentos contendo esteróides sexuais sintéticos afecta também a voz, como aqueles utilizados para o tratamento da endometriose.

"É importante ter conhecimento deste fenómeno e suas causas/efeitos, não só porque a voz é a `impressão digital` da emotividade, personalidade e sexualidade individuais, como também é o principal instrumento de comunicação", considerou a investigadora.

Por isso, "pequenas alterações vocais podem vir a ter consequências nefastas na qualidade de vida de uma mulher, especialmente das que dependem profissionalmente da sua voz", concluiu.

Filipa Lã está a desenvolver agora, em parceria com a Universidade do Porto, uma investigação para perceber em que medida a terapêutica hormonal de substituição afecta a voz das mulheres na menopausa, particularmente cantoras, locutoras, actrizes e professoras.

A bióloga e soprano vai falar, sábado, da interferência dos esteróides sexuais na voz e no canto, na conferência "music medicine", a decorrer às 16:30, na FNAC do Norteshopping.

Na sessão, organizada pelo jornal on-line Ciência Hoje (www.cienciahoje.pt), Filipa Lã vai também cantar poemas de António Botto, sendo acompanhada pelo pianista Francisco Monteiro.

Esta sessão terminará com a actuação do grupo de música tradicional portuguesa "Chamaste-m`o", que começou a carreira em 1995.

A investigadora, natural da Covilhã, iniciou os estudos musicais no Conservatório Regional de Musica da Covilhã, tendo em 1993 ingressado no curso superior de Biologia na Universidade de Coimbra, completando a licenciatura em 1999.

Terminou o doutoramento em Inglaterra em 2005 como bolseira da Fundação para a Ciência e a Tecnologia e realiza actualmente o pós-doutoramento no departamento de Comunicação e Arte da Universidade de Aveiro, continuando a desenvolver investigação sobre performance vocal e a sua carreira como cantora.


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