Vereador do PSD admite renunciar para resolver crise na maioria camarária da Figueira da Foz

O vereador do PSD na autarquia da Figueira da Foz Paulo Pereira Coelho, crítico da gestão camarária, admitiu renunciar ao mandato para resolver a crise no executivo, dependendo essa decisão de uma remodelação da vereação e chefias.

© 2007 LUSA - Agência de Notícias de Portugal, S.A. /

"Que fique bem claro que nada me move para o lugar seja de quem for. Não quero ser presidente da Câmara [num cenário de renúncia do actual edil]. Tenho feito propostas concretas que passam pela minha saída" disse hoje o autarca à agência Lusa.

Desde o início do segundo mandato do presidente da Câmara, Duarte Silva, independente eleito pelo PSD, que Pereira Coelho assumiu uma postura crítica sobre diversas opções da maioria.

A 03 de Janeiro de 2006, sensivelmente quatro meses depois da posse, o antigo vice-presidente ficou sem pelouros e o presidente retirou-lhe a confiança política.

Em Fevereiro de 2007 votou pela primeira vez contra uma proposta do PSD, aliado à oposição socialista, chumbando a isenção de taxas da polémica urbanização do Vale do Galante, na marginal da Figueira da Foz.

A crise camarária agudizou-se a 04 de Junho, quando Pereira Coelho apoiou uma proposta do PS de retirada de poderes ao presidente da Câmara, que resultou na revogação da delegação de competências aprovada em Outubro de 2005.

Para abandonar o cargo, o vereador do PSD impõe uma "remodelação total" da maioria - que passa pela renúncia aos mandatos de, pelo menos, dois actuais vereadores - bem como a mudança de algumas chefias de departamentos camarários.

Acusou o presidente da autarquia de "falta de ambição e vontade" para resolver os problemas, aludindo às dificuldades financeiras da Câmara e ao "abandalhamento" no que ao urbanismo da Figueira da Foz diz respeito.

O vereador afirmou estar "continuamente a alertar as pessoas para retomarem um caminho correcto de governação da Câmara", recusando silenciar os problemas.

"Não me podem pedir que esteja calado. Tem de haver diálogo, mas tem de haver decisões", justificou.

Disse ter feito propostas concretas, nomeadamente nos órgãos do PSD, lamentando não ter obtido resposta, existindo, ao invés, "algum diálogo de surdos".

Questionou, entre outros casos, situações relacionadas com o departamento de urbanismo da autarquia, a gestão e manutenção de equipamentos culturais e desportivos - deu o exemplo do Centro de Artes e Espectáculos, que classificou de "sorvedouro de dinheiro" - ou as dificuldades financeiras numa Câmara "falida".

Criticou, igualmente, a "cultura de silêncio" que diz existir na edilidade.

"Há uma cultura de esconder as coisas e de não as discutir publicamente não sei para quê. Há uma tentativa constante de esconder, o que faz adensar um clima de desconfiança [sobre a gestão camarária]" disse.

Questionado sobre o porquê de ter assumido uma postura crítica no segundo mandato de Duarte Silva, ao contrário do primeiro mandato, disse que assumiu o silêncio, no passado, "por solidariedade e lealdade" para com o presidente da Câmara.

"É verdade que no passado não falei, mas não tenho problemas nenhuns em assumir isso. Fi-lo, na altura, por solidariedade e lealdade, por pensar que as pessoas que estavam à frente [da Câmara] eram capazes de ultrapassar essas dificuldades. E dai ter avisado, dentro do partido falei-me de falar disto, ninguém me quis ouvir" sustentou.

"Agora esta a vir ao de cima aquilo que não é possível tapar de maneira nenhuma, como se sabe casa onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão", acrescentou Pereira Coelho.

No urbanismo, manifestou-se disponível para apoiar uma sindicância àquele departamento camarário, mas, sublinhou: "ela tem de partir de quem comanda", numa alusão a Duarte Silva.

Sustentou que a autarquia está a ser gerida "em controlo remoto", defendendo maior "proximidade e dedicação" aos problemas e uma administração "totalmente reformulada".

"Estamos a gastar dinheiro estupidamente. Estamos a torrar dinheiro sem qualquer benefício para a cidade, concelho e trabalhadores da câmara", referiu.

Ouvido pela Lusa, o presidente da concelhia do PSD da Figueira da Foz, José Elísio Oliveira, afirmou subscrever "quase tudo" no "discurso continuado de alerta" do autarca Paulo Pereira Coelho.

José Elísio, que é também vereador, precisou que subscreve os incentivos à capacidade reivindicativa e de decisão das pessoas ou as dificuldades financeiras da autarquia.

"Houve em tempos investimentos que agora não se conseguem manter, subscrevo, a verdade é que se gasta muito dinheiro", afirmou.

Quanto às propostas de resolução da actual crise no executivo, o presidente da concelhia não se quis pronunciar, afirmando ser um "assunto interno" do partido.

A concelhia do PSD reafirmou recentemente a confiança política "em todos os eleitos pelo PSD" após aquela estrutura partidária se ter reunido na sequência de um pedido de apoio político por parte do presidente Duarte Silva.

Na altura, José Elísio sustentou que o partido "nunca retirou apoio" ao presidente da Câmara e, embora definindo a situação na maioria camarária como "grave", defendeu que a solução "tem de ser encontrada no seio do executivo".

Por seu turno, Jaime Soares, presidente da distrital de Coimbra do PSD, apelou à "sensatez e dialogo" de todos os envolvidos, defendendo que a maioria camarária deve "assumir na íntegra o projecto" autárquico, respeitando a Figueira da Foz e o PSD.

"Tenho feito tudo o que e humanamente e politicamente possível para resolver a situação. Não pretendo entrar em rotura", afirmou.

Sobre as propostas de Paulo Pereira Coelho, disse que o vereador "pode ter as posições que entender".

"Tem os mesmos direitos de todos os outros que foram eleitos, mas quem lidera a Câmara é que tem de decidir", disse Jaime Soares.

A agência Lusa contactou o presidente da autarquia, Duarte Silva, sobre a situação na Câmara Municipal, mas o autarca mostrou-se indisponível para tecer qualquer comentário.


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