Vigília em Lisboa assinala 30 dias de guerra e pede libertação de reféns
Dezenas de pessoas juntaram-se hoje numa vigília em Lisboa para assinalar 30 dias do início da guerra entre o Israel e o Hamas, pedir a libertação dos 200 reféns em posse do movimento palestiniano e condenar manifestações de antissemitismo.
Sob o lema "Estamos Unidos", a vigília ao início da noite na Praça do Município, organizada pela comunidade israelita de Lisboa, tinha também como mensagens-chave "Nunca Mais é Agora", em alusão à memória do Holocausto e "Tragam-nos para Casa Agora", numa referência aos mais de 240 reféns cativos pelo Hamas desde os ataques em 07 de outubro em solo israelita e que deixaram, segundo as autoridades de Telavive, cerca de 1.400 pessoas massacradas.
À medida que um tela instalada no largo fronteiro à Câmara de Municipal Lisboa ia exibindo imagens e nomes de vítimas daquele dia e de reféns, o embaixador em Israelita em Portugal, Dor Shapira, lembrou aos presentes que 30 dias é uma data emblemática no judaísmo na homenagem aos seus mortos.
"É isso que estamos a fazer aqui esta noite, 30 dias depois do acontecimento", declarou o diplomata, em memória de "1.400 pessoas que foram assassinadas de forma tão brutal".
O embaixador recordou um pai e uma filha, que nasceu com uma doença congénita incapacitante e que adorava música, para contar que ele decidiu dedicar a sua vida a levá-la a concertos em toda a parte, incluindo Portugal, onde Shapira os conheceu.
"Toda a gente já conhecia esse pai tresloucado com a filha na cadeira de rodas a dançar de manhã até à noite, apreciando a vida porque essa era a paixão deles", lembrou o embaixador, "mas infelizmente o último festival a que ele a levou foi o Nova", onde ambos morreram com cerca de 260 pessoas abatidas pelo Hamas.
Essa "é apenas uma história em 1400 histórias", referiu o diplomata, "de almas puras que foram assassinadas de forma tão brutal" que, advertiu, só podem merecer condenação, sob pena de não se compreender a guerra em curso em que "o Hamas não vai ficar por aqui".
"Não se trata do conflito israelo-palestiniano, é algo muito mais profundo", sustentou, afirmando que, além da invocação dos 1.400 mortos pelo Hamas, tem de ser pedida proteção e libertação dos cerca de 240 reféns e combater-se a vaga de "antissemitismo em ascensão", sem áreas cinzentas: "Há algo que une essas três coisas, às vezes no mundo, existe o certo e o errado e estamos num momento justificado do certo contra o errado".
Entre barreiras metálicas emoldurando o recinto da praça, para a qual só se entrava mediante identificação, e sob apertada proteção de elementos da PSP e de seguranças privados, a vigília foi porém marcada pela serenidade acompanhada de comoção discreta de vários participantes, na forma como fechavam o rosto na imagem de uma vítima de 07 de outubro ou de um refém.
Alguns traziam bandeiras israelitas e portugueses, outros mensagens como "apoie a humanidade, não o terrorismo" outros ainda cartazes com fotografias dos reféns e a palavra "raptado" e com o pedido mais reiterado: "Tragam-nos de volta".
Esta foi uma manifestação de solidariedade para com as vítimas e suas famílias, de apelo para a "libertação urgente" das pessoas em cativeiro e de apoio à "legitimidade de Israel em se defender", segundo o líder da comunidade israelita em Lisboa.
"É o tempo em que estamos ao lado de Israel, apoiando as ações determinadas de combate ao terrorismo", afirmou David Botelho, agradecendo ao Governo português e aos agentes políticos pela condenação dos atos praticados pelo Hamas, porque "apoiar Israel é apoiar as vítimas do terror e estar ao lado de quem foi agredido, de quem foi violentado".
O presidente da comunidade também se referiu ao combate ao antissemitismo e que "merece um combate sem quartel", apontando que Portugal tem desde abril um coordenador nacional de uma estratégia europeia, apelando para que as suas linhas sejam visíveis, concretas e implementadas.
Jordana Machado, uma luso-brasileira de 20 anos, marcou presença na Praça do Município como forma de lembrar as vítimas e de fazer sentir que Israel não está só: "Somos a favor de Israel e daqueles que se mobilizam para estar do lado da vida", justificou.
"Nem todos os métodos de guerra são os melhores abordados", concede a jovem, mas, a respeito de proporcionalidade do Exército israelita - nos seus bombardeamentos e operações na Faixa de Gaza -, observa que foi o Hamas que iniciou as hostilidades e que agora "tanto Israel como a Palestina tentam defender-se da melhor forma que podem".
Este é um tema a que Moisés Lachman, de 60 anos, também é sensível, considerando que "as pessoas têm todo o direito de fazer manifestações pró-Palestina, mas deviam manifestar-se contra o Hamas também"
O movimento palestiniano "está a dar tiros na cabeça de quem quer fugir" da Faixa de Gaza, não passando de meros terroristas que "já assassinaram o pessoal da Fatah da Cisjordânia", refere o empresário brasileiro antes de pausar o discurso para gritar "Bring them home" ["Tragam os reféns para casa"], a mesma frase que tinha escrita num cartaz.
Depois, voltou para frisar que "quem não é a favor de dois Estados é o Hamas desde a sua conceção", e que os palestinianos também são vítimas "do antissemitismo e do antissionismo dos árabes", deixando críticas à Cruz vermelha, à ONU e ao seu secretário-geral, António Guterres, porque "os reféns israelitas não contam, só contam os palestinianos que começaram a guerra".
Para a israelo-suíça Alex Schinasi, 38 anos, "todos podem estar do lado dos palestinianos desde que seja num contexto pacífico", mas o problema é quando há violência e antissemitismo, na medida que "todos os civis são vítimas".
"Estou aqui pelos reféns, para lembrar as pessoas que morreram de uma forma brutal há um mês e para espalhar paz e compreensão", afirmou, deixando claro que não sente antissemitismo em Portugal: "Sinto-me sortuda e bem-vinda. Somos uma família israelo-suíça, falamos hebreu e estamos vigilantes, porque ouvimos histórias e temos mais cuidado. Mas estou feliz de estar em Lisboa e não noutra capital europeia".
Já Luciano Waldman, um brasileiro e israelita de 34 anos, diz sentir o antissemitismo a partir do momento em que dá a sua opinião como judeu: "Sei que vou ter comentários que não têm a ver com o conflito, mas um ataque pessoal, à minha religião e ao meu modo de vida. A guerra motiva as pessoas a cometer atos antissemitas", alerta.
Admitindo que todas as pessoas têm o direito de defender a causa palestiniana, Waldman não aceita porém que haja em Portugal quem compare o estado de Israel ao nazismo, porque isso não "é promoção de paz nem da autodeterminação da Palestina", avisando que, na justa medida em que "os terroristas estão contra o mundo ocidental", o que está a suceder no seu país "também pode acontecer em Portugal", onde deixa uma mensagem aos políticos.
"Os partidos que estão a motivar o antissemitismo, deviam ser avisados para que as pessoas que vão às manifestações não cometam atos antissemitas, como `grafitti` por toda a cidade", apelou.
A vigília foi encerrada pela canção "Hallelujah", de Leonard Cohen, em que foram avistados parlamentares do Chega e do PSD, e, segundo a Embaixada de Israel, de representantes dos Estados Unidos, Alemanha, Argentina, Luxemburgo, Estónia, Chile e Panamá.