Voz do Operário quer angariar 500 mil euros e espera colaboração do Ministério da Educação

Lisboa, 13 Fev (Lusa) - A Voz do Operário, que hoje iniciou as comemorações dos seus 125 anos de actividade, pretende angariar 500 mil euros para investir em novos projectos e espera que o Ministério da Educação colabore no futuro da instituição.

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Em declarações à agência Lusa, após a sessão que hoje assinalou o arranque das celebrações, António Modesto Navarro, presidente da direcção da Voz do Operário, afirmou estar "confiante numa mudança de atitude" da tutela da Educação, cuja ministra "nem uma linha escreveu" a responder ao convite da instituição para que integrasse a comissão de honra do aniversário, presidida pelo Chefe de Estado, Cavaco Silva.

"Apesar de termos dirigido à senhora ministra três cartas desde o início do ano, não obtivemos qualquer resposta", lamentou o responsável, que diz aguardar, a todo o momento, "pelo fim da injustiça" que foi a suspensão dos apoios que o Ministério da Educação dava à Voz do Operário para o auxílio a famílias carenciadas.

Os apoios foram suspensos em 2003, causando, de então para cá, "um prejuízo de oitocentos mil euros" à associação, afirmou Modesto Navarro, acrescentando que 72 por cento das crianças que ali estudam pertencem a famílias carenciadas.

Modesto Navarro reconheceu que a falta de apoios "pode colocar em causa, dentro de meses, algumas das actividades" que A Voz do Operário desenvolve nos sectores educativo, cultural, social e desportivo.

Se a organização conseguir os 500 mil euros através da campanha de solidariedade que lançou, a verba já tem destino, nomeadamente "a remodelação e ampliação da creche e do jardim-de-infância da instituição".

Outro dos objectivos da Voz do Operário é a construção de um elevador que sirva o seu salão de festas, tendo sido hoje assinado um protocolo nesse sentido com a Câmara Municipal de Lisboa, que assumirá também os custos das obras nos acessos ao ascensor, que se destina sobretudo aos mais velhos com dificuldades de mobilidade.

Na sessão de hoje, em Lisboa, estiveram presentes, entre outras figuras, o secretário de Estado da Segurança Social, Pedro Marques, o presidente da Câmara de Lisboa, António Costa, a governadora civil da capital, Dalila Araújo Teixeira, e o presidente da Assembleia da República, Jaime Gama, que no discurso de encerramento destacou o trabalho realizado pela Voz do Operário nos seus 125 anos de existência e assinalou o papel da instituição na resistência à ditadura.

Também presentes na sessão estiveram figuras como a ex-primeira-dama Maria Barroso, o historiador João Arsénio Nunes ou Emílio Rui Vilar, presidente da Fundação Calouste Gulbenkian, entidade homenageada pelo apoio que tem prestado à Voz do Operário no financiamento da remodelação de espaços.

As comemorações prosseguem sábado, às 20:00, com um jantar de solidariedade e convívio musical onde a vida da Voz do Operário será representada por vários alunos das escolas da instituição.

A Voz do Operário tem raízes nas lutas por melhores condições de vida e de trabalho na segunda metade do século XIX e começou com um jornal homónimo, criado por um grupo de operários da indústria tabaqueira em 1879.

Custódio Braz Pacheco, figura destacada das organizações laborais e impulsionador do movimento associativo, foi um dos dinamizadores do jornal, que seria suspenso devido a dificuldades financeiras em Junho de 1883, ano em que os tabaqueiros decidiram fundar a Sociedade Cooperativa A Voz do Operário, para a qual cada um contribuía com uma quota semanal de vinte réis para manter a publicação do periódico.

Com a implantação da República, em 1910, a Sociedade Cooperativa progride e vai acentuando a sua acção mutualista a par da instrução e educação, o que permite, dois anos depois, dar início à construção da sede da Voz do Operário, que seria inaugurada em 1932 e continua no mesmo local.

Na década de 30, a sociedade atinge um número recorde de 70 mil sócios e ao longo das duas décadas seguintes vai consolidando o seu papel como instituição de ensino, chegando as suas escolas a ser frequentadas por cerca de cinco mil alunos.

Disponibilizando a vertente de ensino profissional e cursos livres de acesso universitário, A Voz do Operário vai reunindo uma vasta biblioteca - fruto de legados culturais à instituição - e cria serviços médicos de várias especialidades, incluindo um consultório dentário.

Com o 25 de Abril de 1974, a instituição ganha um novo alento, surgindo então o centro de convívio para a terceira idade, a creche e o jardim-de-infância, enquanto os anfiteatros e a sala de espectáculos se tornam palco de reuniões culturais e artísticas, característica que se mantém até hoje.

Presentemente, A Voz do Operário dispõe ainda de um posto médico e de um balneário público, mantendo as actividades na creche, no jardim-de-infância, no centro de convívio graças a um protocolo com o Ministério do Trabalho e da Solidariedade Social, que apoia igualmente o auxílio domiciliário a idosos e acamados prestado pela instituição.

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