WazePT Location pode colmatar falhas do SIRESP. Voluntários criam plataforma de localização para operacionais

WazePT Location pode colmatar falhas do SIRESP. Voluntários criam plataforma de localização para operacionais

A ferramenta desenvolvida por dois membros da comunidade Waze Portugal já está a ser utilizada informalmente por forças de segurança e Proteção Civil. Os criadores deste projeto voluntário defendem que a "WazePT Location" permite localizar, partilhar coordenadas, medir áreas e pedir apoio no terreno de forma mais rápida e eficaz que os atuais rádios do Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança de Portugal.

Carla Quirino - RTP / Adicionar como fonte informativa
Carla Quirino - RTP

Dois voluntários ligados à comunidade portuguesa da Waze desenvolveram uma plataforma de geolocalização destinada a profissionais que trabalham no terreno, desde bombeiros e forças de segurança a equipas de proteção civil, emergência ou até mesmo jornalistas. 

Denominada "WazePT Location", o conceito da ferramenta nasceu da experiência prática de um dos coautores da webApp e da identificação de necessidades de operacionais no terreno. Esta plataforma procura complementar funcionalidades que, segundo os utilizadores, não são asseguradas pelo Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança de Portugal (SIRESP).

A webApp, destacada recentemente pela revista Forbes Portugal, foi criada por António Antunes, jornalista/repórter de imagem da RTP, e por Jonathan Serrario, engenheiro informático responsável pelo desenvolvimento da arquitetura técnica da plataforma, ambos voluntários da comunidade Waze Portugal.
Jonathan Serrario, coautor da WazePT Location, responsável pela criação do código fonte da ferramenta | Foto: António Antunes

Os criadores defendem que esta ferramenta "é util" para todas as profissões que andem no exterior e que "necessitem de saber onde é que estão, qual é a distância entre pontos, como mandam para lá alguém, etc., seja em situação de salvamento ou outra razão". Ou seja, as muitas funcionalidades de análise e partilha de dados estão reúnidas numa só webApp. 
Uma ideia nascida durante uma reportagem
A génese do projeto voluntário remonta à última Páscoa, durante uma reportagem realizada por António Antunes numa operação de fiscalização rodoviária.

No decorrer da cobertura, um oficial da GNR, sabendo que o reportér estava ligado à comunidade Waze, abordou-o falando-lhe de uma necessidade concreta ligada à operacionalidade no terreno: haver uma plataforma que conseguisse identificar rapidamente o ponto quilométrico (PK) de uma estrada e comunicar essa informação, de forma imediata, às equipas no terreno. 

"Fiquei a pensar no assunto e fomos desenvolvendo", recorda o jornalista. Assim, o que começou por ser uma ferramenta para localizar pontos quilométricos evoluiu para uma plataforma com múltiplas funcionalidades dirigidas aos profissionais que trabalham longe de uma secretária, explica à RTP.
 
Segundo António Antunes, a profissão de repórter teve um papel fundamental na criação da WazePT Location.

"O jornalismo é uma espécie de enciclopédia em que aprendemos algo novo todos os dias. Se não fosse repórter da RTP nunca teria contacto com os mais diversos tipos de profissionais nos diferentes ramos", aponta. 

Através desses contactos, o coautor do projeto foi recolhendo contributos de bombeiros, elementos da GNR, proteção civil e outros operacionais para perceber quais eram as maiores dificuldades enfrentadas no terreno. 
O que faz a WazePT Location?
A plataforma funciona através de uma página web que pode ser utilizada em dispositivos móveis. 

Com recurso ao GPS do telemóvel e a ligação à cartografia da Infraestruturas de Portugal (IP), esta ferramenta permite identificar a localização exata do utilizador, fornecendo informações como distrito, concelho, freguesia, rua ou ponto quilométrico de uma estrada, explica António Antunes.

Além da localização, a WazePT Location disponibiliza várias funcionalidades destinadas a operações no terreno:

  • Identificação automática de coordenadas em diferentes formatos; por exemplo em situação de catástrofe;
  • Partilha rápida de localizações via dados móveis ou SMS (quando a internet falha);
  • Medição de áreas e distâncias, por exemplo, muito útil para os bombeiros medirem áreas de incêndio ou frentes de fogo;

Menu da WazePT Location para marcação e medição de área e perímetro, com exemplo pronto a ser partilhado, caso fosse um cenário de incêndio | António Antunes

  • Marcação de pontos de interesse; por exemplo, para uma investigação da judiciária;
  • Navegação por bússola até locais sem acesso por estrada; por exemplo, uma equipa médica localizar alguém que esteja no meio de uma multidão e precise que a emergência chegue rápido;
  • Funcionamento parcial em modo offline.

À RTP, Jonathan Serrario argumenta que o sistema da WazePT Location cruza informação geográfica de diferentes fontes e consegue apresentar resultados praticamente em tempo real.

"Muitas das vezes nem chega a um segundo para obter toda esta informação e enviá-la" e ao mesmo tempo apresenta uma rota com precisão, "tudo para acelerar a emergência
", sublinha. "Isto é que é uma grande habilidade informática" exalta o engenheiro informático. 
"Não queremos substituir o SIRESP"
Os responsáveis do projeto voluntário rejeitam qualquer intenção de substituir os sistemas oficiais de emergência. O objetivo, afirmam, é complementar as suas capacidades, clarifica António Antunes. 

"Não queremos substituir o SIRESP. Queremos fazer aquilo que o SIRESP não tem", explica o coautor. 

Uma das críticas apontadas ao Sistema atual é a dificuldade em trabalhar e partilhar coordenadas geográficas de forma rápida, sobretudo "quando a informação tem de ser comunicada verbalmente ou copiada manualmente", sublinha o repórter, que já presenciou inumeras vezes quando anda em reportagem, por exemplo, na cobertura dos incêndios.

WazePT Location: menu com localização de coordenadas precisas e detalhes dos pontos quilométricos, concessão, freguesia, etc | António Antunes

Essa perceção é corroborada por um operacional de segurança que já utiliza a ferramenta e que pediu anonimato durante a entrevista à RTP. O profissional refere que os rádios SIRESP são limitados em termos de partilha de localização.

"Só nos dá coordenadas geográficas em números. Não nos permite copiar, não nos permite mandar, não nos permite verificar outra coisa que não sejam números. E para copiar esses dados temos que os escrever para um papel para depois os transmitir", descreve.

Porém, já esta WazePT Location, de acordo com o mesmo operacional, "permite obter e partilhar informação mais detalhada, incluindo rua, concelho, distrito e diferentes formatos de coordenadas, recorrendo simplesmente ao telemóvel pessoal", acrescenta. 
Utilização já se espalha entre operacionais
Apesar de não ter havido uma apresentação formal, a plataforma já circula informalmente entre grupos de profissionais de diversas áreas. Um operacional entrevistado para esta reportagem afirma que, na sua unidade, "cerca de 40 dos 50 elementos já utilizam a ferramenta regularmente". 

A facilidade de utilização é apontada como uma das principais mais-valias.

"É muito mais fácil partilharmos a localização de uma aplicação do que estar a comunicar pelo rádio", refere o utilizador. Além disso, destaca o facto de "cada operacional já possuir um telemóvel, ao contrário dos rádios SIRESP, que nem sempre existem em número suficiente para todas as equipas".
Serviço público feito por voluntários
Tanto António Antunes como Jonathan Serrario sublinham que o projeto foi desenvolvido em regime de voluntariado e sem financiamento institucional. 

O nome "WazePT Location" resulta da ligação dos autores à comunidade portuguesa da Waze e não representa qualquer produto oficial da empresa norte-americana.

"O nome do projeto vem da equipa de voluntários WazePT Location. Não pertence à Waze", esclarece António Antunes.

Para o jornalista, a motivação principal permanece inalterada.

"Nada é mais gratificante do que ajudar as nossas entidades com ferramentas inovadoras que as ajudem na sua missão". E acrescenta: "Mais do que inovar na tecnologia, o nosso verdadeiro propósito é estarmos ao lado de quem protege, socorre e serve o país todos os dias". 
Menu SOS para envio de localização para ser acionado o socorro | António Antunes
Próximo passo: uma aplicação móvel
Depois do período experimental, os criadores admitem avançar para uma aplicação nativa para Android e iOS. A nova versão poderá incluir funcionalidades adicionais que não são possíveis numa plataforma exclusivamente web. 

O acesso deixará, nesse cenário, de ser totalmente gratuito, embora os responsáveis garantam que o custo será reduzido para garantir a sua acessibilidade aos utilizadores. 

Até lá, a dupla continua a recolher sugestões dos profissionais que utilizam diariamente a ferramenta. Porque, como resume Jonathan, o projeto está longe de terminado, bem pelo contrário, estará sempre em construção.

"O desafio é sempre conseguir ultrapassar o impossível", concluem os coautores.
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