"A fibra de que é feita a esquerda". Catarina Martins abre Convenção do Bloco ao ataque

No discurso de abertura da XII Convenção Nacional do Bloco de Esquerda, este sábado, Catarina Martins desenhou o percurso do partido desde a sua última convenção, há mais de dois anos. Dando destaque à "fibra de que é feita a esquerda" e às lutas do BE, que continuam as mesmas - passando pelos direitos dos trabalhadores, pelo reforço do SNS e pelo combate às alterações climáticas -, a líder bloquista lembrou os "processos definidores" dos últimos anos, desde as eleições de 2019 à pandemia do ano passado.

Joana Raposo Santos - RTP /
"Compromisso com quem sofre, solidariedade com quem luta. É desta fibra que é feita a esquerda que não deixa ninguém para trás", destacou a líder bloquista. Manuel Fernando Araújo - Lusa

Catarina Martins usou o seu discurso para “prestar contas” do que o partido tem caminhado desde a última convenção do Bloco, em novembro de 2018, momento a partir do qual o partido e o país estiveram confrontados com “dois grandes processos definidores: as eleições de 2019 e a pandemia de 2020 e 2021”.

Começando pela crise pandémica, a líder relembrou que, “quando a pandemia começou, e a ciência só sabia que o vírus era altamente contagioso, havia apenas uma medida a tomar: o confinamento, que implicou a restrição do direito constitucional de nos deslocarmos”.

“Aprovámo-lo e voltaríamos a aprovar sem a menor hesitação. Não estava em causa nada mais importante do que salvar vidas. Por isso, não aceitamos a posição de quem ainda hoje nos diz que bastaria o confinamento de 19 de março a 2 de abril de 2020 e que, a partir de então, a esquerda o deveria ter recusado durante todo o ano seguinte”, apontou Catarina Martins.

“Percebo que haja setores da direita para quem vale mais um euro de lucro do que uma pessoa contaminada, mas a esquerda é de outra fibra e não troca vidas por negócios. Havia uma emergência e foi preciso atuar”, frisou.

Por essa razão, disse, também nesta convenção do Bloco estão a ser adotadas medidas de segurança. “Não há aqui nada que se pareça com o congresso do partido da extrema-direita, onde os campeões negacionistas festejaram a sua irresponsabilidade e a sua arrogância”.

Mas a luta do Bloco de Esquerda no que toca à pandemia ainda não terminou. “Exigimos mais profissionais de saúde, mais testes, mais vacinas, mais medidas preventivas, mais proteção do salário e do emprego; exigimos que os trabalhadores informais, as domésticas, os estafetas, os da cultura, os migrantes, que todas estas pessoas que estão desprotegidas passassem a ser abrangidas por apoios sociais capazes, e lutámos por esses direitos com ainda mais insistência, precisamente porque a pandemia faz vítimas sociais”, esclareceu a bloquista.

Destacando a questão dos direitos dos trabalhadores e relembrando que esta é a primeira Convenção Nacional do Bloco de Esquerda no distrito do Porto, Catarina Martins lançou uma palavra de apoio aos trabalhadores da refinaria da Galp em Matosinhos, “ameaçados por despedimento por uma empresa que, só no primeiro trimestre deste ano, teve 26 milhões de euros de lucro”.

“O mote desta convenção é Justiça na Resposta à Crise, e daqui repetimos a exigência de justiça neste tempo tão difícil. Quem tem lucros não pode despedir e não aceitamos o falso pretexto da transição energética para o despedimento de trabalhadores”, sublinhou. Para a líder partidária, “a resposta às crises”, da pandémica à climática, reclama mais e melhor emprego. “É também por isso que aqui estamos”.
“É desta fibra que é feita a esquerda”
O percurso do BE nos últimos anos passou, também, pelas eleições legislativas de 2015, tema que não ficou de fora no discurso de Catarina Martins. “Foi sempre uma grande maioria do Bloco que tomou e manteve a decisão de afastar a direita do poder e cumprir o acordo para reverter o assalto aos salários e às pensões”, frisou.

“Quando olhamos para trás, sabemos o que essa viragem representou para o nosso povo. Não nos arrependemos de nenhuma dessas decisões”, assegurou a coordenadora do partido, apesar de relembrar que, nas eleições de 2019, o Partido Socialista “fez uma escolha reveladora: o objetivo da sua campanha foi exigir uma maioria absoluta e combater a esquerda”.

Para a dirigente, “foi com a força da esquerda que o PS cedeu e que o povo começou a recuperar a sua vida” mas, ainda assim, “a recusa do PS em aceitar um compromisso de medidas sociais para os quatro anos seguintes mudou os dados da política”.

Apesar disso, o Bloco nunca desistiu. “Do que não abdicamos é de conseguir já as medidas que são urgentes para o nosso povo. Não deixamos para amanhã que a contribuição solidária para os idosos pobres não dependa da informação bancária dos filhos; não deixamos para depois de amanhã que quem é explorado nas plataformas tenha direito a um contrato de trabalho, ou quem está a recibos verdes tenha Segurança Social, ou que os serviços públicos cuidem de toda a gente com todo o cuidado que a gente merece”, garantiu Catarina Martins.

“Compromisso com quem sofre, solidariedade com quem luta. É desta fibra que é feita a esquerda que não deixa ninguém para trás”.
OE2021, Novo Banco e compromissos que o Governo deixou por cumprir
A luta bloquista tem também passado pelo Orçamento do Estado e pelo Novo Banco, relembrou Catarina Martins no seu discurso, referindo que o Bloco conseguiu alcançar bons acordos a nível económico mas que estes não foram cumpridos.

“Nas discussões com o Governo ao longo do ano passado, conseguimos bons compromissos para o Serviço Nacional de Saúde, mas não foram cumpridos; conseguimos compromissos para os trabalhadores informais, que não foram cumpridos; conseguimos compromissos para as cuidadoras informais que não foram cumpridos. E a responsabilidade é de quem não cumpriu”, apontou.

“Por tudo isto, quando chegámos ao Orçamento [do Estado] para 2021, pusemos em cima da mesa quatro garantias de medidas estruturais: carreiras profissionais para o SNS; fim do abuso no Novo Banco; acabar com as leis laborais da Troika, e uma política social de combate à pobreza na pandemia que não deixasse ninguém de fora”.

Sem as garantias necessárias, o Bloco de Esquerda votou contra esse Orçamento.

Sobre o Novo Banco, “o Tribunal de Contas demonstrou agora que o Bloco tinha razão: a administração do banco cobra o que não pode cobrar e todos os pagamentos são dinheiro dos contribuintes”, afirmou a dirigente.

Estamos a ser assaltados enquanto desfilam os depoimentos dos figurões que espatifaram centenas de milhões de euros e que acham que nunca têm de os pagar, confirmando o que o Bloco tem sempre dito: a desigualdade e o privilégio são formas de pilhagem. Desgraçado do nosso país se não tiver quem faça frente a estes irresponsáveis”.

“Este foi o caminho desde a última convenção. Olhemos agora para o futuro e para o tanto por fazer”, terminou Catarina Martins, alertando que “vivemos dias de urgência”.

Sob o lema "Justiça na resposta à crise", os trabalhos da XII Convenção Nacional do BE, que decorre até domingo em Matosinhos, arrancaram na manhã deste sábado, com metade dos delegados eleitos devido à pandemia.
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