A transparência política dos Coletes Amarelos em Portugal

Na rede desde meados do mês passado, o movimento dos Coletes Amarelos em Portugal espera levar milhares para a rua nesta sexta-feira. A reboque do movimento dos Gilets Jaunes em França, os coletes amarelos querem que seja dado um sinal aos governantes de que Portugal atingiu um ponto de insuportável de degradação económica para certos sectores da sociedade. Ao contrário das manifestações francesas, os organizadores esperam, no entanto, uma atitude pacífica dos portugueses. Por clarificar está ainda a verdadeira cor política do movimento, a quem muitos apontam a simpatia pela extrema-direita.

Paulo Alexandre Amaral - RTP /
Christian Hartmann, Reuters

Desde há um mês a alimentar a rede com apelos e manifestos de intenções, os Coletes Amarelos em Portugal têm mais do que uma página só no Facebook, o que tornará difícil até para os organizadores originais o controle das facções políticas que vierem a colonizar, ou que já colonizaram, os dinamismos desta sexta-feira.

Aparentemente preocupados com as conotações com a extrema-direita, as várias páginas têm procurado colocar de lado o vínculo a qualquer simpatia política, como é sempre referido, “de extrema-direita ou de extrema-esquerda”.

O veredicto está, no entanto, a ser lavrado com base na leitura dos textos publicados, e também assim dos comentários e dos “amigos” que se associam às páginas, uma hermenêutica política das comunicações do movimento. O cariz populista das reivindicações denuncia desde logo essa tendência típica da extrema-direita, nomeadamente o ataque à classe política e às subvenções dos “representantes do povo”.
A carestia da vida

Uma das publicações refere que os Coletes Amarelos são “um grupo apolítico, um movimento social de protesto contra a carestia do nosso modo de vida” e apresenta como caderno reivindicativo “menos impostos sobre os bens de consumo; abolir a PPP sobre a ponte 25 de abril, que já está paga; abolir portagens e respetivas PPP associadas, diminuição do número de deputados eleitos na AR para 180, reforma mínima de 80% do salário mínimo nacional, fim dos manuais escolares e uso de plataformas educativas, redução do horário escolar e redução do número de disciplinas, abolição da dupla tributação automóvel”.

Mas há mais. Numa tentativa de arrebanhar todos os sectores socio-económicos que seja possível, pede-se também a redução de taxas e impostos, bem como a concessão de incentivos fiscais para o tecido empresarial de base. E, claro, para não se distanciarem demasiado do movimento original dos Gilets Jaunes, que tanto sucesso parece estar a ter, o corte nos impostos sobre os combustíveis e electricidade, dos mais caros na Europa da União.

A retórica a que deita mão o Movimento dos Coletes amarelos assenta em dois princípios básicos: a vida está insuportavelmente cara para os portugueses quando existe uma classe que mantém todos os privilégios (a classe política); Portugal continua a ficar para trás quando os portugueses, dos europeus com os rendimentos mais baixos, são aqueles que têm de pagar mais pelos bens essenciais.

O apelo baseado nestes princípios procura levar os manifestantes à rua e entupir locais-chave de grande visibilidade para deixar claro que “já chega”, por um lado, e “acordar a população” que vive acomodada às suas dificuldades.
Mira apontada ao Parlamento

O Parlamento é por norma um alvo fácil em momentos de crise, apesar de não o ser pelas razões certas – a sua capacidade ou incapacidade de implementar políticas que sirvam a população em geral e não sectores parciais da sociedade e da economia. Por norma, são os representantes do povo, enquanto tal, que são apontados em momentos de descontentamento e a estratégia dos Coletes Amarelos não está a ser diferente.

Propugnando um aumento no rendimento dos portugueses (salário mínimo nos 700 euros e pensão mínima nos 500), o meio de viabilizar estas medidas é o habitualmente proposto pelos grupos que assentam em políticas populistas: cortar nos que ganham mais, visando entre estes a classe dos políticos.

Fim das subvenções vitalícias dos deputados e políticos em geral, corte para metade do número de deputados na Assembleia da República e, a reboque da polémica que está mais fresca na memória dos portugueses, promover investigações exaustivas das moradas dos políticos, para impedir o usufruto de subsídios indevidos.
Há o cravo e há a guilhotina

Entretanto, Marcelo Rebelo de Sousa já veio deixar um apelo aos organizadores para que promovam um passeio pacífico nesta sexta-feira. O Presidente da República lembra que vamos entrar em ano de eleições, o que abre uma oportunidade para manifestar o descontentamento, a havê-lo.

O Presidente manifesta, entretanto, confiança no temperamento dos portugueses, referindo que “a situação em Portugal é diferente da situação em França”.

“[A França] teve sempre revoluções sangrentas. Portugal teve uma Revolução dos Cravos. Portanto, em Portugal, sabemos compreender que as razões de queixa e indignação e protesto devem ser expressas pacificamente”, sublinhou Marcelo, deixando que “uma coisa é a manifestação pacífica, que é timbre de Portugal, outra coisa é a violência que assistimos noutros países”.

A mesma confiança na temperança dos portugueses foi deixada pelo ministro da Administração Interna que, relativamente ao tema, disse confiar que “a boa tradição portuguesa se mantenha, liberdade de manifestação e respeito por aquilo que é a afirmação dos princípios fundamentais do Estado de direito”.
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