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Bava nega contactos com Governo para comprar TVI

O presidente da Comissão Executiva da PT assegurou esta quarta-feira, no Parlamento, que não falou com o Governo sobre o negócio para a compra da TVI. Diante da Comissão de Ética, Zeinal Bava afirmou ainda que tencionava manter José Eduardo Moniz na estrutura da Media Capital e garantiu desconhecer a existência de um plano de controlo da comunicação social.

RTP /
Zeinal Bava foi ouvido no âmbito das audições parlamentares sobre o "exercício da liberdade de expressão em Portugal" Tiago Petinga, Lusa

O negócio para a compra, pela Portugal Telecom, de uma participação de 35 por cento na Media Capital, detentora da TVI, caiu por terra quando já se encontrava numa fase avançada. E foi a "mediatização do caso" que inviabilizou a operação. É esta a explicação avançada por Zeinal Bava para o desfecho dos contactos "entre duas empresas estratégicas". O negócio, insistiu o presidente da Comissão Executiva da PT perante a Comissão de Ética do Parlamento, "fazia todo o sentido estratégico".

"O que decidimos é que não era oportuno agendar o negócio, porque se considerou que a mediatização do caso chegou a um limite tal que não havia condições para se poder fazer uma transacção entre duas empresas estratégicas que fazia todo o sentido estratégico e que era um bom negócio para ambas as partes, porque a mediatização do negócio chegou a um limite tal que nós não podíamos simplesmente ignorar e fazer a coisa certa para a empresa", vincou Zeinal Bava, para quem a "coisa certa para a empresa" seria "concluir a transacção": "Não tenho dúvidas em relação a isso. Se hoje pudesse fazer a transacção e pudesse voltar atrás no tempo, faria exactamente como nós fizemos há oito ou nove meses atrás. Afirmo isso sem nenhum tipo de reserva".

Perante os deputados, Zeinal Bava garantiu que não manteve quaisquer contactos com o Executivo de José Sócrates sobre o negócio, ressalvando que a sua "tutela é o Conselho de Administração" da Portugal Telecom.

"Eu não falei com o Governo sobre esta transacção, porque a minha tutela é o Conselho de Administração. Por isso, se eu nem sequer levei o tema ao Conselho de Administração, nunca poderia ter falado com o Governo, até porque as relações com o Governo não passam por mim como presidente da Comissão Executiva", sublinhou.

Rui Pedro Soares "estava à mão"

Durante a audição, o presidente da Comissão Executiva da PT procurou também clarificar o envolvimento de Rui Pedro Soares nas negociações com a Media Capital. Segundo Bava, o administrador participou nas primeiras conversações entre as empresas, a 19 de Junho, porque "era a pessoa que estava à mão".

"O doutor Rui Pedro Soares participou comigo numa reunião porque estava disponível e eu disse-lhe para vir comigo", revelou Zeinal Bava, acrescentando que o administrador foi convidado a participar no encontro porque estavam em discussão pontos relacionados com a Internet e a publicidade. "Como Rui Pedro Soares estava presente, manteve-se no grupo negocial", justificou.

Zeinal Bava falou ainda do processo que levou à saída dos dois administradores executivos envolvidos no processo Face Oculta. As demissões de Rui Pedro Soares e de Fernando Soares Carneiro, frisou, resultaram de "uma decisão voluntária deles" que mereceu o "aplauso" da cúpula da empresa de telecomunicações.

"Achamos que eles têm o direito de tomar as posições que considerem importantes para eles a título pessoal, do ponto de vista legal. O facto de serem administradores da PT não deve, com certeza, limitar o direito que eles têm à defesa do seu bom bome e dos seus interesses pessoais. Agora, eles também entenderam que, sendo administradores da PT, isso tirava alguma flexibilidade para fazerem tudo aquilo que achavam correcto. Então demitiram-se e nós, de facto, louvamos a dignidade do acto", afirmou Bava.

Bava queria Moniz na Media Capital

Os planos da PT para a Media Capital passavam, de acordo com o presidente da Comissão Executiva, pela nomeação de "três administradores em nove": "Não íamos nomear o presidente do Conselho de Administração, íamos ter um elemento na Comissão Executiva com o pelouro financeiro".

Por outro lado, Zeinal Bava disse que à data do negócio estava a contar com a manutenção de José Eduardo Moniz na estrutura da Media Capital. E adiantou ter apresentado as suas ideias ao então director-geral da estação de Queluz de Baixo durante uma conversa num hotel da capital. "Nunca lhe apresentei nenhum contrato, mas disse-lhe: quero que trabalhes comigo, mas que fiques na Media Capital".

Moniz "reservou a sua posição sobre o assunto, mas manifestou algumas reservas", prosseguiu o responsável pela Comissão Executiva da PT. Bava explicou que pretendia "aproveitar o know-how" do actual administrador da Ongoing "para melhorar os conteúdos do Meo".

José Eduardo Moniz foi ouvido na terça-feira pela Comissão de Ética, Sociedade e Cultura. O antigo director-geral da TVI disse aos deputados não ter "a mínima dúvida da influência do Governo sobre a Media Capital e da capacidade de intervenção sobre os seus administradores", considerando "óbvio" que José Sócrates "não podia deixar de saber" das negociações para a compra da estação.

Zeinal Bava desconhece plano para controlo dos média

Na sua audição em sede de Comissão de Ética, José Eduardo Moniz mostrou-se convicto de que existiu um projecto com a chancela do Governo para "condicionar a actuação de alguns meios de informação e condicionar alguns empresários e alguns jornalistas". Zeinal Bava garante desconhecer o alegado plano.

"Não sei o que é nem do que se trata", sustentou o presidente da Comissão Executiva da PT. "Para que fique claro, a PT só mostrou interesse numa participação minoritária na Media Capital. Nunca a PT mostrou qualquer interesse em relação a qualquer outro investimento em qualquer outro órgão de comunicação social", salientou Bava, que fez questão de recordar o facto de a Portugal Telecom ter alienado a Lusomundo Média, detentora de publicações da imprensa escrita.

O responsável confessou ter ficado supreendido com as reacções ao negócio para a compra da TVI, trazendo à liça o momento em que a Portugal Telecom se mostrou interessada no quinto canal - uma operação que daria à empresa um controlo a 100 por cento dos conteúdos editoriais. "Nessa altura", lembrou, ninguém ficou preocupado".

"Enquadramento político complicado"

Ainda segundo Zeinal Bava, o presidente da PT, Henrique Granadeiro, foi informado da "possível transacção" a 21 de Junho, dois dias depois de ter sido alinhavado um primeiro esboço do negócio. "O doutor Henrique Granadeiro, que tem uma larga experiência política, chamou-me a atenção de que o enquadramento político era capaz de ser complicado, mas não me preocupei demasiado com isso", adiantou.

No dia 23 de Junho, continuou Bava, "houve uma fuga de informação" e a PT respondeu com "um comunicado à CMVM [Comissão de Mercado de Valores Mobiliários]" em que dizia estar "a analisar vários cenários com a Media Capital", faltando então um acordo. "Depois houve uma série de precipitações que nos levou a concluir que não era oportuno chegar a esta compra", rematou.

Na terça-feira, perante os deputados da Comissão de Ética, Henrique Granadeiro afirmara que "nunca o primeiro-ministro ou alguém" do Executivo lhe havia proposto ou pedido a aquisição de uma participação na Media Capital. O presidente da Portugal Telecom afirmou ainda ter "a certeza absoluta" de que "a primeira e única vez" que falou com José Sócrates sobre o negócio "foi no dia 25 de Junho à noite durante um jantar" - um dia depois de o primeiro-ministro ter dito no Parlamento que desconhecia os contactos para a compra da TVI.

Acusações de instrumentalização são "insulto"

O deputado do Bloco de Esquerda João Semedo pediu a Zeinal Bava que explicasse as razões que levaram a PT a abster-se de entrar no capital da TVI após as eleições legislativas de 27 de Setembro, ou a não mostrar interesse em comprar capital da SIC. A televisão, retorquiu Bava, "vai ser central a tudo aquilo que a PT fizer no futuro".

"Nós estamos e vamos estar nesse negócio nos próximos 100 anos", afirmou, acrescentando que a estratégia pode passar pela aquisição de participações ou mesmo pela produção própria de conteúdos.

Zeinal Bava sublinhou, por fim, que a eventual "crispação" do primeiro-ministro com a comunicação social "não interessa para nada" à estratégia da Portugal Telecom: "Os investimentos na PT são a longo prazo. É uma indústria que tem que olhar para prazos de mais de quatro ou cinco anos, não é a conjuntura que determina as decisões. Se naquele momento havia uma crispação, isso não interessa nada".

"Qualquer insinuação de que a PT é instrumentalizada é um insulto para quem lá trabalha e para os seus reformados", vincou.

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