Bofetadas, desacordo e "bullying": a internet e as demissões no Governo de Costa

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Cento e quarenta dias depois da tomada de posse, concretizam-se esta quinta-feira as três mudanças no elenco de António Costa. As primeiras substituições são bem mais rápidas do que no Executivo de Passos e ocorrem depois de uma semana difícil para o primeiro-ministro. As polémicas na Cultura, na Educação e na Defesa apresentam um traço comum: surgem ou são depois transportadas para o mundo digital. Em especial no Facebook, onde as palavras não são suaves: “profundo desacordo”, “bofetadas” e até “bullying político”.

Pouco mais de um mês depois, Marcelo estreia-se na missão de dar posse a ministros. Esta quinta-feira, empossará o novo ministro da Cultura e dois novos secretários de Estado. Apesar de ser a estreia do Presidente, é sobre o elenco governativa que recaem os olhares.

O primeiro Executivo de António Costa vive 140 dias antes da primeira remodelação governamental. Ocorre na Cultura, onde cai um ministro e um secretário de Estado. Ocorre na Educação, onde sai um secretário de Estado “em profundo desacordo” com o “modo de estar” e as políticas seguidas pelo ministro.

“Perdemos um ministro, perdemos um secretário de Estado. Ganhámos um Orçamento, um Orçamento muito importante para o país e para os portugueses. Temos todas essas situações resolvidas”, assegura o responsável pela coordenação política do Governo à Antena 1.

Na rádio pública, Pedro Nuno Santos deixa a garantia: “Se há alguma coisa que caracteriza este Governo é a rapidez com que resolve situações que carecem de resolução”.


Efetivamente, as mudanças apresentam-se mais rápidas neste Executivo do que no primeiro Governo de Pedro Passos Coelho. Na altura, 266 dias separaram a tomada de posse do elenco e a saída do secretário de Estado da Energia, Henrique Gomes. Para mudar a cabeça de um ministério foram precisos quase dois anos: 662 dias separam a entrada de Miguel Relvas e a chegada dos seus dois substitutos – Poiares Maduro e Marques Guedes.

Apesar da maior rapidez, a saída de João Soares não bate recordes. No Executivo de Santana Lopes, bastaram oito dias para que Henrique Chaves assumisse as funções de ministro da Juventude, Desporto e Reabilitação e as abandonasse. Em 1996, Murteira Nabo, ministro de António Guterres, deixa o Ministério do Equipamento Social 19 dias depois da tomada de posse.

No segundo Governo de Passos, as mudanças não chegaram a ocorrer. O Executivo acabou derrubado no Parlamento apenas 11 depois da tomada de posse, tornando-se no Governo mais curto da história da democracia portuguesa.
"Salutares bofetadas"
No primeiro Executivo de Passos, a saída de Miguel Relvas dá-se depois de um longo desfiar de casos e críticas. O ministro dos Assuntos Parlamentares sai antes de Nuno Crato enviar o processo da sua licenciatura para investigação. A saída de João Soares acontece por razões bem distintas.

O responsável pela Cultura abandona a função depois de prometer “salutares bofetadas” a dois cronistas do jornal Público nas redes sociais. A saída concretiza-se depois de António Costa pedir desculpa aos cronistas, algo que o próprio Soares não fizera.

“Demito-me também por razões que têm a ver com o meu respeito pelos valores da liberdade. Não aceito prescindir do direito à expressão da opinião e palavra”, justifica o filho do histórico dirigente socialista, também no Facebook.

Para trás ficam mais de cem dias que não ficaram isentos à polémica: em grande plano, o afastamento de António Lamas da presidência do Centro Cultural de Belém.
"Bullying político"
Na Educação, é um secretário de Estado que poucos conheciam que abandona o cargo, mas é o ministro quem não fica bem na fotografia. Tiago Brandão Rodrigues era já alvo de críticas por algumas das mudanças que tem provocado no ministério. No centro, as mudanças na avaliação num ano letivo que já ia quase a meio.

A justificação que João Wengorovius Meneses apresenta para sair não compõe o quadro. Também no Facebook, o governante mostra-se apoiante do “bom projeto” e da “excelente equipa” de Costa, mas ataca Tiago Brandão Rodrigues.“É tempo de arrumar a trouxa, com o sentimento de que dei tudo à causa pública a que fui chamada, com a máxima lealdade, dedicação e competência, apesar do bullying político constante”.


Sai “em profundo desacordo com o senhor ministro da Educação no que diz respeito à política para a juventude e o desporto e ao modo de estar no exercício de cargos públicos”.

O Diário de Notícias refere que a saída estará ligada "a um crescendo de intervenção do ministro no seu gabinete, nomeadamente através da tentativa de exoneração de uma sua adjunta”.

Na edição desta quinta-feira, o períodico refere ainda que foi atribuído um chefe de gabinete a Wengorovius Menezes que não era do seu agrado, sujeitando-o a “situações de exposição pública que não estava à espera e que muito o contrariaram”. Terá tentado demiti-lo, mas o ministro não aceitou.

Tiago Brandão Rodrigues terá ainda tentado interferir em nomeações que eram da competência de Wengorovius Menezes. Apesar das críticas do ex-secretário de Estado, as palavras mais duras dirigidas ao ministério de Tiago Brandão Rodrigues chegam da adjunta Joana Branco Lopes.

“É tempo de arrumar a trouxa, com o sentimento de que dei tudo à causa pública a que fui chamada, com a máxima lealdade, dedicação e competência, apesar do bullying político constante”. A justificação é apresentada, uma vez mais, no Facebook, revela o Diário de Notícias.
Os militares e a homossexualidade
As confusões na Defesa têm também início no mundo digital. É uma reportagem do jornal Observador que representa o ponto de partida da polémica. O subdiretor do Colégio Militar admite ao site que há uma atitude discriminatória e situação de exclusão dos alunos homossexuais neste meio escolar.

Publicada a notícia, o ministro da Defesa pede explicações. A réplica da tutela ao chefe de Estado-Maior do Exército é vista como uma reprimenda e terá mesmo motivado a demissão do general Carlos Jerónimo. O socialista Pedro Nuno Santos faz uma leitura diferente.

“Se o ministro da Defesa não tivesse feito nenhuma declaração pública nós estaríamos hoje com um problema de natureza diferente. Era porque é que o Governo não tinha dito nada sobre as declarações de um subdiretor de um colégio que tem a tutela política do Ministério”, contextualiza o secretário de Estado.“Se o ministro da Defesa não tivesse feito nenhuma declaração pública nós estaríamos hoje com um problema de natureza diferente. Era porque é que o Governo não tinha dito nada sobre as declarações"

Altas patentes, como o general Ricardo Durão, sugerem mesmo que Azeredo Lopes só tem um caminho a seguir: o da demissão. O cenário não se apresenta, mas o governante terá de explicar o caso na comissão da Defesa, no próximo dia 26 de abril.

Quando Azeredo Lopes se explicar, já as mudanças na Educação e na Cultura estarão concretizadas. A tomada de posse do ministro da Cultura acontece esta quinta-feira, a partir das 15h30, no Palácio de Belém.

Luís Filipe de Castro Mendes assume funções ministeriais no mesmo dia em que Miguel Honrado e João Paulo de Loureiro Rebelo. O primeiro substitui Isabel Botelho Leal, o segundo sucede a Wengorovius Meneses.

São os resultados de uma semana difícil para António Costa, à qual se junta a polémica em torno de Diogo Lacerda Machado, o amigo pessoal do primeiro-ministro que, sem vínculo ao Estado, o tem representado em dossiers essenciais.

Tópicos:

Governo, João Soares, Tiago Brandão Rodrigues, Wengovorius Menezes, demissões, António Costa,

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