Bolseiros de investigação científica pedem audiência a Cavaco Silva

Lisboa, 11 fev (Lusa) - Os bolseiros de investigação científica pediram uma audiência ao Presidente da República, para lhe transmitir preocupação com a "fuga de cérebros", o desemprego e a precariedade do trabalho científico, informou hoje a associação que os representa.

Lusa /

Em declarações à agência Lusa, o vice-presidente da Associação dos Bolseiros de Investigação Científica, João Pedro Ferreira, disse que o pedido seguiu na segunda-feira, justificando a iniciativa com a preocupação com o desemprego e a emigração de investigadores, resultantes do corte de bolsas, e com a precariedade do trabalho científico.

"Queremos dar o nosso ponto de vista", vincou.

Na segunda-feira, o Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, recebeu em audiência o ministro da Educação e Ciência, Nuno Crato, com o tema central a ser "a nova orientação da política de financiamento da ciência", segundo fonte oficial de Belém.

Dias antes, Cavaco Silva defendeu, no final da inauguração das novas instalações da Novartis, em Oeiras, que "Portugal deve continuar a apostar na educação, no conhecimento e na inovação", para que deixe de ser um país "que exporta, acima de tudo, produtos de baixa e média tecnologia" e passe "a exportar, acima de tudo, produtos de média e alta tecnologia".

Na semana passada, o primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, sustentou que, em matéria de ciência e tecnologia, o Governo está gradualmente a "romper com as políticas passadas" baseadas na ideia de que "mais dinheiro público" produz "qualidade" em termos de resultados.

"Temos, portanto, de aprender a medir os resultados e temos de garantir que as bolsas que nós usamos para financiar os doutoramentos, os pós-doutoramentos, a investigação que é feita não corresponde meramente a uma política de recursos humanos de empregar os melhores, mas que possa resultar em ter mais gente do lado das empresas, altamente qualificada, a desenvolver investigação e a fazer a translação de conhecimento que traga valor para essas empresas e para a economia", advogou.

Há cerca de um mês, a comunidade científica saiu à rua, em Lisboa, em protesto, acusando o Governo de desinvestimento na ciência, que o executivo refuta.

Na origem do protesto, que incluiu bolseiros, investigadores e docentes, esteve o corte nas bolsas de doutoramento e pós-doutoramento da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), entidade pública tutelada pelo Ministério da Educação e Ciência.

De acordo com os resultados do concurso de 2013, divulgados em janeiro passado, foram atribuídas menos 900 bolsas individuais de doutoramento e menos 444 bolsas de pós-doutoramento face a 2012.

A secretária de Estado da Ciência, Leonor Parreira, e a FCT justificaram a redução do número de bolsas individuais com a prioridade no investimento direto em unidades e projetos de investigação.

Em entrevista a 25 de janeiro à Antena 1 e ao Diário Económico, a titular da pasta da ciência afirmou que as bolsas são um "pseudo-emprego" e que há "excesso de investigadores", uma "bolha de crescimento insustentável", defendendo que a aposta deve residir na investigação de qualidade, o que, em seu entender, implica maior seletividade nos concursos da FCT para atribuição de bolsas.

Leonor Parreira reconheceu, no entanto, haver poucos investigadores de carreira e que a ciência faz-se em Portugal à custa de vínculos laborais precários.

Hoje, no parlamento, o presidente do Fórum dos Conselhos Científicos dos Laboratórios do Estado, Pedro Reis, alertou para a precariedade laboral científica, apontando o exemplo de investigadores que são bolseiros há cerca de 20 anos.

Pedro Reis realçou ainda o corte, este ano, face a 2013, de quase 50 por cento no orçamento do Instituto de Investigação Científica e Tropical, que "põe em causa o funcionamento da instituição".

Na segunda-feira, o Conselho dos Laboratórios Associados recusou, em comunicado, que "forcem à emigração e ao desemprego os mais qualificados", criticando quem, em Portugal, não quer ver "o extraordinário progresso científico português que os mais competentes do resto do mundo elogiam".

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