Cavaco Silva recebe partidos para evitar crise política

Cavaco Silva recebe partidos para evitar crise política

O Presidente da República deu hoje início a uma sequência de encontros com os partidos representados no Parlamento para analisar a “situação económica, política e social do país”. “Contribuir de forma mais explícita” para que “Portugal não caia numa crise política” é o propósito declarado de Cavaco Silva, que trata de lembrar que “são muitas as possibilidades de negociação” do Orçamento do Estado para 2011.

RTP /
Os candidatos Manuel Alegre, Francisco Lopes e Defensor Moura acusam Cavaco Silva de estar a "fazer campanha eleitoral" Paulo Novais, Lusa

As audiências com as delegações do Partido Ecologista “Os Verdes”, do PCP e do Bloco de Esquerda preencheram esta terça-feira a agenda do Presidente da República. CDS-PP, PSD e PS vão ser auscultados na manhã de quarta-feira. Numa altura em que parece consumada a ruptura entre José Sócrates e Pedro Passos Coelho, Cavaco Silva propõe-se conduzir as reuniões das próximas horas “com espírito construtivo”. Ainda que uma eventual demissão do Executivo socialista seja já um dos cenários em cima da mesa.

Na véspera da primeira ronda de audiências, o Chefe de Estado fez questão de lembrar que o Orçamento do Estado para o próximo ano “ainda não foi apresentado pelo Governo”. Quando isso acontecer, assinalou Cavaco Silva, “é muito provável que ocorram negociações”. Na perspectiva do Presidente, que diz confiar “no sentido de responsabilidade dos dirigentes políticos portugueses”, as soluções não se esgotam no PSD: “Existem cinco partidos da Oposição no Parlamento. Portanto, são muitas as possibilidades de negociação”.

“O meu empenho, neste momento, é contribuir, de forma mais explícita do que tenho feito noutras ocasiões, porque eu não tenho estado parado, só que há coisas que se fazem de forma discreta, para que Portugal não caia numa crise política”, declarava ontem o Presidente, após uma visita ao Museu Marítimo de Ílhavo.

Encontrar “alternativa” ao PSD cabe a Sócrates
O líder social-democrata reúne-se esta terça-feira com duas dezenas de economistas, entre os quais o antigo presidente da Autoridade da Concorrência Abel Mateus, Medina Carreira, João Duque, o antigo dirigente da Associação Portuguesa de Bancos João Salgueiro e o antigo ministro Mira Amaral. O economista Alberto de Castro, da Faculdade de Economia da Universidade Católica, contribui com uma mensagem escrita para a iniciativa da liderança laranja. Esta é a segunda vez que Passos Coelho se reúne com economistas e gestores desde que rendeu Manuela Ferreira Leite na presidência do PSD, há seis meses.

Na sua última tomada de posição pública sobre o espectro de uma crise política, o líder da Oposição garantiu, em Ponta Delgada, que os sociais-democratas não querem fazer um regateio do próximo Orçamento do Estado, reiterando que os portugueses “não podem ser penalizados com mais impostos”. “Se o Governo entende que essas condições do PSD não são justas, então que diga qual é a alternativa em termos de método e de apoio político e talvez consiga”, desafiou.

Se à esquerda comunistas e bloquistas vêem na clivagem entre Sócrates e Passos Coelho uma forma de “chantagem”, ou até mesmo “um folhetim”, o CDS-PP faz a apologia da “contenção” e acusa os dois grandes partidos do regime de estarem na base da “desconfiança dos agentes económicos”. Pelo PS, o líder parlamentar Francisco Assis afiança que o partido de Sócrates está apostado em “criar as condições para que, apesar desta crispação, apesar deste clima de tensão, ainda seja possível promover um entendimento em torno de grandes objectivos nacionais”.

“Campanha eleitoral”
No plano do combate das presidenciais, a iniciativa de Cavaco Silva mereceu, nas últimas horas, fortes críticas de Manuel Alegre. O candidato a Belém apoiado por PS e Bloco de Esquerda acusa o Chefe de Estado de estar “sobretudo a fazer a sua campanha eleitoral”. Alegre considera mesmo que “há uma grande confusão entre as funções presidenciais e a campanha do candidato Cavaco Silva”: “Acho que isso não é bom nem para ele próprio, nem para a transparência e a saúde da República”.

Quanto à sequência de reuniões no Palácio de Belém, o antigo deputado socialista enfatiza que “quem decide” sobre o Orçamento do Estado “são os partidos políticos”. Manuel Alegre considera ainda que houve “um excesso de dramatização da situação e que alguns sectores perto do Presidente ou do partido que o apoia contribuíram para isso, provavelmente para que ele apareça como salvador da situação”.

“Houve dramatismo das pessoas, que apelaram à senhora Merkel, à Alemanha e à intervenção do Fundo Monetário Internacional. O que me choca muito, porque eu acho que nós somos capazes de resolver os nossos problemas”, afirmou esta noite Manuel Alegre.

“Rumo de declínio”
Também o candidato presidencial do PCP, Francisco Lopes, considera que o Presidente da República está a capitalizar o momento de clivagem política para fazer “campanha eleitoral” a partir das suas “funções”. Ouvido pela Antena 1, o candidato defendeu uma mudança de rumo.

“Tudo indica que, de acordo com as suas opções, ele está a intervir para que o Orçamento se insira na linha de rumo de declínio e de injustiças sociais dos últimos anos. E Portugal não precisa de mais cortes na produção nacional, de mais desemprego, de mais ataque ao serviço público, de mais precariedade. Portugal precisa de produção, de desenvolvimento, de emprego com direitos, de serviços públicos e de uma aposta no futuro do país”, afirmou Francisco Lopes.

“Agora é certo que, estando num período eleitoral, o Presidente da República está a aproveitar todas as oportunidades para fazer uma campanha eleitoral a partir das funções que tem na Presidência da República. Isso é particularmente visível no conjunto de deslocações que tem realizado nas últimas semanas e meses”, acusou.

“Cabe ao Presidente da República procurar consensos”
Já Fernando Nobre saúda a iniciativa de Cavaco Silva, argumentando que “cabe ao Presidente da República procurar consensos”. Em declarações à rádio pública, Fernando Nobre propugnou, no entanto, que o Presidente não devia ter dado posse a um Governo minoritário.

“Acho que cabe ao Presidente da República procurar consensos e mobilizar todos os partidos para que haja estabilidade política. Acho é que talvez pudesse ter sido feito antes da constituição do actual Governo, deixando claro que não daria posse a um Governo minoritário e por isso incentivando os partidos a constituírem uma mais larga coligação para que tivéssemos estabilidade no país”, advogou o candidato.

À semelhança de Alegre e de Francisco Lopes, o candidato presidencial Defensor Moura considera que o Presidente da República está a apoiar-se no cargo que ocupa para fazer campanha eleitoral, simulando o “papel de conciliador” que perdeu com o fim da possibilidade de dissolver o Parlamento: “Tomar esta iniciativa numa altura em que perdeu a arma de resolução do problema, com a dissolução da Assembleia da República, é apenas simular um papel de conciliador e de utilizador da magistratura da Presidência da República para resolver o problema e está é, afinal, a utilizar o cargo de Presidente da República para fazer campanha eleitoral. E com isso tem prejudicado seriamente o país”.
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