País
Coesão social está em risco em Portugal, alerta sociólogo Luís Capucha
No dia em que o presidente da República recebe os partidos com assento parlamentar, para discutir a coesão social no país, o sociólogo Luís Capucha deixa um veredicto na rádio pública: a coesão social está em risco em Portugal. Para o professor do ISCTE, as desigualdades estão a aumentar e a fragmentação da sociedade também.
É um sinal da mudança dos tempos. Depois do 25 de Abril de 1974 a vida melhorou para a generalidade das pessoas; agora, a população portuguesa deixou de se rever nessas promessas de uma vida melhor. A leitura é do sociólogo Luís Capucha.
"Durante algumas décadas em Portugal, depois do 25 de Abril, as desigualdades decresceram de uma forma relativamente acentuada, as pessoas desenvolveram aspirações, desenvolveram um padrão de referência diferente do anterior, e esse processo tem vindo a ser coartado, tem vindo a ser negado às pessoas, com uma enorme precariedade que as impede, nomeadamente aos jovens, de olharem o seu futuro com base numa solidez dos projetos que possam construir e para os quais possam trabalhar, e pelo incumprimento de direitos que servem de referência comum", afirmou, no Ponto Central da Antena 1.
Em declarações à jornalista Eduarda Maio, o também professor do ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa, explicou que esse incumprimento vai além do direito à habitação, tema que tem mobilizado manifestações, sobretudo em Lisboa e no Porto. Luís Capucha vai mais longe: o que está em causa é o direito a um padrão de vida e de consumo considerados dignos. O que não significa que seja igual para todos. "O que é preciso é que as desigualdades não conduzam a que algumas pessoas sejam excluídas dos padrões de vida tidos por normais na sociedade", disse. Há transformações que ocorrem nas comunidades quando essa exclusão acontece: cresce o ódio, a polarização, o extremar das posições políticas e ideológicas. Aumenta a fragmentação. "Quando as posições políticas ideológicas se extremam, naturalmente formam-se campos de nós e os nossos inimigos - não apenas nós e os outros que são diferentes, mas que são nossos inimigos - e isso está muito associado, depois, à emergência do conflito, que vai desde o conflito armado - que voltou a ser uma ameaça que paira sobre as nossas cabeças - até aos conflitos sociais dos mais diversos tipos", referiu Luís Capucha.
É neste contexto que o presidente da República recebe, esta quinta-feira, os partidos políticos com assento parlamentar, para discutir com eles a coesão social no país, encontros que acontecem depois de António José Seguro ter apelado a um entendimento entre o Governo e a oposição sobre as matérias da habitação.
O sociólogo Luís Capucha vê nesta convocatória uma "iniciativa louvável" no sentido de "reconstruir as pontes e esbater o extremar das posições". No entanto, isso não será suficiente no longo prazo. O também professor do ISCTE considera que é preciso começar a agir já, mas reconhece que resolver os problemas de coesão social no país - melhorando a habitação, a educação e a saúde - não é um trabalho para já, para "um ano ou dois". "É necessário, também, trabalhar a fundo no sentido de repor uma lógica existente em décadas anteriores, que é a de que o produto do crescimento e do extraordinário desenvolvimento da economia seja distribuído de uma forma justa e que as pessoas percebam como equitativa. Não podemos nós andar todos a apertar o cinto e todos a passar por dificuldades, e os nossos jovens sem saber o que vai ser o seu futuro e, ao mesmo tempo, as grandes empresas, os grandes negócios a prosperar de uma forma como nunca prosperaram e, portanto, acumular cada vez mais riqueza", considerou.
Luís Capucha lembra que criar riqueza não chega - é preciso distribuí-la. E concretiza: "A seguir à guerra na Europa - em Portugal não era assim, porque estávamos debaixo da ditadura, mas depois de 25 de Abril as coisas aproximaram-se disso - o fruto do crescimento era apropriado cerca de metade pelo capital e metade pelo trabalho; neste momento, é apropriado 60 e poucos por cento pelo capital e menos de 40 por cento pelo trabalho", explicou.
São estes valores que, no entendimento do sociólogo, acabam por provocar o extremar das desigualdades que depois se refletem na insatisfação e no mal-estar da sociedade. É isso que ameaça a coesão social, agora em risco em Portugal, segundo Luís Capucha.
Em declarações à jornalista Eduarda Maio, o também professor do ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa, explicou que esse incumprimento vai além do direito à habitação, tema que tem mobilizado manifestações, sobretudo em Lisboa e no Porto. Luís Capucha vai mais longe: o que está em causa é o direito a um padrão de vida e de consumo considerados dignos. O que não significa que seja igual para todos. "O que é preciso é que as desigualdades não conduzam a que algumas pessoas sejam excluídas dos padrões de vida tidos por normais na sociedade", disse. Há transformações que ocorrem nas comunidades quando essa exclusão acontece: cresce o ódio, a polarização, o extremar das posições políticas e ideológicas. Aumenta a fragmentação. "Quando as posições políticas ideológicas se extremam, naturalmente formam-se campos de nós e os nossos inimigos - não apenas nós e os outros que são diferentes, mas que são nossos inimigos - e isso está muito associado, depois, à emergência do conflito, que vai desde o conflito armado - que voltou a ser uma ameaça que paira sobre as nossas cabeças - até aos conflitos sociais dos mais diversos tipos", referiu Luís Capucha.
É neste contexto que o presidente da República recebe, esta quinta-feira, os partidos políticos com assento parlamentar, para discutir com eles a coesão social no país, encontros que acontecem depois de António José Seguro ter apelado a um entendimento entre o Governo e a oposição sobre as matérias da habitação.
O sociólogo Luís Capucha vê nesta convocatória uma "iniciativa louvável" no sentido de "reconstruir as pontes e esbater o extremar das posições". No entanto, isso não será suficiente no longo prazo. O também professor do ISCTE considera que é preciso começar a agir já, mas reconhece que resolver os problemas de coesão social no país - melhorando a habitação, a educação e a saúde - não é um trabalho para já, para "um ano ou dois". "É necessário, também, trabalhar a fundo no sentido de repor uma lógica existente em décadas anteriores, que é a de que o produto do crescimento e do extraordinário desenvolvimento da economia seja distribuído de uma forma justa e que as pessoas percebam como equitativa. Não podemos nós andar todos a apertar o cinto e todos a passar por dificuldades, e os nossos jovens sem saber o que vai ser o seu futuro e, ao mesmo tempo, as grandes empresas, os grandes negócios a prosperar de uma forma como nunca prosperaram e, portanto, acumular cada vez mais riqueza", considerou.
Luís Capucha lembra que criar riqueza não chega - é preciso distribuí-la. E concretiza: "A seguir à guerra na Europa - em Portugal não era assim, porque estávamos debaixo da ditadura, mas depois de 25 de Abril as coisas aproximaram-se disso - o fruto do crescimento era apropriado cerca de metade pelo capital e metade pelo trabalho; neste momento, é apropriado 60 e poucos por cento pelo capital e menos de 40 por cento pelo trabalho", explicou.
São estes valores que, no entendimento do sociólogo, acabam por provocar o extremar das desigualdades que depois se refletem na insatisfação e no mal-estar da sociedade. É isso que ameaça a coesão social, agora em risco em Portugal, segundo Luís Capucha.