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Comunistas avisam que "verniz" do Governo vai "começar a estalar"

Comunistas avisam que "verniz" do Governo vai "começar a estalar"

O secretário-geral do PCP abriu esta segunda-feira as jornadas parlamentares do partido, em Torres Vedras, com o vaticínio de que “o verniz e as falas mansas” do Governo de Pedro Passos Coelho “vão começar a estalar”. No primeiro de dois dias dedicados à “produção nacional” e à “política de saúde”, Jerónimo de Sousa foi transversal no ataque ao rumo do Executivo, que acusou de ter em curso uma “operação resignação” para “levar as pessoas à passividade”. Uma estratégia, sustentou, que “sofreu um revés” com as últimas manifestações.

RTP /
“Fingindo manter a exigência da justa causa, o que o Governo quer é que qualquer causa seja justa para despedir” Tiago Petinga, Lusa

“A operação resignação sofreu um revés. Vamos ver que operação seguinte vão desenvolver face ao agravamento da ofensiva contra os trabalhadores e as populações. O verniz e as falas mansas vão começar a estalar”, antecipou Jerónimo de Sousa na intervenção de abertura das jornadas parlamentares do PCP, a decorrer na Região Oeste.

Tomando como ponto de partida as manifestações organizadas no sábado pela CGTP, o secretário-geral dos comunistas acusou o Executivo partilhado por PSD e CDS-PP de querer, sem sucesso, “levar as pessoas à passividade”. Está em curso, segundo o dirigente do PCP, uma “operação ideológica, mil vezes repetida”, que “assenta na ideia de que Portugal tem que cumprir a escritura sagrada do acordo” com a troika do Fundo Monetário Internacional, do Banco Central Europeu e da Comissão Europeia, “senão seria a bancarrota”.

A “operação resignação”, continuou Jerónimo, assenta também na ideia “de que chegámos aqui porque estaríamos a viver acima das possibilidades, mas que, como o país é um país honrado, terá de pagar os juros agiotas que a banca internacional, de braço dado com a senhora Merkel e o senhor Sarkozy, nos vêm andando a extorquir”: “Mesmo se para alguns, como Cavaco Silva e alguns banqueiros, o que era uma bíblia há algumas semanas necessita agora de revisão e de renegociação”.

“Completa liberalização” dos despedimentos
Na leitura dos comunistas, o objetivo do Governo é levar os portugueses a acreditarem que têm pela frente apenas “dois anos de sacrifícios”.
Repto sem impacto

Na antevisão das jornadas parlamentares do PCP, Bernardino Soares reagiu com frieza ao desafio para uma “distensão” das relações entre partidos de esquerda enunciado na passada sexta-feira pelo vice-presidente do grupo parlamentar do PS Pedro Nuno Santos.

“Certamente estas jornadas apreciarão o que tem sido a evolução política dos últimos anos e não deixarão de apontar as responsabilidades dos partidos que subscreveram o memorando com a troika e isso inclui o Partido Socialista”, devolveu o líder parlamentar do PCP.

Embora reconheça que há “diferenças” entre PS, PSD e CDS-PP, o Partido Comunista não pode “deixar de dizer que a política que hoje está a ser seguida, no fundamental, foi subscrita por estes três partidos e isso está a prejudicar muito o país”.

Lançado durante o debate de dois projetos socialistas com vista à suspensão do aumento do IVA da energia e à criação de uma taxa adicional de IRC para empresas com lucros acima de dois milhões de euros, ambos rejeitados pela maioria, o desafio do antigo líder da JS teve por destinatário o deputado do PCP Honório Novo.

Depois de o parlamentar comunista ter classificado os agendamentos do PS como “tempo perdido”, Pedro Nuno Santos incomodou parte da sua própria bancada ao dizer que era tempo de começar “a distender as relações entre os partidos de esquerda”.

Todavia, anteviu Jerónimo de Sousa, “daqui a dois anos estaremos com a economia afundada e, mesmo qualquer crescimento que se viesse a verificar, parte de um nível tão baixo e seria tão incipiente que não tem significado, nem em termos económicos, nem em termos financeiros, nem de criação de emprego”.

Por outro lado, o PCP encara as medidas de apoio a desempregados de longa duração anunciadas pelo ministro da Economia, Álvaro Santos Pereira, como “completamente inúteis ou inócuas”.

E o Governo “nada avança de concreto relativamente à questão central da falta de crédito, que está a fazer falir empresas viáveis, a paralisar a produção” e a “travar a exportação”, na perspetiva do secretário-geral do Partido Comunista.

“As medidas para dinamizar a economia e promover o emprego não passam de paliativos que se renovam ciclicamente com novas roupagens”, concluiu Jerónimo, para lançar também fortes críticas às opções do Governo para a legislação do trabalho: “Um pacote laboral que inclui o alargamento selvático do conceito de despedimento com justa causa, visando a sua completa liberalização. Fingindo manter a exigência da justa causa, o que o Governo quer é que qualquer causa seja justa para despedir”.

No capítulo da saúde, o secretário-geral do PCP criticou o ministro da tutela por propagar a ideia “falsa” e “perigosa” de que, “com menos dinheiro, vai fazer mais e até pode fazer melhor”. Com os aumentos das taxas moderadoras em mente, Jerónimo de Sousa acusou mesmo Paulo Macedo de enveredar pelo copagamento “como parte integrante do processo de privatização do serviço público de saúde”.

“Momento de particular gravidade”
É por constituir um “bom exemplo” que a Região Oeste foi escolhida para as jornadas parlamentares comunistas, segundo explicou aos jornalistas o líder parlamentar do PCP. Os dois dias de reunião coincidem, de acordo com Bernardino Soares, com um “momento de particular gravidade da vida política nacional e da vida social e económica”.

Até terça-feira, os deputados do PCP vão desdobrar-se em diversas deslocações. A Câmara Municipal de Sobral de Monte Agraço, de gestão comunista, a Cooperativa de Fruticultores do Cadaval, a Associação Nacional de Produtores de Pêra Rocha e a Cooperativa Agrícola de Alenquer são algumas das escalas do grupo parlamentar do PCP.

O roteiro dos deputados passa ainda pela Cooperativa Operária de Fabrico de Colchões Bom Sucesso, pelo Hospital de Torres Vedras e por encontros com a Associação Comercial, Industrial e de Serviços da Região Oeste e a União dos Sindicatos de Torres Vedras.
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