Conselho da Europa. Seguro reafirma "compromisso de Portugal com valores da paz"

Conselho da Europa. Seguro reafirma "compromisso de Portugal com valores da paz"

"Quando se dialoga, a capacidade para encontrarmos soluções por meios pacíficos é muito mais eficiente do que recorrermos, como alguns continuam a fazer, a instrumentos bélicos".

Andrea Neves, RTP Antena 1 Fernanda Gabriel, RTP Notícias / Adicionar como fonte informativa

O presidente da República chegou na tarde desta terça-feira a Estrasburgo para poder participar na Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa.

Portugal aderiu há 50 anos ao Conselho da Europa, num momento que muitos consideraram ser o primeiro grande passo de Portugal no caminho da Europa.Portugal assinou a Convenção Europeia dos Direitos do Homem no mesmo dia a adesão ao Conselho e é subscritor de 171 das 229 convenções que constituem o espaço jurídico comum do Conselho da Europa.

O secretário-geral do Conselho da Europa considera, por isso, que, “para nós, tem um significado muito grande, receber o presidente de Portugal no Conselho da Europa tem um significado muito importante por várias razões: a primeira é que, claro, estamos a celebrar este ano o 50.º aniversário da participação de Portugal no Conselho da Europa. E recordamos, naturalmente, as condições em que Portugal aderiu ao Conselho da Europa, para consolidar uma jovem democracia, mas com um compromisso muito, muito forte com os valores”.
 
Por isso, também, “faz todo o sentido porque o Conselho da Europa é a casa dedicada ao Estado de Direito, à proteção dos direitos humanos e à democracia. E sabemos que estes valores não só são muito caros a Portugal e ao Presidente, como os colocam, naturalmente, em primeiro plano. Por isso, estou muito, muito feliz por poder recebê-lo aqui em Estrasburgo” referiu Alain Berset à RTP Antena 1 e à RTP Notícias.

O secretário-geral considera que “Portugal não é apenas um país muito empenhado, mas também um parceiro extremamente fiável para o Conselho da Europa. Trabalhamos em estreita colaboração. E num mundo, digamos, dominado pela instabilidade que hoje vivemos, é nestes momentos que reconhecemos a força e a importância desta estabilidade e deste compromisso”.

Alain Berset destaca o papel de Portugal em questões fundamentais:
“Sabemos, naturalmente, que Portugal desempenhou e continua a desempenhar um papel muito importante na abolição da pena de morte. Foi um compromisso muito, muito forte. E também, com a presença do nosso Centro Norte-Sul em Lisboa”.

O centro – criado em 1990, une dezenas de Estados-membros em torno de agendas de cooperação técnica e política para promover o diálogo e fomentar a cooperação e a interdependência global entre a Europa, a bacia do Mediterrâneo e a África – foi um dos destaques que António José Seguro já quis deixar na chegada a Estrasburgo e nas curtas declarações que fez na residência oficial do Representante Permanente de Portugal junto do Conselho da Europa.
“Quero também aqui reafirmar o nosso compromisso com o Centro do Norte-Sul. O Centro do Norte-Sul é um espaço muito relevante, o diálogo entre o Norte e o Sul, entre a Europa e o Sul, e nós precisamos de espaços de diálogo. O diálogo é o que nos permite conhecer melhor as posições dos outros, conheceremos melhor o pensamento dos outros, e quando se dialoga, a capacidade para nós encontrarmos soluções por meios pacíficos é muito mais eficiente do que recorremos, como alguns ousam e continuam a fazer, a instrumentos bélicos para os poder resolver”.

O presidente da República recorda que é fundamental "reafirmar o compromisso de Portugal, um forte e firme compromisso de Portugal, com os valores da paz, com os valores do humanismo, com os Direitos Humanos, com a democracia, que são valores que devem ser invocados em contextos de forte ameaça e de risco”.

Esta tónica, deixada esta terça-feira aos convidados da cerimónia com funcionários portugueses do Conselho da Europa será um dos temas que vai passar pelo discurso desta quarta-feira na Assembleia Parlamentar do Conselho.

“Não vou, obviamente, desvendar aquilo que será a minha intervenção amanhã na Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa, mas quero dizer com clareza que essa é a razão principal da minha presença aqui”.

António José Seguro considera que “precisamos de reafirmar, de regar os valores que fundaram este Conselho da Europa e que foram criados, precisamente, a seguir a um momento de grandes guerras e de grandes sofrimentos na Europa”.

“Precisamos deste espírito democrático, estes valores de paz, de humanismo, de direitos humanos, que estejam sempre presentes na nossa ação e que daqui a uns 5 ou 10 anos não sejam necessários lembrá-los, porque fazem parte do nosso dia a dia. Hoje, infelizmente, é necessário lembrá-los, recordá-los e lutar por eles” referiu o Presidente da República.

O secretário-geral do Conselho também afirma esta necessidade.

“Acho que o que está a acontecer agora pode surpreender-nos, mas também não é totalmente uma surpresa” refere Alain Berset.

“Estamos a viver uma evolução relativamente difícil, devido a uma série de crises que se sucederam a nível europeu, desde a crise financeira à guerra na Ucrânia já em 2014. Tivemos a crise da pandemia de COVID-19, os problemas energéticos, o custo de vida, muitas questões que, no fundo, geram frustração nas pessoas e criam situações difíceis, que naturalmente se refletem nos resultados das eleições”

Alain Berset reforça que “temos de nos adaptar a este mundo. Temos de ser capazes de responder às perguntas legítimas que as pessoas fazem e que não são exatamente iguais em Lisboa, em Berna ou em Berlim, mas há uma tendência geral sobre a qual temos de agir”.

“E penso que a presença de Portugal ao mais alto nível do Conselho da Europa hoje nos permitirá abordar estas questões” refere o Secretário-Geral que quer lançar um pacto pela democracia entre os países do Conselho.

“O contexto em que a democracia evoluiu hoje, não é o mesmo de há 20 anos. Há 20 anos, as redes sociais praticamente não existiam. Não desempenhavam nenhum papel. Não existiam estas bolhas que se formavam. O debate tinha lugar entre pessoas que se encontravam numa sala e tinham um debate real entre si. Hoje, estas bolhas separam um pouco as pessoas e os grupos, e temos de responder a isso adaptando as condições em que a democracia funciona”.
 
E o pacto democrático pretende educar e preparar as pessoas para serem capazes de debater nestas novas condições.
 
“Trata-se de ser capaz de proteger a democracia, quando necessário, de influências externas ou da manipulação da informação. Trata-se também de inovar, de utilizar as novas ferramentas tecnológicas que temos para, porque não, criar novos meios de debate ou também para sermos capazes de utilizar, por exemplo, a inteligência artificial para encontrar desinformação, denunciá-la e corrigi-la”.

Uma das razões pelas quais Portugal tem sido mais referido nos relatórios do Conselho da Europa é também uma das que motiva mais queixas que o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem recebe de Portugal.


A ministra da Justiça, que acompanha o presidente da República nesta deslocação, garantiu aos jornalistas que o Governo “tem feito muito” para evitar que Portugal seja referido nestes relatórios por causa desta questão.

“Desde logo começámos pela estabilidade das pessoas, fizemos a revisão das carreiras dos guardas, lançámos novos concursos, aprovámos um plano anual de recrutamento e promoções, para reforçar a capacidade de resposta humana. Fizemos também mais investimentos na área da segurança precisamente para dar mais segurança às prisões e estamos, neste momento, em curso com várias obras de remodelação e reabilitação e para a desafetação do Estabelecimento Prisional de Lisboa porque cerca de metade das queixas referem-se ao EPL por isso a nossa prioridade é fechá-lo".

Rita Alarcão Júdice reforça que “sabemos que a herança era pesada e sabemos que não é um caminho fácil, mas também digo que eu e os dois secretários de estado fazemos um trabalho de equipa para tentar melhorar as condições das prisões por uma questão de humanidade também”.
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