Costa desafiado a substituir "bicicleta por mota" em marchas da CGTP

“Não basta dizer que se muda, é preciso mudar”. Foi esta a mensagem endereçada ao Governo socialista em dia de manifestações da CGTP no Porto e em Lisboa. À voz do secretário-geral da Intersindical, Arménio Carlos, somaram-se, este sábado, as de Catarina Martins e Jerónimo de Sousa. A primeira assinalou que “está na hora” de cumprir “promessas básicas”. O segundo avisou que “o PS anda mal” se ignorar a contratação coletiva.

Carlos Santos Neves - RTP /
“Não basta dizer que se muda, é preciso mudar”, frisou o secretário-geral da CGTP, Arménio Carlos António Pedro Santos - Lusa

Duas manifestações nas duas maiores cidades do país. Com um objetivo único: instar o Governo a valorizar o trabalho mediante aumentos salariais e a cortar em definitivo com legislação adotada na vigência do Programa de Assistência Económica e Financeira.

Atentos a estas reivindicações estiveram Catarina Martins e Jerónimo de Sousa. A coordenadora do Bloco de Esquerda falou na direção do gabinete de António Costa.

“Nós achamos que está na hora de o Governo cumprir aquilo que são as suas promessas básicas de defesa dos trabalhadores. Compreendemos bem que a CGTP sinta a necessidade de sinalizar este momento e nós, pela nossa parte, fazemo-lo também no Parlamento”, afirmou Catarina Martins, ouvida pelos jornalistas no decurso da manifestação em Lisboa.



“No programa do Governo está a limitação dos contratos a prazo e está menos flexibilização horária, ou seja, o fim do banco de horas individual”, continuou a dirigente bloquista, para voltar também à carga com o reforço da contratação coletiva.

Catarina Martins quis fazer notar que “a contratação coletiva abrangia, antes do início da crise, mais de dois milhões de trabalhadores” e que “agora são só 200 mil”.

“Quando as pessoas percebem que o seu salário fica parado, que não é valorizada a sua profissão, a sua carreira, os anos de serviço que têm, é porque não há contratação coletiva. Portanto, não há evolução salarial, não há negociação das condições de trabalho em cada empresa, em cada sector, que é o que melhor serve a economia, a produtividade do país e as condições dos trabalhadores. O BE já o propôs, continuará a trabalhar sobre essa matéria”, concluiu.
“Isto não é uma teimosia”

Também o secretário-geral do PCP colocou a tónica na contratação coletiva, ao advertir que “o PS anda mal se não reconhecer o direito” àquela fórmula.

“Isto não é uma teimosia, é uma luta histórica, é uma conquista histórica dos trabalhadores portugueses. Creio que este Governo, no quadro da nova solução política, devia levar a sério e afastar esses constrangimentos que atualmente existem sobre a contratação coletiva”, vincou Jerónimo de Sousa, à passagem da manifestação da Intersindical pelo Centro de Trabalho Vitória, na Avenida da Liberdade, em Lisboa.“Com mil diabos, antes do 25 de Abril já negociava o contrato coletivo dos metalúrgicos. Foi conquistado a pulso, a Constituição acabou por reconhecer”, recordou Jerónimo de Sousa.


“O Governo tem de dar resposta à questão da contratação coletiva, à questão dos salários, da precariedade”, insistiu Jerónimo, reiterando que “não se está aqui a inventar nada de radical, nada de avançadíssimo”.

“Algum tento” foi o que o dirigente comunista pediu ao ministro das Finanças, Mário Centeno.

“Nesses apelos à calma, a ideia de que não pode haver pressas, questionava o senhor ministro das Finanças lembrando-o de que os trabalhadores da Administração Pública, por exemplo, estão há dez anos sem receber um cêntimo de aumento salarial, para além da questão das carreiras. Se isto é ter pressa, enfim, tenhamos algum tento”.



“Nós valorizamos muito os avanços alcançados neste novo quadro da nova vida política nacional, mas começar a pensar em parar ou retardar não é um bom caminho, porque leva a desilusões, leva a protesto, naturalmente, leva à luta”, alertou.
“A bicicleta por uma mota”

A manifestação da CGTP na capital começava a tomar forma quando Arménio Carlos quis fazer um apelo ao primeiro-ministro, exortando-o a substituir “a bicicleta por uma mota”, para que a recuperação do país ocorra com maior velocidade.
A manifestação da CGTP em Lisboa partiu pelas 15h30 da Rotunda do Marquês de Pombal, descendo a Avenida da Liberdade até aos Restauradores.
Com o Orçamento do Estado para 2018 em mente, o secretário-geral da Intersindical sublinhou que a contratação coletiva será “uma questão inevitável”. Acusou em seguida as estruturas dos patronato de pretenderem destruir direitos dos trabalhadores a partir da caducidade da contratação coletiva.

“Não basta dizer que se muda, é preciso mudar”, enfatizou.

Acabar com “legislação laboral do tempo da troika” é uma tarefa que a CGTP gostaria de ver cumprida pela atual maioria parlamentar.

Recusando descrever as manifestações deste sábado como uma “prova de vida” da estrutura da confederação que dirige, Arménio Carlos argumentou que, “se os trabalhadores não se manifestarem”, corre-se “o risco de o Governo se deixar ficar à sombra dos resultados que tem obtido”.

Na intervenção de encerramento da manifestação lisboeta, o secretário-geral da CGTP desafiaria o Governo a instituir um programa "Simplex" para o combate à precariedade nos vínculos laborais, de modo a que a cada posto de trabalho permanente corresponda um vínculo efetivo.
E Passos Coelho?
O presidente do PSD não deixou este sábado de comentar quer as manifestações da CGTP, quer as palavras de Catarina Martins e Jerónimo de Sousa. Com recurso à ironia.



“Como este Governo só está por vontade do PCP, do Bloco de Esquerda e do PS, leio essas declarações com o devido desconto. Anoto, ouço, mas dou-lhes o devido desconto”, reagiu Pedro Passos Coelho em Ponte da Barca, após uma visita à Santa Casa da Misericórdia local.

O líder do principal partido da oposição acusou os partidos que secundam o PS na Assembleia da República de permanecerem mais empenhados em tecer críticas ao anterior Executivo.

c/ Lusa
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