Deputado justifica, adversários criticam "promiscuidade"

Deputado justifica, adversários criticam "promiscuidade"

O deputado social-democrata Agostinho Branquinho não vê nada de mal na sua contratação pela Ongoing e até se ufana de ter dado um exemplo de "lisura e transparência", por renunciar ao mandato parlamentar. À esquerda BE e PCP vêem aqui um caso de "promiscuidade".

António Louçã, RTP /
Branquinho confirmou hoje que está a "ponderar" um convite para exercer funções na Ongoing Brasil RTP

O deputado comunista João Oliveira, que tinha integrado a comissão parlamentar de inquérito à tentativa de compra da TVI pela PT, reagiu às notícias sobre a eventual contratação de Agostinho Branquinho para a Ongoing emitindo diversas considerações críticas, citadas pela agência Lusa: "Independentemente do cumprimento das regras que, segundo o que está noticiado, está a ser feito relativamente ao estatuto dos deputados, consideramos que é uma situação que agrava todos os indícios públicos destas relações de promiscuidade que não devem existir".

E insistiu ainda na tecla da promiscuidade, lembrando que não se trata de uma descoberta de hoje nem de ontem: "O PCP considera que se acentuam as preocupações que desde há algum tempo têm vindo a manifestar-se relativamente à situação de promiscuidade crescente entre o poder político e o poder económico, sobretudo tendo em conta a atividade desta Assembleia ainda há alguns meses em torno da comissão de inquérito".

Do lado do BE, o deputado João Semedo, a seu tempo membro também e relator daquela comissão de inquérito, observou que "a contratação direta de um deputado por uma empresa de comunicação social introduz novamente o problema das transparências das relações entre o mundo da política e o mundo dos negócios e da comunicação social". Para o deputado bloquista, "mais que um problema ético, coloca-se um problema político de transparência e legitimidade".

Semedo lembrou também as intervenções "do deputado Agostinho Branquinho dizendo que as publicações da Ongoing tinham uma natureza editorial que sustentava posições próximas do Governo". E rematou: "Isto é o Bloco central de interesses no seu melhor, em que as grandes proclamações políticas se esquecem facilmente sempre que um negócio ou um interesse se aproximam".

Branquinho não aceitar comparação com Jorge Coelho

Branquinho confirmou hoje que está a "ponderar" um convite para exercer funções na Ongoing Brasil e que, nesse quadro, decidira cessar a sua actividade parlamentar. O deputado defendeu o procedimento, afirmando: "Das minhas decisões e daquilo que eu fiz na comissão de ética não resultou qualquer benefício ou nenhum prejuízo para qualquer grupo empresarial português. Os deputados não tomam decisões executivas sobre o que quer que seja, apenas escrutinam. E sobre o escrutínio do meu escrutínio os senhores jornalistas são a melhor prova daquilo que eu consegui e não consegui fazer. Ficou claro que nunca me inibi de fazer as perguntas que devia fazer, mesmo quando as pessoas que iam à comissão de inquérito não gostavam das perguntas".

Branquinho sublinhou também que "a intervenção da Ongoing no processo da TVI é posterior ao abandono do negócio por parte da PT e daquela atitude rocambolesca do Taguspark". E acrescentou:
"A Ongoing é uma empresa privada, enquanto tal tem todo o direito de fazer as opções estratégicas no negócio que entende, desde que cumpra as leis do nosso país. A Ongoing foi escrutinada aqui no Parlamento. Ao contrário de muitos outros, não se coibiu de dar explicações aos deputados".

Branquinho realçou ainda a "lisura e transparência" do seu procedimento, por contraste com o caso do antigo ministro socialista das Obras Públicas de Guterres, Jorge Coelho, que depois de deixar o Governo foi contratado pela Mota Engil: "Eu nunca fui ministro de coisa nenhuma, os deputados não têm funções executivas, têm que escrutinar a atividade da administração pública e fazer as leis".

O líder da bancada parlamentar do PSD, Miguel Macedo, escusou-se a comentar o caso.
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