Economia a andar no arame com rede por baixo

Portugal irá, segundo toda a expectativa, sair do programa de ajustamento sem novo resgate e sem programa cautelar, e irá financiar-se directamente nos mercados. Para alguns, é uma "saída limpa", para outros uma "saída à irlandesa". Mas a realidade da saída não se deixa reduzir a qualquer destes dois rótulos.

RTP /
As dificuldades não terminam com a saída - o cálice é para beber até ao fim Nuno Veiga, Lusa

O financiamento do país nos mercados, sem recurso à troika, sugere que o Governo confia na receptividade dos investidores para comprarem dívida portuguesa. O Governo tem, aparentemente, tanta confiança no equilíbrio alcançado para as contas públicas que se arriscará a caminhar no arame, sobre o abismo que novamente se abriria no caso de os juros voltarem a disparar.
A rede por baixo
Mas, como o seguro morreu de velho, o exercício de funambulismo terá lugar com uma rede por baixo, ou, ao menos, com uma almofada de financiamento:  os cerca de 15 mil milhões de euros acumulados durante os últimos meses devem permitir à Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública (IGCP) pagar o défice deste ano (6,8 mil milhões de euros) e também os dois pagamentos de empréstimos que atingem a sua maturidade, ficando para breve apenas um terceiro, a liquidar já no próximo ano.
Maturidades que se vencem:

Junho 2014    - 4.376 milhões
Outubro 2014 - 5.244 milhões

Falando ao "Diário Económico", o presidente da IGCP, João Moreira Rato, afirmava recentemente que esta almofada equivale grosso modo a uma linha de crédito cautelar, sempre limitada a um máximo de 10% do PIB, que seriam uns 17 mil milhões. A inexistência de um programa cautelar acordado com a troika seria, assim, de algum modo compensada por este factor.
Modelo irlandês e modelo grego
A relativa limpeza desta saída parece aparentá-la em primeira linha com o modelo seguido na Irlanda. Algumas projecções económicas contidas no Documento de Estratégia Orçamental (DEO) sugerem que o parentesco poderá confirmar-se. Entre as expectativas a que o DEO dava corpo, na semana passada, conta-se a que aponta para sucessivas reduções do peso da dívida pública no PIB: dos actuais 130% para 128,7% em 2015, e continuando a descer até 116,7% em 2018.

Mas essas reduções do peso da dívida no PIB baseiam-se na expectativa de crescimentos do PIB às quais a experiência recente não empresta uma verosimilhança por aí além. Com efeito, as reduções da dívida só baterão certo se nominalmente o PIB crescer 2,4% em 2014, 3,4% em 2016 e 3,7% nos dois anos seguintes. A economia, a sair da recessão, está longe destas taxas de crescimento.

Fica portanto a dúvida sobre o acolhimento que terão os empréstimos obrigacionistas portugueses, no caso de os indicadores económicos serem diferentes do que se projecta no DEO. E as necessidades de financiamento não se adaptam ao maior ou menor sucesso com que se atinjam as metas de crescimento económico e as correlativas metas de redução da dívida. No triénio 2015-2017, calcula-se que seja necessário emitir empréstimos no valor de 36,9 mil milhões de euros.
Obrigações que serão emitidas

2015 -   7,9 mil milhões
2016 - 14,5 mil milhões
2017 - 14,5 mil milhões

Estará Portugal, no caso de dispararem os juros para esses empréstimos, outra vez na vizinhança do modelo grego? A resposta não pode basear-se na presunção de que exista uma separação estanque entre modo de saída irlandês e modo de saída grego. Contra todas as expectativas, a Grécia tem estado também a financiar-se nos mercados e o seu Governo não se queixa, até agora, de juros exorbitantes.

Vários especialistas têm manifestado a sua perplexidade por os investidores comprarem dívida grega com aparente convicção, quando afinal os indicadores da economia grega estão agora pior do que antes do programa de assistência. A explicação mais corrente não é a de os investidores confiarem na solvência dessa economia, e sim a de confiarem que a União Europeia não poderá permitir-se um incumprimento grego. Os investidores não têm de confiar em que a Grécia pague, desde que alguém pague - e, num mercado global com remunerações decrescentes para o capital, mesmo em investimentos de risco, os juros da dívida grega são, apesar de tudo, atraentes.
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