Política
Ensaio para o 25 de Abril. Completam-se 60 anos da Revolta de Beja
Na madrugada de 1 de janeiro de 1962, um grupo de cinco militares e cerca de 80 civis tentou tomar o quartel do Regimento de Infantaria 3, em Beja. Era a primeira revolta antifascista levada a cabo com a guerra colonial em pano de fundo. Falhou, mas, com uma antecedência de 12 anos, serviu de ensaio para o 25 de Abril.
Num documento a que a RTP só recentemente teve acesso, o colectivo de juízes que em 1964 julgou os insurrectos de Beja procura em todas as circunstâncias ocultar o facto de a guarnição do quartel praticamente não ter apresentado qualquer resistência ao assalto. Sempre que se refere ao tiroteio ocorrido dentro da unidade, o documento fala dele com um sujeito indeterminado, e sem identificar o major Henrique Calapez Martins como único autor dos disparos realizados contra os insurrectos.
Uma ditadura com pés de barro A omissão é altamente reveladora da presciência com que aquele tribunal comissionado pela ditadura intuía já o pouco entusiasmo das tropas. Era preciso fazer crer que uma parte da guarnição tinha resistido e ocultar como o segundo comandante do Regimento, legionário convicto, se encontrara praticamente sozinho a disparar contra os insurrectos, a coberto da escuridão e beneficiando do melhor conhecimento que tinha do terreno.
Depois de cinco militares, comandados pelo capitão João Varela Gomes, terem entrado na unidade e terem obtido a adesão do oficial de dia, tenente Arantes e Oliveira, os civis comandados por Manuel Serra tinham transposto o muro da unidade e tinham-se apoderado da casa da guarda. Com eles levavam um número de pistolas incerto - pelo menos duas, mas não mais de sete. Tiveram portanto de dominar de mãos nuas os militares que aí se encontravam.
Raul Zagalo Gomes Coelho, na altura com 20 anos acabados de fazer, era um dos mais jovens insurrectos e não tinha qualquer experiência militar. Era suposto vir a operar uma bazuca, mas só a tinha visto em desenhos que lhe foram mostrados na preparação da revolta. Ao dominar um dos soldados da casa da guarda, e ao apoderar-se da respectiva espingarda, logo se deparou com a dificuldade de municiar a arma. Para esse efeito, pediu ajuda ao militar que tinha dominado, tratando também de tranquilizá-lo sobre a correcção com que seria tratado. O militar não se fez rogado e deu-lhe as explicações necessárias.
O episódio ajuda a entender o motivo de a ditadura ter preferido desperdiçar a oportunidade de fabricar, na pessoa do major Calapês, um herói da defesa do quartel: o importante era, sobretudo, não reconhecer que lhe faltava o apoio empenhado de militares conscritos, desde o oficial de dia à guarnição da casa da guarda. Em todo o quartel, só um fanático da ditadura se empenhou em contrariar a acção dos insurrectos.
A dificuldade de fabricar um herói
Do legionário fanatizado era, aliás, difícil fabricar um herói. O major Calapez Martins começara por abrir fogo contra Varela Gomes, que vinha intimá-lo a entregar-se, ferindo-o gravemente com dois tiros. Não foi atingido pelos disparos que Varela Gomes, já sem controlo sobre a arma, fez em resposta, mas foi dominado pelo oficial miliciano Jaime Carvalho da Silva. Teve nesse momento um colapso nervoso, implorando que o captor lhe poupasse a vida.
Carvalho da Silva confinou-o no seu quarto, enquanto tratava de socorrer o companheiro ferido. Viria mais tarde a lamentar amargamente esse excesso de generosidade, que permitiu a Calapez Martins fugir pela janela e começar a alvejar diversos insurrectos a partir de posições que estes não podiam detectar. Do tiroteio resultaram a morte de David Abreu, ferimentos que haviam de ser fatais a António Vilar e um ferimento que imobilizou Raul Zagalo.
Surpreendentemente, Calapez Martins, que devia ser a principal testemunha da acusação, brilhou depois pela ausência no julgamento dos insurrectos. Nenhuma outra explicação se conhece ou poderá arquitectar-se para essa bizarríssima ausência, se não a sua impossibilidade de se ver acareado com Carvalho da Silva, que testemunhara o momento de pânico atrás descrito. Onde a ditadura teve perfeita noção da dificuldade em travesti-lo de herói, o governo cavaquista viria a perder esse elementar senso comum, oferecendo-lhe uma condecoração que ele, fascista impenitente, soube ainda recusar.
Em todo o caso, o protagonista que não teve cara para apresentar em tribunal contrastava em absoluto com a atitude neutral ou até empática dos outros militares do quartel e, mais ainda, com a da população de Beja e arredores. Maria Eugénia Varela Gomes, que ao conhecer o desfecho da revolta viajou para Beja, recordou essa como uma viagem em território ocupado, em entrevista concedida em 1976 à RTP, com frequentes barreiras de controlo na estrada e com uma ostentosa presença militar na cidade. Contudo, ela recordou também como, no meio desse ambiente sufocante, muita gente lhe murmurava palavras de apoio ou tinha para com ela gestos de solidariedade inesquecíveis.
Uma derrota com sementes de vitória
A Revolta de Beja tinha tudo para ser derrotada - e foi. Tinha o timing errado, porque a grande vaga de entusiasmo pela candidatura presidencial de Humberto Delgado refluíra já, a olhos vistos. O início da guerra colonial, que poderá discutir-se quando foi, mas que geralmente se situa no 4 de fevereiro de 1961, tinha permitido ao regime salazarista apelar à unidade e obter mesmo o apoio de alguns sectores da oposição.
A oposição republicana continuava em boa parte a ser tão colonialista como o tinha sido a Primeira República. O PCP, apesar de ter finalmente, no seu congresso de 1957, aprovado uma resolução favorável à independência das colónias, continuava disposto a sacrificar essa tardia aquisição programática no altar da unidade antifascista, sempre que os aliados republicanos se mostrassem intransigentes a esse respeito.
Mesmo sectores críticos da ditadura, como o ex-ministro Júlio Botelho Moniz ou o ex-presidente Craveiro Lopes cerravam agora fileiras contra o inimigo externo. A guerra colonial começou com a típica embriaguês triunfalista de todos os inícios e num momento em que a vaga delgadista já só deixara no terreno uma minoria activa e determinada. Os mortos, feridos e estropiados da guerra ainda não tinham começado a voltar ou a ficar por lá. O preço da obstinação aventureira de Salazar ainda não começara a ser pago.
Como já se tem dito noutras ocasiões, a Revolta de Beja situou-se na cava entrre duas ondas. Agora não tinham vindo para a rua as centenas de milhares que encheram as praças de Lisboa e do Porto, mas apenas umas dezenas de pessoas. Daí não pode, no entanto, inferir-se que o recuo da vaga tivesse privado a pequena minoria de uma extraordinária popularidade. As centenas de milhares que já não vinham para a rua continuavam a olhar com admiração aqueles que tudo tinham arriscado em Beja.
Daí uma outra curiosa característica da sentença judicial citada atrás: longe de se exceder em penas máximas e em medidas de segurança, o tribunal aplicou-se a encontrar atenuantes que pudessem justificar a condenação em penas já cumpridas, com óbvias excepções para Manuel Serra (dez anos de prisão) e para João Varela Gomes (seis anos). E mesmo os militantes comunistas que, à revelia do partido, participaram na revolta eram agora surpreendidos com penas de uma moderação a que não estavam, de todo, habituados. A simpatia nacional e internacional em torno dos réus ocasionou esse insólito parêntesis no revanchismo judicial da ditadura.
Na sequência da fraude eleitoral de 1958, Álvaro Cunhal criticara ao dirigente comunista Júlio Fogaça ter deixado escapar a oportunidade de uma greve geral contra o fascismo. Levada a cabo demasiado tarde para cristalizar essa oportunidade num movimento vitorioso, e demasiado cedo para dar corpo à saturação da guerra, a Revolta de Beja foi um primeiro ensaio do 25 de Abril e uma semente de vitória lançada no momento mais difícil.
Cinquenta anos depois, uma vintena de insurrectos (parte deles nesta foto) juntou-se ainda na comemoração desse meio século e num manifesto contra a política da troika que então se impunha sob o Governo de Passos Coelho. Nos dez anos seguintes desapareceu uma boa parte dos insurrectos que ainda participaram na comemoração do cinquentenário: Maria Eugénia Varela Gomes, João Varela Gomes, Edmundo Pedro, Eugénio Oliveira, António Pombo, Venceslau Almeida, Guaparrão Santos, José Hipólito dos Santos, António Miranda.