Filha teme que ativista de Macau Au Kam San morra na prisão após condenação

Filha teme que ativista de Macau Au Kam San morra na prisão após condenação

Uma das filhas de Au Kam San disse hoje à Lusa temer que o ativista de Macau, de 69 anos, morra atrás das grades, após ser condenado a 12 anos e seis meses de prisão.

Lusa / Adicionar como fonte informativa

Horas antes, a Justiça da região semiautónoma chinesa considerou o antigo deputado pró-democracia e cidadão português culpado de crimes contra a segurança do Estado.

"Acredito que se vai manter forte e espero poder voltar a vê-lo um dia, mas, com a idade que está, questiono-me sinceramente se ainda existe a possibilidade de ele sair da prisão", disse Cherry Au.

Uma opinião partilhada pelo advogado internacional de Au Kam San, o britânico Michael Polak, que sublinhou que "uma pena como esta para alguém da sua idade, equivale a uma prisão perpétua".

Cherry disse desconhecer o estado mental de Au Kam San, uma vez que a família ainda não conseguiu visitar ou falar com o professor reformado desde que foi detido, em julho de 2025.

No mesmo comunicado em que anunciou a sentença, o Tribunal Judicial de Base (TJB) de Macau disse ainda que aceitou um pedido apresentado pelos familiares para "realizarem visitas periódicas" a Au Kam San.

"A nossa maior esperança é que, no futuro, nos seja concedida autorização pelas autoridades para nos correspondermos com o prisioneiro e tenhamos o direito de o visitar regularmente", disse, também hoje, a mulher de Au, Cheang Mio San, numa carta aberta.

Michael Polak, diretor da Justice Abroad, organização de apoio jurídico em casos de defesa dos direitos humanos, disse não saber se o defensor oficioso de Au Kam San tenciona recorrer da sentença.

Cheang Mio San disse à Lusa que está "proibida" de discutir o que ocorreu dentro da sala de audiências e Cherry sublinhou que a família do ativista só hoje soube a identidade do defensor, algo que considera "absolutamente absurdo".

Após a leitura da sentença, a Associação dos Advogados de Macau disse num comunicado que o julgamento "garantiu integralmente os direitos processuais do arguido, incluindo o direito à defesa e à assistência jurídica".

O TJB disse que nomeou um defensor para representar Au Kam San, porque, "no decorrer de todo o processo, o arguido não constituiu, por si, advogado", uma afirmação rejeitada por Cherry.

"Já tínhamos tentado enviar um advogado para o ver anteriormente, mas não permitiram, de todo, que tivesse acesso ao meu pai. (...) Essa declaração que divulgaram é definitivamente falsa", garantiu Cherry.

Com a exceção de dois advogados portugueses, que disseram hoje à Lusa não existirem elementos suficientes para avaliar a condenação de Au Kam San, as poucas declarações públicas feitas em Macau têm sido de apoio à sentença.

Mas Cherry disse que ter sido contactada por muitos residentes da região que estão "indignados e também não conseguem acreditar que algo assim possa acontecer em Macau".

"Até alguns dos meus amigos que são polícias em Macau disseram: `Lamento que isto esteja a acontecer`", sublinhou a filha de Au Kam San.

"É muito difícil manifestar-se numa cidade como esta", disse Cherry, "com um governo que perdeu completamente o juízo ao ponto de prender um homem inocente com base em acusações totalmente inventadas por eles".

Em 2020, Cherry e a irmã, Christy Au, foram detidas por transmitirem, atrás das redes sociais, uma vigília privada em memória da repressão de 1989 na Praça de Tiananmen, em Pequim.

A entrevista decorreu por videoconferência, a partir do Reino Unido, onde Cherry mora desde os 13 anos. A jovem não voltou a Macau desde a detenção de Au Kam San.

Cherry disse temer que a condenação do pai seja apenas "o início de um período muito assustador, em que podem prender qualquer pessoa que tenha um ponto de vista um pouco diferente".

Macau "já não parece mais um lugar seguro para ninguém", sublinhou.

Tópicos
PUB